Perfil

Vida Extra

Entrega à Vida - Isvara pranidhana

Cristina Diniz, como de costume à quarta-feira, traz-nos uma nova entrada da sua crónica sobre bem-estar

Passamos, por vezes, os dias a lutar. Batalhamos sem parar para conseguir os nossos objetivos: sociais, académicos, profissionais, pessoais. Sozinhos ou em conjunto desbravamos caminhos, almejamos pelo bem-estar e felicidade dos filhos, asseguramos a saúde dos mais velhos, somos empreendedores incansáveis. E por vezes parece que nada resulta, é fracasso atrás de fracasso, saturamo-nos de reações negativas ou pior ainda, constatamos o vazio da não resposta.

Refletimos e perguntamo-nos porquê? Onde falhámos? Porque não resulta?

Fazemos o devido questionamento e análise sincera para averiguar erros que possamos estar a cometar e com eles aprender.

Outras vezes concluímos que as razões podem ser tão diversas que nem vale de muito o desgaste de as apurar.

Pela minha parte decido então encarar a situação com resiliência, prosseguindo os meus propósitos até que eu própria defina o fim e não os outros.

É neste ponto que me lembro de um outro princípio ético fundamental do yoga. Aquele que talvez sempre evitei abordar. Ele é subtil, delicado e penso que pode melindrar. Quando me aproximo de temas que tratem de fé, crenças, espiritualidade, religiões gosto de os tocar com a mesma delicadeza que o ourives faz as obras em filigrana.

Isvara pranidhana, no contexto do yoga é um Niyama, ou seja, uma das regras de conduta aplicadas à disciplina individual.

São 5 os niymas existentes: a pureza ou limpeza (saucha); a alegria inata de viver ou contentamento natural (santosa); a vontade ou autodisciplina (tapas); o estudo de si mesmo, introspeção ou autoconhecimento (svadhyaya); e a autoentrega, entrega à Vida, entrega ao Absoluto, dedicação a Deus (Isvara pranidhana).

Diria que Isvara pranidhana é uma convicção, tem a ver com a nossa própria natureza, é simplesmente acreditar que um dia, na altura certa, acontecerá da melhor maneira para nós.

Quando a razão não nos pode ajudar, nós temos ou não fé. Resta-nos aqui crer que se algo não aconteceu como seria esperado, é porque não estamos ainda preparados para essa tarefa ou desafio.

Isvara pranidhana é continuar sempre a lutar e a fazer o nosso melhor, rumo ao que gostamos. Nem é bem rumo à vitória ou ao que queremos alcançar, mas sim continuar a trabalhar com o coração, perseverança e a leveza de um espírito brincalhão que sabe rir da própria tragédia.

É fazer tudo o que se podia ter feito, dar o nosso melhor e depois “entregar-se”, supondo que o resultado da ação já não nos pertence.

Isvara pranidhana é a dedicação das nossas ações a um Ser superior. É ter fé e não desesperar. É acreditar que o Universo, a Natureza, Deus ou um Ser superior, como lhe queiramos chamar, é a fonte de todo o poder e a Ele entregar o resultado após termos esgotado todos os nossos recursos e mesmo assim não termos tido sucesso.

É ter a humildade e o amor de pedir ajuda quando nada depende de nós e nada podemos fazer.

É rendermo-nos a um poder superior e acreditar que na altura própria as ocasiões e oportunidades surgirão.

É ter força de carácter e a convicção que todos os obstáculos surgem para o nosso crescimento pessoal.

É recordarmo-nos de que só vem até nós aquilo que estamos preparados para receber no momento presente.

E tendo presente este conceito, que encaro como uma dádiva, opto por ser coerente com os meus valores, primar pela equanimidade tanto na vitória como na derrota e receber o que a vida me dá, não esquecendo que a vida também tem magia nem o velho e respeitável lema "Fortis fortuna adiuvat"! E como “A sorte favorece os bravos”, brilharemos sempre com luz própria, com ou sem o resultado desejado e continuamos o nosso caminho.

Boa caminhada! Boas práticas!