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Vida Extra

As despedidas são coisas chatas

Um episódio pós-férias, que celebra a amizade. “Miallennial”, em chegadas e partidas

Manhattan, Junho de 2019

Mia Tomé

É bom estar longe, longe das nossas cidades, dos nossos países, é boa a sensação de conhecer outro lugar, a sensação de que o mundo está perto. Estar longe é vaguear nos pensamentos como se fossem ruas, ruas de passeios largos, onde podemos caminhar de braços abertos e até tomar decisões com a sensação de certeza. Entrar noutro país é dos melhores presentes que nos podemos dar, ou então, reentrar noutro país para matar saudades de tudo aquilo que já se conheceu.

Atravessei o Atlântico de novo, gosto de o fazer, saber que vou olhar para sítios que me fazem feliz. Os museus da cidade, a crueza das luzes que iluminam os prédios ou até o simples café gelado, que bebo no meio da rua.

A simplicidade fica bem nas viagens, até porque o essencial é invisível aos olhos, e é aí que me alegro com os ventos quentes e abafados das ruas de Manhattan, com a brisa de fim de tarde que tem cheiro próprio e aviva a memória, os sons rotineiros de uma cidade que não dorme, e tudo isso é embalado como recordação.

Talvez exista um único pequeno problema nesta história, nesta de voltar aos sítios, nestes golpes de fuga onde os reencontros são protagonistas de alguns dos dias. É mais ou menos isto:

Jan Tinneberg / Unsplash

Sim, reencontrar as amizades que foram construídas por lá é das coisas mais gratificantes, é bom o abraço longo de uma amiga que não vemos há meses, é confortável a gargalhada e a imparável conversa sobre as novidades, sobre as realidades dos países onde vivemos, a partilha da música que se faz por cá, que se faz por lá, o cinema, a política, o tempo, a vida. Nesses reencontros, as corridas nas ruas são propícias, corridas de alegria, alegria que termina em brinde que convoca já a próxima vinda, mesmo bem antes do voltar. Partilhar o sofá enquanto se come noodles e o estar em silêncio apenas na companhia de uma amizade que a distância fortaleceu. Acontece é que depois, depois de grandes reencontros, há a hora das grandes despedidas.

É aí que o coração tropeça, a pele ganha relevo e os olhos ganham vontade de chorar. Rir para enganar o choro, que até chega porque já sente saudade. Evitar a sensação de que se está a ir embora, não acompanhar ninguém até à porta e apenas dizer “Até já”. As despedidas são coisas chatas, temos de admitir. Devia existir um protocolo, duas ou três frases que pudéssemos dizer. E depois corríamos, para aquela dorzinha tonta desaparecer com a velocidade. Que chatice, aqueles segundos de pôr o pé na escada, aquele abraço que é último num espaço bem longo de tempo, aquele beijo na testa e aquele riso nervoso de quem não quer mostrar emoção. A pequena ansiedade que é pensar no tempo que demorará até aquele encontro voltar a acontecer.

A vida continua e as amizades também, por mais atlânticos que existam entre nós, os amigos são imbatíveis e resistentes aos dias longos em que não se podem olhar: eles pensam-se, celebram-se com o coração.

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