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Vida Extra

TAPAS, essa vontade ardente de autossuperação

Cristina Diniz traz-nos uma nova entrada da sua crónica sobre bem-estar, onde apresenta um conceito que usa "a ética do Yoga para nosso benefício"

D.R.

Estou sempre muito ligada à ética do yoga. Passeio e gosto de me sentir e de meditar sobre certas verdades, sento-me a meditar e gosto de refletir sobre os princípios fundamentais do yoga, pratico no tapete e tento sentir a ética na pele.

Tenho vindo a reconhecer a importância de uma das regras de conduta do yoga – Tapas, o que comumente traduzimos como vontade ou autodisciplina.

A prática do yoga baseia-se em cinco princípios éticos para connosco mesmo (Niyamas) e noutros tantos princípios que devemos ter para com a comunidade onde nos inserimos (Yamas).

Tapas, a vontade intensa, autossuperação ou disciplina é um Niyama, o seu poder é enorme e tem a capacidade de transformar e de nos conduzir até onde queremos ir.

Contextualizando, o que nunca é demais, os 5 Niyamas são: a pureza ou limpeza (saucha); a alegria inata de viver ou contentamento natural (santosa); a vontade ou autodisciplina (tapas); o estudo de si mesmo, introspeção ou autoconhecimento (svadhyaya); e a autoentrega, entrega à Vida, entrega ao Absoluto, dedicação a Deus (Isvara pranidhana).

O termo deriva da raiz “tap” que significa arder, queimar, brilhar, sofrer dor ou consumir pelo calor; por isso mesmo, se fosse traduzido à letra, significaria fogo ou calor. Deduzimos que implica um desejo ardente, sob quaisquer circunstâncias, para alcançar um objetivo na vida.

E todos nós em alguma circunstância da vida experienciámos essa vontade de mudar, de conseguir alcançar algo, superficial ou profundo. Por vezes pretendemos mudar hábitos, queremos ter a capacidade de resistir ao que não nos convém, decidimos conquistar o que parece impossível.

D.R.

Tapas é mais do que a austeridade ou a disciplina que nos impomos. Isso implicaria um certo sentido de repressão ou coacção, que na verdade por si só nada consegue obter porque é oca, vazia.

Tapas é o desejo ardente e a convicção que vamos agir e que a vitória será nossa. É quando lutamos e nos superamos, quando nos dedicamos de coração e mente a uma causa.

É quando estamos decididos a manter a nossa prática de yoga e meditação, decididos a prepararmo-nos para um exame no final de um ano letivo, a apresentar um projeto no trabalho quando o tempo é extremamente limitado, a resistir a um delicioso bolo se queremos manter a dieta.

Essa vontade de autossuperação sussurra-nos num brevíssimo segundo e diz-nos para ir em frente e que vamos conseguir, mesmo que o medo surja e que os receios sejam vários. E se a ouvirmos e a nossa vontade disparar, no instante seguinte alcançamos!

Por Tapas devemos entender o uso disciplinado da nossa energia, é um modo de a direcionar.

Assim, fica o convite a estarmos atentos a nós próprios e a detetar algo que queiramos mudar ou conquistar. Poderá ser acabar com um mau hábito ou até a disciplinar emoções nefastas, a não ser reativo, a acordar cedo, a fazer um trabalho mais aborrecido, a pegar numa tarefa difícil.

Ver também que quando precisamos de disciplinar, normalmente a conjuntura não é fácil, mas é nessa conjuntura que temos de agir. Poderá ser difícil, senão não falaríamos de superação, muitas vezes implica um esforço grande que provavelmente só o amor por nós ou pelo que queremos conquistar nos vai fazer exceder e vencer.

No Yoga fala-se de 3 tipos de Tapas:

· Kayika – as relativas ao corpo, por exemplo continência (brahmacharya) e a não-violência (ahimsa);

· Vachika – as relativas ao discurso, por exemplo não difamar outros ou privilegiar o uso de palavras que não ofendam e relembrar sempre o provérbio “se o que vais dizer não é tão belo como o silêncio, é preferível nada dizer”;

· Manasika – as relativas à mente, por exemplo desenvolver uma atitude mental de autocontrolo, de equilíbrio, tranquilidade e equanimidade tanto na glória como na aflição, tanto em momentos alegres como em situações tristes.

Para as controlar usamos desse entusiasmo ardente, sabendo que por disciplina se entende termos suficiente respeito por nós que nos permita fazer escolhas com vista a um bem-estar maior, providenciando oportunidades para um crescimento e evolução expansivos.

Usamos o nosso empenho, rigor e a força da nossa convicção impulsiona-nos a avançar e a conquistar os nossos propósitos. Avançamos com vigor, entusiamo e uma grande força de vontade em mudar.

Muitas vezes é só estar atento a uma oportunidade de mudança para efetivamente dar a volta, é aproveitar a crista da onda!

Ao praticar Tapas, essa sabedoria de autossuperação e vontade ardente pela conquista do que é bom, o Yogi desenvolve um corpo, uma mente e um carácter forte e são. Ganha coragem, integridade, e a visão acutilante de quem sabe bem a direção a seguir.

Boas práticas!