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Não faltam médicos, falta orçamento

Portugal é o terceiro país da OCDE com mais médicos por habitante. Serviço Nacional de Saúde tem carência de profissionais porque é cada vez menos sedutor do que o sector privado

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Chegar aos meses de verão e ser alarmado pela falta de médicos para assegurar as escalas das Urgências não tem nada de surpreendente. A novidade é que o problema se agudizou porque passou mais um ano. Ou seja, mais especialistas chegaram à idade que os dispensa dos atendimentos SOS, durante o dia ou nas chamadas horas incómodas. E agora? Lá vem a prescrição do costume: pague-se mais.

Desta vez - e depois da carência de anestesistas que no verão passado levou até a escrever-se o absurdo de que alguns hospitais públicos estariam dispostos a pagar 500 euros à hora - o problema atinge os cuidados a grávidas. Na Grande Lisboa faltam obstetras para garantir todos os Serviços de Urgência e a tutela propõe o funcionamento alternado. Mas o bastonário da Ordem dos Médicos avisa que o tratamento proposto é insuficiente, que os cuidados vão estar em risco e que é mesmo preciso ter mais médicos nas escalas. E não apenas obstetras, faltam também neonatologistas e anestesistas. Como? Pagando mais ao longo do ano e não apenas nos momentos de aflição, aliás, como faz o sector privado para ter verões sem sobressaltos.

O bastonário acredita que remunerando melhor os especialistas que optem pela exclusividade no Serviço Nacional de Saúde (SNS) será possível garantir os profissionais necessários. Neste caso, mais 150 ginecologistas-obstetras para perfazer os mil especialistas calculados como necessários em todo o país. Mas não chega aumentar salários, pois os privados vão ter sempre capacidade de pagar ainda mais. É preciso devolver ao SNS a sedução que teve antes de se deixar envelhecer.

Diferenciação técnica, tecnologia inovadora, casuística complexa e atrativa com patologias que habitualmente não existem nas unidades privadas, equipas e carreiras sólidas, um projeto de futuro e sentido de missão, entre outros incentivos que outrora eram a imagem de marca das unidades públicas de saúde. Pagar acima da tabela nos momentos de aperto não chega, é preciso que os incentivos tenham continuidade. Assim tem ficado demonstrado com o regime especial para a colocação de médicos em zonas de carência. Mais dias de férias e um reforço até 40% na remuneração para centros de saúde ou hospitais do Interior e de menor dimensão, por exemplo, têm sido oferecidos aos especialistas e garantido o sucesso do programa de mobilidade, com a ocupação de vagas até então pouco ou nada sugestivas.

Ao invés, sem atrativos sustentados no tempo ficam vazios lugares mesmo nos grandes centros urbanos, que embora sejam centrais acarretam uma elevada carga laboral. Entre os lugares que ficaram vazios estão vagas em centros de saúde na área de Sintra.

Só ganhar mais é pouco. A reforma necessária para fazer rejuvenescer o SNS está pensada e amplamente discutida por todos os intervenientes mas teima em ser adiada. Com a legislatura a terminar, e mesmo em período de graça de pré-campanha eleitoral em que tudo é prometido, ainda não foi desta. Cá estaremos nas férias do Natal para voltar ao tema da falta de médicos para preencher as escalas.

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