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Vida Extra

Até já Nova Iorque. Crónica dos últimos dias antes das férias, com Portugal à vista

A atriz Maria João de Almeida traz-nos mais uma crónica de “Inventário de Nova Iorque”. Desta vez para nos falar de saudade. De Portugal e dos dias loucos que ficam para trás. Até setembro

Photo by Jetty Piers on Unsplash

Esta é a última crónica que escrevo deste lado do Atlântico. Para a semana já estarei em Portugal a beber o meu querido expresso e uma boa água das pedras com gelo e limão. Vou beber uma cerveja no Jardim do Torel com os amigos, deixar o livro de cheques em casa e dar beijos em todas as bochechas que conhecer. Vai ser a loucura.

Estes nove meses aqui foram uma banda de rock ’n’ roll em digressão com todas as rixas de bar, os meltdowns dos membros, o autocarro a ir demasiado rápido e o ar condicionado avariado. E agora a digressão chega ao fim, e eu não sei o que fazer comigo. Como assim não tenho nada para fazer? Analogias parvas à parte, eu quase vivia no studio seis dias por semana, de manhã à noite. Este corte repentino e drástico na rotina deixa-me um bocadinho zonza, se bem que reconheço que uma pausa de todo este rock ’n’ roll também era necessária. De volta à querida (civilizada) Europa. Dar de beber ao cérebro outras poções menos caóticas.

Há uns dias fui à praia. Era o Memorial Day, e como não tínhamos aulas decidimos que merecíamos fugir do betão. Eu já não ia com grandes expectativas em relação à constituição daquela praia, porque quer dizer, sou de Portugal, não é verdade? Praias bonitas temos nós. E não me enganei, não era incrível, não. No entanto, deu bem para sentir o sol tocar a minha pele previamente bronzeada somente pelo néon de Times Square, e gritar uns quantos ‘’I’m alive!’’ a levar com aquelas ondas gélidas nos nossos pobres corpinhos citadinos tão desabituados das maravilhas simples.

Nesse dia, no regresso a casa, quando saía do metro tive uma epifania musical: quero ouvir Skunk Anansie. Já não ouvia esta banda há anos, e nem sei porque me lembrei de tal, mas cheguei a casa e, convencida de que os meus roommates me iriam acompanhar nesta viagem ao passado, pus a dita música a tocar. Nenhum deles conhecia Skunk Anansie. Eu não quis acreditar e pus todos os grandes hits que achei que tinham que reconhecer, mas não. Eles olhavam para mim do género ‘’desculpa, não te podemos acompanhar neste remember o que quer que seja que estás a fazer, nunca ouvi isto na minha vida’’. Sofri por eles naquele momento, e agradeci muito ao meu querido pai que sempre me mostrou boa música desde pequena. Tirando Kid Creoule and The Coconuts. Quer dizer, agora em retrospectiva, e ouvindo a música deles, eu achava era o nome parvo. E aí estava o fundamento para toda a minha embirração com eles. Porque a música até é groovy e cool. E aqui estou eu a tornar-me no meu pai.

O ano chega ao fim e estes piqueniques no Central Park, e cafés de despedida, e wine and cheese nights e outras tantas ocasiões de ‘’adeus, até para o ano’’ começam a ter lugar umas atrás das outras. É bom estar com todas estas pessoas que foram a nossa família durante o ano fora das paredes do studio, porque é isso mesmo que foram. Eu literalmente vi estas pessoas todos os dias da minha vida desde que cheguei aqui, tirando os domingos. E elas viram-me nos estados mais vulneráveis, decrépitos, nus e crus, assim como eu as vi a elas. Talvez por isso se construa esta conexão tão rápida e forte. Estamos todos na mesma corda bamba, e estamos todos cá em baixo para apanharmos quem cair. E não há como explicar essa sensação. É humanidade pura. E eu gosto muito de ser pessoa. E de pessoas que também gostam de o ser.

Até Setembro vou ser pessoa na minha língua. Com as pessoas que ajudaram a moldar quem escreve estas palavras. Os meus pais, os meus amigos, a minha família. Eu não estaria agora nesta corda bomba se ninguém me tivesse ensinado a andar. I’ll see you in a second New York.