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"24": um grande 31

Jack Bauer era o herói de uma série que se confundiu com a realidade no princípio deste século

Jack Bauer, com o relógio a contar

IMDB

Tudo aponta, tudo indica, tudo conflui para que a série "24" (Fox, 2001-2010) tenha influenciado, estimulado e encorajado as práticas de tortura da CIA sobre suspeitos de terrorismo nos meses e anos seguintes ao 11 de setembro de 2001.

Do outro lado argumento "24" também é usado para os que defendem que Obama beneficiou para a sua eleição da circunstância de na série os americanos se terem habituando a presidentes negros capazes, determinados e de forte personalidade.


"24" estreou na FOX dois meses a seguir ao 11 de setembro de 2001, mas obviamente já estava pensada, concebida, produzida e filmada antes do ataque terrorista. Aliás a estreia foi adiada umas semanas para que a Fox pudesse perceber se o público americano estaria recetivo ao conceito, mesmo que nessa primeira temporada o “inimigo” nem sequer fosse islâmico.


A premissa da produção era singular: cada temporada contava com 24 episódios e cada um decorria em tempo real, uma originalidade que os argumentistas usaram a preceito. Literalmente, o agente Bauer tinha 24 horas por temporada para salvar o mundo (os atores precisavam de aparar o cabelo de cinco e cinco dias para efeitos de verdade ficcional).


No tempo da televisão servida em doses semanais, a série contabilizaria uns 200 episódios em oito temporadas, um revival, um telefilme e uma sequela, nas quais Bauer (ou alguém como ele) salva freneticamente tudo e todos, porque o ataque, a bomba, o atentado, o tiro, o ataque cibernético, está sempre iminente. A utilização de um relógio com o “tempo real” e uns sonoros e irritantes “bips” intensificavam a experiência e o nervosismo do espetador, contribuindo para que a série ganhasse tração. No seu segundo ano, "24" virou moda global e vários canais de televisão, incluindo a nossa RTP, passaram os episódios seguidos no fim da exibição das temporadas, criando happeningsde binge watching pré-era Netflix.

Traumas

Numa América chocada, traumatizada e raivosa com os ataques às Torres Gémeas, a chamada mentalidade “Jack Bauer” fez escola na CIA e nos gabinetes da Administração Bush, numa daquelas coincidências que tornam a vida real muito mais estranha que a ficção. O juiz do supremo tribunal Antonin Scalia citou a série e o cenário “bomba relógio” como justificativo para a tortura, afirmando “Jack Bauer saved Los Angeles. He saved hundreds of thousands of lives. Are you going to convict Jack Bauer? Say that criminal law is against him? ‘You have the right to a jury trial?’ Is any jury going to convict Jack Bauer? I don’t think so.”


Do outono de 2001 em diante, a herança que a série ia deixado era de legitimação da tortura e de preconceito contra os muçulmanos, vistos como o “inimigo”. Ao longo das temporadas a dupla questão tornou-se num elefante tão grande na sala que responsáveis do Pentágono se reuniram com os produtores, por temerem que os militares mais novos pudessem ser influenciados pelas heroicidades de Bauer. Deste modo, apesar de os produtores nunca o reconhecerem, para temperar afinidades, atores e personagens islâmicos e muçulmanos “bons” foram sendo introduzidos, tentando equilibrar as coisas juntos do público. Ainda assim, e somando as temporadas, o agente Jack Bauer matou mais de trezentos meliantes.


Ao que parece a inspiração para "24" foram mais dos filmes de ação com Schwarzenegger ou Bruce Willis da década de 90 que outra coisa. O uso da linguagem subjetiva das câmaras é que lhe deu a contemporaneidade, o que atesta (numa opinião que venho reforçado ao longo dos anos) que a técnica e tecnologia têm uma influência superlativa nas histórias que vamos vendo em filme ou vídeo e marcam épocas. Certo é que para uma série de ação, com muitos ingredientes foleiros (é essa a palavra), "24" conquistou vários prémios, incluindo um Golden Globe e um Emmy para melhor série.


Antes de "24", não havia séries com esta ambição, tão rápidas e em que o nosso herói era tão implacável. O agente da CIA Jack Bauer (o ator de “cinema” Kiefer Sutherland) salvava a América, atropelando regras e regulamentos, como se os fins justificassem os meios. Bauer é o retrato (quase caricatural) do herói americano. Forte, ágil, decidido, perito em combate e em todo o tipo de armas, lobo solitário ao serviço do bem, sem neuroses paralisantes e sabedor que os burocratas de gabinete fazem regras que é preciso contornar de vez em quando.


Apesar dos estereótipos, de alguns personagens desinteressantes e sem complexidade e vilões sem sofisticação, cada episódio de 24 era emocionante, cheio de guinadas na história e imprevistos, com os terroristas prestes a atingir os seus objetivos, numa questão de horas ou minutos, ainda que na chamada “vida real” possa não ser assim. Este foi outro dos debates suscitado por "24": para a opinião pública de uma forma geral os atentados são coisas que se evitam em cima da linha da meta, enquanto que os vários especialistas teimavam em referir que o combate ao terrorismo é um trabalho de paciência.

O ser o e o parecer

Estritamente, a série do canal generalista Fox beneficiou do momento americano e mundial, mas esse momento também expôs muito do ridículo binário com a qual a administração Bush caucionou a guerra ao terrorismo global nos anos seguintes ao 9/11. E por isso envelheceu mal. Ou então qualquer coisa aconteceu, porque "24", apesar da inovação, qualidade técnica e ambição de meios, costuma ser uma ausência nas listas das melhores séries deste século.


Para todos os efeitos, o carimbo Rambo ficou. "24" é um produto da era Bush mesmo podendo ter contribuído para que Obama chegasse à Casa Branca (porque na trama havia um fortíssimo e muito capaz presidente afro americano). Sendo uma das primeiras obras a dar uso aos DVR, usava um tipo de edição rápida e picada que fez escola durante uns anos, a que se soma o uso de split-screens com barras pretas. Esta agitação, nervosismo e rapidez nos planos e os efeitos visuais, aproximavam "24" de uma linguagem própria da informação que, naqueles anos da “Guerra ao Terror” dos aliados contra os terroristas, abundavam nos televisores dos lares ocidentais.


Nos primeiros meses, e até chegarem os prémios, "24" começou por não ter muita audiência, mas nos anos seguintes passou a ser a banda sonora e visual dos que eram favoráveis às ações militares dos americanos no médio oriente. Chegou a ser referida explicitamente por Bill Clinton numa entrevista.


Realidade e ficção conviviam bem até que em 2004 rebenta o escândalo na prisão iraquiana de Abu Ghraib e são reveladas fotografias de soldados americanos a humilhar prisioneiros. A opinião pública acorda para a tortura, condena-a e "24" torna-se uma outra série, extremista, que se calhar nem todos querem ver.


Ainda que no primeiro episódio haja um avião a explodir em pleno ar, só houve jiadistas em duas das temporadas. No resto, Bauer perseguiu sérvios e outros separatistas do antigo Bloco de Leste. Em rigor, no mundo da série o 11 de setembro não é referido ou a sequer a Al Qaeda. Um spin off – "24 Legacy" surgiu em 2017 – mas foi cancelada ao fim de uma season.


Ao que parece há uma prequela em preparação, com um Jack Bauer novinho. A acontecer, será curioso ver que inimigos, de que cor, religião e nacionalidade, lhe vão arranjar os argumentistas.