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Vida Extra

Da Lousã a Fafe atrás dos melhores pilotos do mundo

A descrição dos bastidores da cobertura para o Expresso da 35ª edição do Rali de Portugal. Uma aventura feita de Citroen C5Aircross

João Garcia

Escolher o carro ideal para acompanhar as várias etapas do rali de Portugal é um pouco como tentar fazer a quadratura do círculo. Tem que ter potência para se despachar mas não pode gastar muito combustível. Convém ser confortável e espaçoso mas não ao ponto de não caber nas passagens estreitas. Deve ter alguma altura ao solo porque vai andar fora do asfalto mas sem perder a homologação em Classe 1 nas portagens.

Tudo integrado, a resposta ao enigma só podia ser uma: um SUV da última geração. Já tinha experimentado o Citroën C5 Aircross nos montes e desertos pedregosos da cidade marroquina de Marraquexe e tinha ficado bem impressionado com a suspensão (de duplo batente hidráulico como as dos ZX que em tempos idos andaram pelo Paris-Dakar). Disso mesmo vos tinha dado conta numa crónica em Janeiro deste ano e portanto optei por este carro para a cobertura da edição de 2019 do Rali de Portugal.

Saída matinal para Góis

A minha intuição dizia-me que, ao fim de 17 anos, o regresso aos troços de Góis, Arganil e Lousã, ia ser complicado, com quase inevitável recurso a muito atalho fora do asfalto. Daí que tenha pedido para levar a versão com grip control que, embora só com rodas dianteiras motrizes, adapta electronicamente a tracção aos diferentes tipos de piso. Provavelmente com a mesma intuição que eu, Jorge Magalhães, responsável pela comunicação do grupo PSA em Portugal disse-me: “Cuidado com o carrinho porque só há um destes em parque…”

Sexta-feira 31 de Maio, às sete da manhã, lá estávamos nós, o C5 Aircross e eu, à porta do meu ex-camarada de trabalho do Expresso João Garcia, prontos para a aventura. A caminho de Góis, os 180 cv do motor diesel fizeram-nos deslizar com prontidão e suavidade pela A1, IP3 e IC6. Dirão os pessimistas que também não se podia esperar menos de um carro que custa para cima de 40 mil euros…

O C5 também chegou ao fim do rali

O C5 também chegou ao fim do rali

João Garcia

O itinerário sugerido pelo ACP Motorsport implicava percorrer parte da estrada Góis-Arganil (N342), cortando para leste em Celavisa e subindo a caminho do troço de Góis e da Zona Espectáculo 9. A partir de Pracerias, começou a tornar-se extremamente duvidoso que alguma vez lá

conseguíssemos chegar: na ausência de comissários da prova e de elementos da GNR, os espectadores tinham deixado de tentar estacionar os carros, passando a abandoná-los onde calhava. Só me vinha à memória o 75º aniversário do Desembarque da Normandia, pois a estradinha parecia albergar uma divisão motorizada da II Guerra Mundial acabada de ser bombardeada.

Aventura fora de estrada

Uma marcha atrás tão milimétrica como magistral do João Garcia permitiu-nos sair da armadilha e regressar a Celavisa. Foi aí que fizermos o erro do dia: tentar chegar ao troço através de um itinerário alternativo, claramente indicado como “só 4x4”. Ligado o sistema, daí em diante jocosamente designado como “controlo da gripe”, abalancei-me a uma subida louca, muito trilhada e escorregadia mas de piso seco. O C5 portou-se com surpreendente galhardia e devorou metade dos 3 km que nos separavam da classificativa.

Até que fomos vítimas da popularidade de Ott Tanak. Expliquemo-nos melhor: a boa época protagonizada pelo piloto estónio da Toyota trouxe a Portugal uma legião de compatriotas seus. E estes, que se tinham abalançado à mesma aventura que nós com carros de tracção às duas, apresentavam-se encostados à parte interior de um gancho inclinado à direita, o que só me deixava duas hipóteses: ou manter prego a fundo e roçar o lado direito do nosso carro pelos deles, sabe-se lá com que consequências, ou tirar gás. Foi esta a minha opção e mesmo com caixa automática e gestão electrónica o nosso carro recusou-se a subir mais e tivemos que o calçar com pedregulhos porque ameaçava resvalar para um forte declive à nossa esquerda.

Como entretanto tinham passado os primeiros concorrentes lá em cima, os estónios já desciam a pé e, fortalecidos por um número desconhecido mas seguramente alto de cervejas, ajudaram-nos a desatascar o carro e recuar, tarefa para a qual também contribuiu a tripulação de uma pick-up Mitsubishi lusa cujo condutor olhava para nós de olhos esbugalhados e só repetia: “homens do c…, como é que chegaram aqui com esse carro?

Para baixo todos os santos ajudam

Para baixo todos os santos ajudam

D.R.

O Pai e as Donas

De orelha murcha regressámos à estrada nacional, resignando-nos a só ver um troço naquele dia, já da parte da tarde. O mal não foi só nosso. No dia seguinte outro companheiro de trabalho, o José Caetano, queixar-se-ia de ter tido que subir 2 km com o computador às costas até ao troço da Lousã.

Reconfortados por uns pregos e imperiais à saída de Arganil, metemos mãos à obra na direcção de Arganil-2 e da Zona Espectáculo 11. Desta vez havia GNR a controlar as operações e a estrada era um pouco mais larga, pelo que foi tudo uma questão de nos arrastarmos a passo de caracol até à última barreira, a partir da qual só passavam as viaturas de imprensa.

Ainda houve que arbitrar algumas divergências entre condutores e guardas por alturas de Luadas e Pai das Donas e clarificar leituras divergentes do que significavam as credenciais “media” e “vip” bem visíveis no nosso pára-brisas mas tudo acabou por se passar da melhor forma.

Este carro não vai a todo o lado. Mas quase...

Este carro não vai a todo o lado. Mas quase...

D.R.

Espectáculo na serra

No meio de um calor e de uma poeirada infernais lá vimos finalmente a armada da Toyota a atacar, de faca nos dentes, dois ganchos sucessivos, com os Hyundai, Citroën e Ford a fazerem os possíveis para não ficaram muito para trás. Bela zona espectáculo esta: viam-se os carros a descer ao longe no alto da serra, a desaparecer no arvoredo e a ressurgir já muito perto, para, depois de nos brindarem com um banho de pó, subirem sempre à nossa vista para a cumeada seguinte.

Fomos brindados com olhares do mais puro ódio e inveja por parte dos espectadores que tinham de regressar a pé aos seus carros, não obstante circularmos de forma a levantar o menos pó possível. Nem os leões do circo romano terão olhado de forma tão feroz os primeiros cristãos. O Garcia, com a sua ácida ironia habitual, dava-me cotoveladas e murmurava: “Achas que vale a pena dizer-lhes que estamos a trabalhar?”

Bolos e costeletas

Como compensação por meia hora de engarrafamento na portuense VCI, comprámos na sucursal da Padaria Ribeiro em Matosinhos, várias caixas de línguas-de-gato e afins, das melhores de Portugal, garanto-vos eu. Seriam umas nove da noite quando chegámos à Quinta da Picaria, simpático turismo rural perto de Santo Tirso, onde por tradição me aboleto para a cobertura do rali. Para ganhar inspiração para a primeira crónica na Tribuna, uma jantarada na Casa Cristininha, com saborosas costeletas e uns bíblicos jesuítas para a sobremesa.

No dia seguinte, sábado, eram de esperar menos complicações porque os três troços (Vieira do Minho, Cabeceiras de Basto e Amarante) eram mais afastados e havia profusão de acessos. De manhã optámos pela parte intermédia do troço de Amarante e fizemos bem. Tirando a travessia do centro da cidade do Tâmega, única forma de apanhar a N312, a estrada do

Fridão, tudo se passou sobre rodas. Chegados ao Fridão, a partir do parque de lazer respectivo o acesso era reservado, pelo que o carro ficou mesmo à beira da classificativa.

João Garcia

Gancho a fundo

Esta passagem, ao contrário da véspera, tinha visibilidade muito limitada, resumida a um gancho à esquerda a descer. Mas que gancho! No meio de uma poeirada medonha os pilotos voavam para a direita, apanhavam tracção, corrigiam a deriva traseira e abalavam a fundo, vereda abaixo. Um mimo, para quem goste de ralis.

Para a tarde, a ideia era ver a segunda passagem em Vieira do Minho. Como se apanhava a hora de almoço, houve oportunidade para confirmar que nesta simpática vila a Pensão Arijal (agora hotel) continua fiel aos seus pergaminhos, do tempo dos primeiros guias do Expresso, servindo muito bem, com simpatia e a preços interessantes.

Para chegar à classificativa a partir de Vieira era preciso andar uns bons 30 km pela N103 (Braga-Chaves) e aí o nosso carro voltou a dar cartas: apesar de se tratar de um SUV, logo com um centro de gravidade tendencialmente mais alto que um carro normal, curvou primorosamente e ainda melhor, na estreita estrada asfaltada que subia da N103 para a aldeia de Zebral e a Zona Espectáculo 16. Mesmo (ou sobretudo) quando foi preciso fazer habilidades milimétricas para fintar um ou outro condutor vindo em sentido contrário e convencido, vá-se lá saber porquê, de que a estrada era só para ele… A caixa automática de oito velocidades respondia sempre com eficiência, embora uma ou outra vez “espevitada” pelas patilhas do volante.

João Garcia

Salto de 30 metros

De novo, um troço de cumeada do rali, com os concorrentes a aparecerem muito ao longe, darem a volta à serra pela curva de nível e passarem à nossa frente numa recta, brindando-nos com uma disputada prova de salto em comprimento, após uma lomba. Para gozo dos espectadores havia uma escala métrica que começava nos 15 e terminava nos 40 m. Descontado algum erro de paralaxe, posso assegurar que se ninguém chegou aos 40, Lappi (Citroen), Loeb e Sordo (ambos Hyundai) voaram uns 30 m bem medidos…

Um alerta aos espectadores, no regresso deste troço. O encontro da N103 com os ramais vindos de Vieira do Minho (N304) e do Gerês (N205-5) faz-se através de uma rotunda que satura completamente, penalizando muito em especial quem circule na direcção Chaves-Braga e se arrisca a levar uma hora para fazer 2 km. Por isso, aqui ficam duas alternativas.

Uma, infalível mas mais lenta, consiste em, um par de quilómetros antes da referida rotunda, sair da N103 para a direita, atravessar o Cávado pelo paredão da barragem de Salamonde e prosseguir pelo Parque Nacional da Peneda Gerês, subindo para Fafião, Ermida e Pedra Bela e descendo para as Caldas do Gerês, apanhando aí a estrada para Amares (e depois para Braga). Escusado será dizer que do ponto de vista de paisagem a estradinha é maravilhosa e que do ponto de vista de condução é para homens de barba dura.

A outra, dependente do ponto onde a N103 comece a engarrafar, consiste em vir com muita atenção e em Louredo (após deixar para trás Salamonde) descer à direita seguindo as indicações “Gerês”, circulando pelo asfalto muito estreito e inclinado (e com dois sentidos, convém lembrar) que desce até Rio Caldo, às pontes sobre a albufeira da Caniçada e à estrada para Amares.

Para rematar condignamente este segundo dia de rali, novo jantar em Santo Tirso, agora no restaurante Migalhas, em pleno centro. Oportunidade para ainda ver um bocado da final da Liga dos Campeões (grande jogo!) e dividir uns filetes de polvo e uma posta, cada qual melhor que a outra. Único senão, não tem multibanco, pelo que convém levar umas notas no bolso.

Surpresas em Fafe

Para o último dia, a alucinante ronda de Fafe que nos brindou, na última passagem pelo histórico troço da Lameirinha, com um voo picado do Ford de Greensmith no Salto do Pereira, uma portentosa traseirada de Loeb e uma roda arrancada ao Toyota do irlandês Meeke. Escusado será dizer que os três citados e os respectivos navegadores não se aleijaram mas foram tomar duche mais cedo…

E nós também, preparando o regresso a Lisboa, via Exponor. Durante estes três dias o C5 Aircross fez tudo o que lhe pedimos para fazer e sempre com distinção, nunca gastando muito mais que oito litros de gasóleo aos cem. Menos em Góis, desmentindo a palavra de ordem do Maio de 68, pois ser realista, às vezes, não é pedir o impossível, pois pode não haver “controlo da gripe” que nos valha…