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Vida Extra

Não é uma mala muito cara. É a mala mais valiosa do mundo

Na crónica ‘Sem Preço’, Catarina Nunes escreve sobre a Hermès Himalaya Birkin, a mala mais cara de sempre, que a Christie’s volta a levar a leilão a 11 de junho, em Londres

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Começo desde já por dizer que fico sempre um pouco perplexa quando leio sobre os valores alcançados em leilões por objetos utilitários, que custam o mesmo do que uma casa. Com os preços do imobiliário, pelo menos em Lisboa, a deixarem-me igualmente perplexa, uma carteira de mão vendida por 255.892 dólares (€227 mil) faz-me pensar na mulher que arrisca sair à rua com algo mais precioso do que o iPhone ou até mesmo os documentos pessoais. A Himalaya Birkin, porém, foi feita para palmilhar leilões.

A denominação da mala da Hermès que, no final de maio, foi arrematada em Hong Kong num leilão da Christie’s - e que se prepara para voltar à praça (não propriamente o mesmo exemplar) em Londres a 11 de junho - não revela grandes detalhes sobre as características que a fazem o ‘Santo Graal’ das malas de senhora. O modelo Birkin, por si só, já é o mais cobiçado entre os que saem da casa francesa de artigos de couro. A Birkin com o cognome Himalaya faz subir o desejo, por ser produzida em unidades limitadas e numeradas, com ferragens em ouro branco de 18 quilates, 205 diamantes e produzida em pele de crocodilo Niloticus, com origem no Nilo (mais clara do que o habitual entre estes répteis e alvo legítimo de protestos anti-crueldade com animais).

As ferragens em ouro branco de 18 quilates, os 205 diamantes e a pele de crocodilo Niloticus são fizeram a Himalaya Birkin atingir os €336 mil, em 2017, o valor mais alto de sempre

As ferragens em ouro branco de 18 quilates, os 205 diamantes e a pele de crocodilo Niloticus são fizeram a Himalaya Birkin atingir os €336 mil, em 2017, o valor mais alto de sempre

Os tons entre o branco mate e o cinzento esfumado remetem para os cumes nevados das montanhas dos Himalaias e daí o nome que, à partida, pouco ou nada revela sobre a mala mais valiosa do mundo. O leilão de 29 de maio da Christie’s em Hong Kong até indicia uma depreciação dos atributos da Himalaya, tendo em conta que o preço mais alto até agora alcançado com esta carteira de mão foi 379.261 dólares (€336 mil) em 2017, com um modelo produzido em 2014. Esta proeza foi o quebrar do patamar psicológico alcançado em 2016, em que saiu da Christie´s por 300 mil dólares (€266 mil). Estes três negócios têm em comum a leiloeira que os organizou e Hong Kong, o destino onde explode a procura de malas ultra-exclusivas que já tiveram donas anteriores.

A Himalaya Birkin é um ‘dois-em-um’ em matéria de exclusividade. Os materiais raros e nobres são aplicados na forma da mala desenhada para Jane Birkin, que é o resultado de um encontro num avião entre a cantora e atriz e o CEO da Hermès. Reza a história que os dois viajavam num voo Paris/Londres, em 1984, durante o qual a atriz remexia a cesta onde carregava os seus pertences (a tal cesta oval com uma asa batizada como Birkin Basket), que acabaram espalhados no chão. Birkin desabafou com Dumas a dificuldade em encontrar a mala perfeita, o que deixou o CEO da Hermès a magicar no modelo que iria resolver o problema.

A solução encontrada na época é a mala que o tempo tratou de transformar no maior objeto de desejo de mulheres em todo o mundo, que esperam o tempo necessário para a ter no armário. A Himalaya Birkin, a versão ultra-luxuosa e limitada da Birkin, demora 48 horas para ser feita manualmente e tem uma lista de espera de seis anos, razão que também justifica os preços que deixam o mundo perplexo. Talvez por isto, a Christie´s continue em insistir em vasculhar os armários alheios para encontrar mais Himalayas que batam recordes.

Na próxima terça-feira, dia 11 de junho, leva à praça em Londres duas Himalaya Nilotius Crocodilo Birkin (de seu nome completo), a querer bater o seu próprio recorde europeu com esta mala, vendida em 2018 num leilão na capital britânica por 287.145 dólares (€255 mil), o valor mais alto obtido no Velho Continente. A Christie’s potencia assim a notoriedade da carteira de senhora que nos últimos anos tem ganho notoriedade e valorização, não só junto das fanáticas por símbolos de estatuto social. É cada vez mais procurada por investidores em busca de rentabilidades, que podem chegar aos 30% por mala, que compram para voltar a vender, o que justifica a roda-viva de Himalayas em leilões, na expectativa de subida das licitações.

Uma Birkin 40 azul-marinho de 2012, em pele de crocodilo, ouro branco e diamantes, está avaliada em €112 mil e é a peça mais cara em licitação, a 11 de junho

Uma Birkin 40 azul-marinho de 2012, em pele de crocodilo, ouro branco e diamantes, está avaliada em €112 mil e é a peça mais cara em licitação, a 11 de junho

O próximo leilão da Christie’s é focado em malas e acessórios, com 247 lotes de carteiras de luxo raras e desejadas, incluindo malas de viagem do século 19 e do século 20, da Louis Vuitton e da Goyard. Além de apresentar as duas vedetas Himalaya (uma maior e outra ligeiramente menor, avaliadas em 80 mil libras-€90 mil e 90 mil libras-€101 mil, respetivamente), a Hermès é a estrela da sessão, preenchendo mais de metade dos lotes em disputa. Chanel (com algumas criações de Karl Lagerfeld), Gucci,

Celine e Saint Laurent são outras das marcas representadas. A hegemonia da Hermès não se prende apenas com a quantidade, mas com os valores estimados como base de venda.

Uma Birkin 40 azul-marinho de 2012, em pele de crocodilo, ouro branco e diamantes, está avaliada em 100 mil libras (€112 mil) e é a peça mais cara em licitação. A sua raridade prende-se com o tamanho (por serem mais comuns os modelos Birkin 25 e Birkin 30) e por ser feita em pele de crocodilo Porosus da Austrália, que é menos usada na Hermès, o que torna este exemplar mais difícil de encontrar. Os preços de topo mantêm-se com o modelo surgido na sequência do episódio no avião, em 1984. Uma Birkin Ficelle cor de café com leite, de 2007, com fecho e cadeado em ouro branco e diamantes, começa nas 70 mil libras (€79 mil).

Uma Birkin Ficelle cor de café com leite, de 2007, com fecho e cadeado em ouro branco e diamantes, começa nos €79 mil

Uma Birkin Ficelle cor de café com leite, de 2007, com fecho e cadeado em ouro branco e diamantes, começa nos €79 mil

Entre as malas mais caras no leilão da Christie’s em Londres, a Hermès continua a brilhar com as ‘irmãs’ da Birkin menos bem-sucedidas, a Kelly e a Constance, mas cujos preços estão entre os mais elevados entre os 247 lotes. Uma Kelly 25 feita à medida em 2018, cor-de-rosa Scheherazade e verde-esmeralda, em pele de crocodilo Niloticus e acabamentos em ouro amarelo, apresenta-se com um preço base de 40 mil libras (€45 mil). A versão campestre da mala pensada para a atriz e princesa Grace Kelly, a Kelly Picnic, não tem materiais exóticos (é feita em palha e detalhes em couro), mas a sua raridade já lhe valeu ser vendida por 70 mil libras (€79 mil), em Hong Kong, e por 30 mil libras (€34) em Londres. Terça-feira, começa a disputa nas 20 mil libras (€22.500 mil).

Uma Kelly 25 feita à medida em 2018, cor-de-rosa Scheherazade e verde-esmeralda, em pele de crocodilo Niloticus e acabamentos em ouro amarelo, apresenta-se na Christie’s a partir de €45 mil

Uma Kelly 25 feita à medida em 2018, cor-de-rosa Scheherazade e verde-esmeralda, em pele de crocodilo Niloticus e acabamentos em ouro amarelo, apresenta-se na Christie’s a partir de €45 mil

A Constance, modelo para usar a tiracolo como preferem as millennials, vai ao número 8 da King Street, em Londres, por 25 mil libras (€28 mil). Esta edição limitada da mala criada para celebrar o quinto filho da estilista da Hermès, Catherine Chaillet, tem como cor base o azul, complementado com detalhes a preto, roxo e verde. De acordo com a Heritage Auctions, citada pela BBC, o mercado dos leilões de malas de ultra-luxo vale entre 75 milhões de dólares e 100 milhões de dólares (€66,5 milhões e €88,7 milhões) e a tendência é de crescimento. Neste sector, os modelos Hermès são os mais procurados, por serem feitos à mão e com os mesmos materiais, há décadas, ao contrário de outras marcas que são mais inconsistentes.

A versão campestre da mala pensada para Grace Kelly, a Kelly Picnic, não tem materiais exóticos, mas a sua raridade já lhe valeu ser vendida por €79 mil

A versão campestre da mala pensada para Grace Kelly, a Kelly Picnic, não tem materiais exóticos, mas a sua raridade já lhe valeu ser vendida por €79 mil

A marca fundada em França, em 1837, por Thierry Hermès posiciona-se num território paralelo e acima do recente fenómeno do final do século 20 e início dos anos 2000, que fez nascer as ‘it-bags’, designação das carteiras que são vistas nas mãos de celebridades. O fenómeno foi desencadeado com as malas usadas pelas personagens da série ‘O Sexo e a Cidade’ e com os modelos criados por Tom Ford na Gucci e Marc Jacobs na Luis Vuitton, que se tornaram apetecíveis no mercado de segunda-mão. A obsessão com as ‘it-bags’ é tão grande que estas são também os alvos preferidos da contrafação ou de modelos ‘look alike’, que não pretendem fazer-se passar por verdadeiros, mas que se inspiram no desenho original.

A Constance, modelo para usar a tiracolo como preferem as millennials, vai ao número 8 da King Street, em Londres, por €28 mi

A Constance, modelo para usar a tiracolo como preferem as millennials, vai ao número 8 da King Street, em Londres, por €28 mi

Hong Kong está atualmente no topo das vendas de malas de luxo usadas, com a Christie’s a revelar que faz cerca de metade das vendas deste tipo de artigos na Ásia, seguida pelos Estados Unidos (30%). Entre a Europa, Médio Oriente e África dividem-se os restantes 20%. No leilão de malas e acessórios da Christie’s em Hong Kong a 29 de maio, a totalidade dos lotes vendidos renderam 5,8 milhões de dólares (€5,1 milhões), com a Himalaya Birkin a liderar como a peça mais cara. Cerca de 20% dos compradores (não só nesta categoria como nas de pintura, cerâmica, vinho, relógios e joias) ainda não eram nascidos quando a Birkin foi criada, encontrando-se na geração millennial. Os jovens que fazem crescer os negócios de luxo, afinal, também procuram símbolos de estatuto.

Christie’s

Leilão Malas&Acessórios, 11 de junho às 12h

8, King Street, St James (Londres)

https://www.christies.com/salelanding/index.aspx?lid=1&intsaleid=28030&dt=76201992735&saletitle=