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Northern Exposure, a versão comédia de Twin Peaks: uma série “quem viu, viu”, “quem não viu, tivesse visto”

Pedro Boucherie Mendes acrescenta mais uma entrada a “Séries com História”. Sempre à segunda-feira, no Vida Extra

John Corbett e Barry Corbin em “Northern Exposure” (1990)

IMDb

A 12 de julho de 1990 estreava na americana CBS “Northern Exposure uma série que duraria seis temporadas, até 1995 e contabilizaria 110 episódios. Emitida entre nós com o título “No Fim do Mundo”, na RTP no princípio dos anos 90, poucos anos mais tarde nas madrugadas da SIC e SIC Mulher, já no século XXI, nunca foi uma série evidente no carrossel da nostalgia, das que se recordam por causa das perseguições ou bombas feitas com ganchos de cabelo, ou por causa de um personagem memorável ou transversal. Não admira, não era uma série dessas.

Com 39 nomeações para os Emmy e sete vitórias, e vencedora do prestigiado Peabody, não se pode dizer que tivesse sido injustiçada aquando da sua exibição original. Mais, teve excelente críticas e boas audiências e gente de grande reputação prévia e posterior a trabalhar nela. Ainda assim, é um mistério que “Northern Exposure” não seja mais debatida, citada e referenciada. Falta ponto de partida? Não. Faltam atores? De maneira nenhuma. Faltam bons personagens? Nem pensar. Falta cinematografia? Pelo contrário. Uma explicação possível talvez seja uma curiosa e improvável similitude com “Twin Peaks”, a estranha série de David Lynch que estreou na mesma altura e cuja sombra terá sido fatal para “Northern Exposure”.

Rob Morrow e Janine Turner em “Northern Exposure” (1990)

Rob Morrow e Janine Turner em “Northern Exposure” (1990)

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Peixe fora de água

“Northern Exposure” parte de uma das premissas clássica da ficção, aquilo a que em gíria se chama “fish out of water”. A saber, alguém que subitamente está fora do seu ambiente confortável ou habitual e tem de se virar nas novas circunstâncias. Aqui, um médico judeu da urbaníssima Nova Iorque, a quem foi prometido que começaria a carreira numa cidade, é colocado inesperadamente numa vilória perdida no Alasca, onde tem de conviver com uma série de “cromos” locais e um alce. Joel manterá uma certa soberba e desdém ao longo de todas as temporadas, numa relação amor/ódio que destila sobretudo humor para o público.

Filmada numa cidadezinha real nos arredores de Seattle, onde ainda hoje é feito um festival “Northern Exposure”, era protagonizada por um novato (Rob Morrow), que interpreta o tal médico exilado como contrapartida para o pagamento dos seus empréstimos de estudante.

E a série é isso – a adaptação de um nova iorquino a comunidade. Esta variável – o local onde a série decorre – tem uma importância muito maior do que por vezes se supõe: “Os Sopranos” seria outra coisa se não decorresse na feia New Jersey e aqueles subúrbios com as mansões dos mafiosos.

Por vezes chamada de um “Twin Peaks” cómico, mais por causa do envolvimento cénico da vilória e porque alguns personagens parecem ter muito que esconder, o próprio ator Rob Morrow só a custo suportou mudar-se para Roslyn (a cidade que fingia ser a inventada Cicely, no Alasca) e, assim que teve dinheiro para isso, passou a mandar vir bagels de Manhattan no primeiro voo da manhã.

A série estreia três meses após “Twin Peaks”, numa daquelas coincidências que acabou por colar “Northern” à criação de David Lynch. A primeira temporada de “Exposure” teve apenas oito episódios e depressa foi usada como ponto comparativo. Quem achava “Peaks” completamente doida e desconexa, usou “Northern” como exemplo de como a televisão de qualidade podia conservar algo de tradicional e, portanto, ser fácil de seguir. Certo é que esta produção, dos mesmos criadores da série de hospital St. Elsewhere, também tinha a sua dose de loucura e insólito, com personagens magníficos, servidos por excelentes atores, muito bem filmada em paisagens magníficas e até uma certa atmosfera onírica, embora a anos luz da intensidade sórdida de “Twin Peaks”. Verdade é que décadas depois, uma ficaria imortal e a outra bastante esquecida.

John Cullum em “Northern Exposure” (1990)

John Cullum em “Northern Exposure” (1990)

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Escrita criativa

Se “Northern Exposure” fosse uma série de hoje, seria uma daquelas cartas poderosas que se jogam em jantares de amigos quando queremos impressionar alguém, a internet estaria cheia de conversa sobre os enredos e personagens e os atores seriam ricos e famosos. Foi um drama/comédia muito à frente do seu tempo, mais própria de um canal premium, ou de uma plataforma, que de um canal generalista como a CBS. Apesar de alguma complexidade narrativa e referências culturais que nem toda a gente poderia apanhar, a série era uma comédia, ainda que lhe faltassem as gargalhadas enlatadas que naquele tempo se usavam amiúde. Com o seu tom melancólico, NE abriu caminho a outros dramas com ressonância de comédia (como “Six Feet Under”, “Parks And Recreation”, etc). David Chase, que viria a ser o criador de “Os Sopranos”, foi o showrunner (líder de projeto) nas duas últimas temporadas de “Northern Exposure”, o que, segundo o próprio, fez por dinheiro, tendo renegado de certa maneira o seu contributo artístico. Talvez não por acaso, as duas últimas temporadas das aventuras de um médico novaiorquino no Alasca são as piores.

Numa altura em que modelos como “McGyver”, “O Justiceiro”, “Os Três Duques” cansavam por repetirem a fórmula até à náusea, “No Fim do Mundo” acrescentava valor à televisão e subia a parada. À medida que o tempo passa (e já lá vão quase trinta anos desde a estreia), a sua qualidade vai-se tornando mais evidente e singular, em especial quando temos esta oferta massiva dos dias correntes. Em projeto está um revival da série, uma espécie de continuação, na qual o médico Joel (interpretado novamente por Rob Morrow) volta a Cicely e reencontra alguns dos companheiros do antigamente e conhece uns novos.

Por diversos motivos, relacionados com direitos das músicas (muito importante na série), “Northern Exposureé uma das principais séries ausentes em plataforma. Só mesmo comprando os DVD.

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