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Coração com coração: as crianças

Não foi assim há tanto tempo que a geração millennial se despediu do cargo que era ser criança - sem muito esforço ainda é possível relembrar. Uma millennial, que recorda o ontem num episódio de hoje, numa sala de aula.

Getty Images

Para um millennial recordar como foi ser criança não é assim tão difícil, temporalmente não está assim tão longe, foi há uma década, mais coisa menos coisa. Então, que bom é recordar essa fase que parecia tão longa e uma condição eterna: nunca mais ficávamos crescidos! Era um receio ficar-se criança para sempre. Uns dizem que era tudo mais simples, discordo, ser criança não era simples, era intrigante: o medo existe noutra escala e é claro que os vilões também. O medo de atravessar o corredor à noite, o vilão do escuro, e como não podia deixar de ser, os infinitos porquês. Ser criança, foi e sempre será uma excelsa aventura.

Um dos momentos que mais me alegra a semana, é sem dúvida dar aulas. É regra geral ficar feliz por entrar na escola: primeiro porque me sobem à memória pequenos episódios do meu tempo nela, segundo, porque tenho a oportunidade de oferecer memórias idênticas a outras crianças que ali estão.

É da felicidade entrar naquele lugar, é estimulante estar ali, e o que ainda mais me alegra é saber que é recíproco: nas palavras dos meus alunos, a “Expressão Dramática” é uma coisa feliz. É o pedaço do dia para se usar a imaginação sem medo, isto porque a imaginação por vezes pode ter tanto de bela como de assustadora. É o sítio onde podemos estar descalços, sentar no chão, brincar com a voz ou entender o espaço.

Há umas semanas, ao subir até ao segundo piso da escola, pelas escadas, que no calor do meio da tarde são um desafio para todos, apresso-me rapidamente para chegar à porta da sala de aula, espero pela turma que vinha ofegante e cansada da viagem que foi escalar uma boa quantidade de degraus. Vejo-lhes os sorrisos nas caras, com aquele ar de quem se orgulha de uma qualquer doce rebeldia que é chegar provavelmente dois minutos atrasados a uma aula. Entram, enquanto aguardo na entrada a chegada de todos: sou contemplada por um abraço apertado, de uma menina que me dizia boa tarde. Sinto o coração dela a palpitar, a bater ferozmente depois daquela grande subida. Partilho com ela tal obervação, que o seu coração batia tanto que o conseguia sentir de volta. Espantada, pára, olha para mim e pergunta: “É possível tu sentires o meu coração?!”. Há uma ternura qualquer a envolver esta pergunta, há um sentimento de descoberta admirável. Pede para me abraçar de volta, para confirmar que eu lhe dizia a verdade. Os outros colegas que se apercebem do fenômeno em estudo, repetem a mesma pergunta e aproximam-se para confirmar mais uma vez a minha resposta. Sim, podemos sentir o coração uns dos outros.

A alegria inundou-lhes os olhos, e rápidamente a sala estava repleta de crianças que se abraçavam, em busca de sentirem o bater do coração. Foi uma tarde importante, onde se descobriu que nos podemos escutar também pelo peito, através desse órgão fundamental, que para nós adultos já só o olhamos como um pedaço de carne, que serve apenas para bombear o sangue.

Hoje celebra-se o dia da criança, mas que os seus direitos sejam celebrados todos os dias, é urgente olhar para a desigualdade e não ignorar que ela existe: somos crianças apenas uma vez, que possa ser uma grande aventura, repleta de direitos que são cumpridos.

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