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O porto que atravessou a Mancha

Passados 75 anos os molhes de Arromanches-les-Bains ainda são bem visíveis e foram decisivos para o sucesso do Dia D

Museu do Desembarque em Arromanches

A 6 de Junho de 1944, fez agora 75 anos, os aliados conquistaram as praias da Normandia e nos dias seguintes consolidaram uma cabeça-de-ponte ao longo de 70 km de costa. Mas isso de nada teria valido se não houvesse onde descarregar reforços e abastecimentos, tanto mais que o porto de Cherburgo continuava sob controlo alemão.

A solução encontrada foi um prodígio de engenharia: os Mulberries, portos artificiais com molhes, cais, passadiços flutuantes e quebra-mares trazidos em peças separadas da Grã-Bretanha e montados localmente. Um frente a Saint-Laurent-sur-Mer e à praia de desembarque norte-americana Omaha e outro ao largo de Arromanches, servindo a praia britânica Gold.

Se o primeiro foi destruído por um temporal a 21 de Junho de 1944, o segundo resistiu e, 75 anos depois, ainda é em parte visível. Na bonita vila costeira de Arromanches-les-Bains o Museu do Desembarque ajuda a perceber a dimensão da obra. É um espaço com pergaminhos, pois foi, juntamente com o Museu da Libertação no forte de La Roule em Cherburgo, o primeiro a ser inaugurado, logo em 1954.

Frente ribeirinha de Arromanches-les-Bains

Frente ribeirinha de Arromanches-les-Bains

A maqueta foi à guerra

A peça central da colecção é uma maqueta cedida em 1956 pelo fabricante britânico de brinquedos Bassett-Lowke. A firma, com uma lendária reputação enquanto construtora de brinquedos, como miniaturas de barcos e comboios, foi mobilizada para o esforço de guerra e começou a fazer maquetas de camiões, barcos e aviões, destinadas a testar os modelos reais.

Fez também modelos reduzidos dos portos artificias do Desembarque para se perceber melhor como prefabricar as peças, como as transportar através da Mancha e como as montar. Estas maquetas serviam, ainda, para as equipas de montagem se familiarizarem com o seu trabalho, ganhando tempo e evitando erros.

Olhando para este brinquedo fascinante, mil vezes mais pormenorizado que a mais rica mesa de comboios eléctricos, podemos avaliar a dimensão da obra. Cada caixote de betão usado para os quebra-mares tinha 60 m de comprimento e podia pesar até 30 mil toneladas. Ao todo cada porto artificial tinha 400 peças, puxadas através da Mancha por uma frota de 125 rebocadores. Um dia depois do desembarque, já com as praias controladas, uma força de dez mil homens começava a montagem que durou duas semanas.

Arromanches e o antigo porto vistos da colina

Arromanches e o antigo porto vistos da colina

O resgate do quadro de apontamentos

Se levantarmos os olhos da maqueta e olharmos pelas grandes janelas do museu, veremos ao largo da praia umas boas dúzias de blocos de betão ainda rodeando a baía, tendo alguns sido trazido para o areal pela força das ondas. Um filme, projectado a intervalos regulares, mostra como as coisas se passaram há 75 anos.

Outra peça curiosa, usada durante anos no inventário de um hotel e restaurante local até ser doada ao museu, é uma longa placa de madeira, dividida em linhas e colunas, onde os oficiais da intendência anotavam a giz os nomes, comprimentos ou tonelagens dos navios que estavam a ser descarregados. E não eram poucos, pois o movimento chegou a equivaler ao do porto britânico de Southampton.

A ironia é que os portos artificiais acabaram por só movimentar 15% das cargas trazidas de Inglaterra, já que os camiões anfíbios Dukw (adaptações do camião norte-americano GMC 6x6 de 2,5 toneladas) permitiam vaivéns a partir das praias. Alguns pequenos portos normandos como Grancamp ou Barfleur também foram aproveitados. E entretanto, um enorme esforço de mergulhadores, sapadores e engenheiros permitia pôr o porto de Cherburgo, conquistado a 26 de Junho, em funcionamento, ainda que provisório, a partir de 16 de Julho.

É caso para dizer que os Mulberries se não tivessem servido para mais nada – e serviram – ajudaram a dar confiança às tropas desembarcadas.

Um dos caixões do quebra-mar arrastado para o areal

Um dos caixões do quebra-mar arrastado para o areal

Um cinema circular

Ainda nesta vila funciona um museu bastante mais moderno, o Arromanches 360º. Situado numa colina a leste da praia tem uma extraordinária vista sobre a baía. Este Verão apresenta-se rodeado por um jardim cheio de esculturas modernas que homenageia o esforço dos soldados britânicos aqui desembarcados.

De meia em meia hora é projectado um filme nesta sala circular, logo com múltiplos pontos de vista para o espectador. Evoca a batalha da Normandia com especial incidência no sofrimento dos civis e, verdade seja dita, tantos anos depois algumas das imagens são capazes de comover o mais empedernido dos corações.

Funciona em rede com o Memorial de Caen, pelo que pode ser adquirido um bilhete conjunto.

Sala de cinema circular Arromanches 360º

Sala de cinema circular Arromanches 360º

Jardim dos Veteranos

Jardim dos Veteranos

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