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Bilbau, um casamento de amor

Modernidade e tradição, não só não são incompatíveis, como se podem aliar na construção de uma cidade que fascine os visitantes sem enjeitar os locais. Uma lição para Lisboa

Se a jóia de Lisboa é a Baixa Pombalina, a de Bilbau é o “casco velho” e as suas siete calles (sete ruas). As diferenças saltam à vista mal saímos do metro na Praça Unamuno e começamos a percorrer a zona histórica: praticamente não há lojas do chinês, muito menos sucursais das cadeias de fast food, ou montras de parafernália turística. Apesar de alguns anúncios dando conta de iminentes encerramentos, o comércio tradicional manifesta alguma saúde, vendendo aquilo que é local e genuíno, sejam as famosas boinas bascas, tão resistentes à chuva como um boné em gore-tex, sejam tecidos, vinhos, queijos ou livros.

A falta de terreno livre nesta nesga entre duas curvas da ria onde chegaram a residir 50 mil pessoas fez com que ao longo dos séculos os prédios se fossem elevando e muito. Sinal do clima, frio e chuvoso, a maior parte das casas tem varandas fechadas em madeira ou ferro e nas traseiras o engenho popular inspirou-se no guarda-chuva pessoal para criar grandes sobrinhas protectoras dos estendais de roupa.

Bar Jorgintzulo na Plaza Nueva

Bar Jorgintzulo na Plaza Nueva

Uma praça especial

A Bilbau genética e popular não vendeu a alma ao diabo nem se vergou ao bezerro de ouro. Confirmamo-lo, entrando na Plaza Nueva (praça nova), geométrica e alpendrada, onde aos domingos se realiza o mercado de velharias. Circule-se de tasco em tasco, provando o txakoli, vinho branco local e os aperitivos, aqui chamados pintxos. Alguns são tão notáveis como surpreendentes, misturando gratinados, foie gras, bacalhau, ovos, etc. Se aqui vier, não hesite em entrar no Sorgintzulo ou no Guretoki.

A decoração interior não destoa da ementa nem do atendimento. Fora da praça, já na orla virada à ria, o Arenal, perto do portentoso Teatro Arriaga, no bar e salão de chá El Tilo foram restauradas as pinturas murais oitocentistas da autoria de Juan de Aranoa. Menos sorte teve o velho Café Boulevard, jóia da art-déco, cenário de encontros e tertúlias que, recuperado em 1989, acabou por fechar, não obstante um coro de protestos.

Passar da margem direita para a esquerda, corresponde a mudar de época, da Bilbau popular das Siete Calles para a cidade de fins do século XIX, alimentada pelo progresso industrial, de que são expressão grandes edifícios públicos como os da Bolsa ou da estação ferroviária de Abando. A cidade nova estende-se ao longo de ruas largas e ortogonais, a principal das quais é a Gran Via, dedicada ao senhor feudal D. Diego Lopes de Haro que no século XIV concedeu o primeiro foral à cidade.

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Entre Siza e Gehry

Numa cidade que tem uma moderna rede de metro (estações projectadas pelo arquitecto britânico Norman Foster a partir de 2004), também se anda bem a pé, como por exemplo até aos dois grandes museus locais: o ultra moderno Guggenheim (Frank Gehry, 1997) ou o sóbrio Museu das Belas-Artes, vizinhos e complementares.

Museu das Belas Artes

Museu das Belas Artes

O das Belas Artes é gratuito a partir das 18 horas, coisa que nem todos os turistas saberão, e tem uma rica colecção de pintura que inclui, além dos melhores pintores bascos, obras de Goya (algumas salvas das peripécias da guerra civil) e da portuguesa Vieira da Silva.

O Guggenheim é a expressão de uma viragem na força motriz da cidade: passada a época de ouro dos estaleiros e das siderurgias, uma nova aposta na abertura à modernidade e ao mundo, na renovação urbanística. Junto ao museu duas outras obras marcantes: a esguia torre do edifício da Iberdrola (Cesar Pelli, 2012) e o volume compacto das instalações da Novartis, desenhadas por Siza Vieira em 2012.

Museu futurista

O museu, nem que estivesse vazio, valeria a visita, só para apreciar a leitura dos espaços e volumes feita por Gehry. Por fora, um conjunto de superfícies metálicas curvas que parecem enroscar-se na vizinha ponte de La Salve. Lá dentro, átrios e andares, parecendo jogar às escondidas com a luz exterior. O piso térreo é dominado pela obra de Richard Serra, cuja instalação inicial “A Serpente” é agora completada por sete outras obras em aço laminado e que desafia sensorialmente o visitante, convidado a internar-se nas espirais do tempo e do espaço.

Cá fora acolhe-nos a “escultura” em buxo e flores “Puppy” de Jeff Koos, inspirada num terrier escocês. Das exposições temporárias, uma referência especial para “O Indescritível” da norte-americana Jenny Holzer, desdobrada entre o olhar irónico sobre as chamadas frases feitas e a denúncia das arbitrariedades sofridas por civis iraquianos após a invasão de 2003.

Uma ponte que desliza

Terminemos esta crónica com uma viagem até à origem das coisas. Em bom rigor a história de Bilbau começa com um roubo, ou seja a transferência, feita no século XIV, do comércio e das instalações portuárias de Portugalete, perto da foz, para a zona a montante da ria de Nervión, mais protegida das tempestades e dos piratas. O nome Portugalete não tem a ver com reminiscências lusas mas com a função original do lugar, ou seja um sítio a partir do qual se fazia, desde o tempo dos romanos, comércio com a vizinha Gália.

Os 40 minutos de autocarro desde Bilbau até ao mar (carreira nº 3411 entre Emsanche Plaza e Getxo/Areeta), ao longo da margem direita do Nervión, são também uma espécie de aventura na máquina do tempo. A caminho do porto romano e medieval de Portugalete, onde toda esta história começou, vemos a inexorável decadência da indústria pesada basca, nomeadamente da construção naval, tendo o último grande estaleiro fechado há dois meses.

Até que, adivinhando-se já lá ao longe o mar, saímos em Areeta no ponto a ria se começa a alargar e deparamos com uma obra-prima da engenharia oitocentista, uma ponte móvel. Como os fundos arenosos e lamacentos dificultavam a abertura de fundações, optou-se por uma solução tão simples como genial: o tabuleiro, muito curto mas acomodando uma faixa central para veículos e duas laterais para peões, está suspenso de cabos de aço e roldanas, movendo-se de uma margem para a outra à flor da água, à maneira de um teleférico horizontal.

Esta obra-prima, localmente designada como Puente Colgante, foi construída em 1893. Os pilares de suporte têm 61 m de altura e o percurso de um lado ao outro, 160 m. Está classificada pela Unesco desde 2006. Na margem esquerda fica Portugalete, com a sua arquitectura oitocentista e uma área ribeirinha com terreiro e coreto onde aos sábados ressoam as flautas típicas de três buracos e os tamborins bascos. Para regressar à margem direita também há pitorescas lanchas a fazer lembrar a portuense “Flor do Gás” que, através do Douro, liga o Ouro e a Afurada.

Daqui para montante a ria foi dragada e emparedada no século XIX para facilitar a navegação, o que teve consequências no regime de cheias, como se verificou tragicamente em 1983. Quem tenha boas pernas pode caminhar pela margem direita até ao Atlântico. Quem as não tiver dispõe de um moderno e confortável serviço de metro, tanto à superfície como em túnel. Muito interessantes as praias de Neguri e Agorta existindo nesta última um funicular que liga o passeio ribeirinho à zona urbana e à linha de Metro. Aí se descobre a expressão basca para “segure-se ao corrimão” mas mais fácil é fazê-lo que pronunciá-lo…

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