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Vida Extra

Um efeito adverso grave: a falta de confiança

Um estudo da Deco, publicado na sexta-feira, revela que um protetor solar para crianças tem um índice bastante inferior ao que é ‘vendido’. Em saúde, as falsas promessas são perigosas. E piora quando os visados garantem que, de facto, houve um erro, mas cometido pela análise independente

Perder a confiança é das coisas mais difíceis de emendar e, provavelmente, nunca reposta como antes. Precisamente, o que pode estar prestes a acontecer nesta história. Os protagonistas são uma entidade independente dedicada ao consumo e uma marca farmacêutica de renome.

O primeiro acaba de divulgar, na sexta-feira, um estudo que denuncia a venda de um protetor solar fraudulento da responsabilidade do segundo. Ambos garantem estar certos, mas a verdade é que há um erro. Portanto, ou os promotores da análise ou do produto estão prestes a perder a confiança até aqui conquistada, e nada voltará a ser como antes. Quer a Deco, quer a ISDIN são chancelas acima de suspeita e é preciso, mesmo, que tudo se esclareça. Está nas mãos do Infarmed tirar a teima e revelar quem fala a verdade.

Os estudos realizados pelos peritos da associação de defesa do consumidor nunca foram postos em causa e as suas conclusões são há vários anos uma bússola para os cidadãos que se preocupam em fazer escolhas acertadas. A ISDIN é uma marca farmacêutica igualmente credível, na área da dermatologia, e por isso frequentemente recomendada pelos médicos. Então, como é que a Deco garante que o laboratório está a vender um protetor solar com índice 50 que não vai além de um fator 15 e para mais para quem é altamente suscetível, as crianças?

Os peritos da Deco asseguram que a análise já foi repetida, o resultado voltou a ser o mesmo, e confirma os estudos que já tinham dito o mesmo noutros países da Europa, por exemplo na vizinha Espanha. A segurança nos procedimentos e nos dados laboratoriais é tal que foi tudo, entretanto, remetido para a Autoridade Nacional do Medicamento - Infarmed para que “atue em conformidade”.

O laboratório ISDIN refuta a conclusão e reage, acusando a Deco de má prática. “Apesar de ter sido solicitado, a DECO não forneceu uma cópia do estudo no qual, supostamente, foram identificados um SPF e um UVA-PF menores do que o

indicado na rotulagem do produto, pelo que a ISDIN não teve oportunidade de verificar, nem a metodologia, nem a execução, nem a coerência dos resultados deste estudo.” Mas não só: “Mais informamos, para maior tranquilidade dos consumidores, que as afirmações que aparecem na rotulagem do produto são confirmadas por estudos independentes realizados por entidades certificadas e prestigiadas.”

Entre os dois intervenientes está o produto na origem da polémica, o protetor solar ISDIN Fotoprotetor Pediatrics Transparent Spray 50+ . No mercado há vários anos, desde 2015, não é raro encontrá-lo exposto com destaque em farmácias e espaços saúde, precisamente, pela confiança que até aqui despertava em dermatologistas e consumidores. Garantia que já não volta. Mesmo que venha a ser demonstrada que o erro foi dos estudos realizados nos vários países, a imagem imaculada dos protetores solares da ISDIN ficará com uma marca para sempre, o detalhe bastante para fazer uma grande diferença.