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No fim da história, é capaz de estar muito do que somos. Sobre o final da Guerra dos Tronos, sem spoilers.

Peter Dinklage em “Game of Thrones”

IMDb

1. As séries acabam também porque os seus atores, produtores e demais membros criativos pretendem fazer outras coisas. Não somos só nós que queremos fazer coisas diferentes na vida: os nossos atores favoritos também. Ou seja, a criatividade e artisticidade têm mais condicionantes do que as que saltam à primeira vista.

2. Fazer uma série é uma atividade capitalista. Não só há quem tenha de ganhar dinheiro com a empreitada, como são precisos bons profissionais que queiram lá estar a quem é preciso pagar.

3. Game of Thrones foi escolhida para ser feita muito porque continha nudez feminina avulsa e extrema violência. É (ou era?) esse o perfil da HBO, a de ter programação com picante.

4. Por falar em HBO, um dos seus programas mais famosos foi “Cathouse” (em Portugal, o “Rancho das Coelhinhas”), um reality muito gráfico sobre um bordel no Nevada, exibido entre nós na SIC Radical. Com muita nudez e cenas de sexo explícito foi um verdadeiro motor de angariação de subscrições para a HBO durante muitos anos. Como era na HBO, “Cathouse” não era um reality, mas sim uma série documental. Sim, assim mesmo, não leram mal a hipocrisia.

5. Em Portugal, há quase duas décadas, o célebre e subterrâneo canal 18 cumpriu essa mesma função. Toda a gente falava nisso e a única forma de ver era subscrevendo a então Tv Cabo. Ou seja, sex drives subscriptions. Aparentemente, as pessoas adoram “boa televisão”, mas são vidradas em nudez (feminina) e sexo na televisão.

6. Hoje em dia, a HBO está mais respeitável e artisticamente mais desafiante, razão por que “Cathouse” desapareceu do mapa e não está disponível na plataforma. Foi enfiada debaixo do tapete. Confiram aqui https://eu.usatoday.com/story/life/tv/2018/08/29/hbo-cathouse-adult-entertainment/1131198002/.

7. Como é bom de ver, também a HBO ficou surpreendida pelo êxito global da série “A Guerra dos Tronos”. Programas “globais” costumam ser transmissões desportivas, mas agora percebemos que também a ficção lá pode chegar. Casualmente, vi o episódio final num bar de hotel em Los Angeles, como se fosse uma final da Champions, no meio de outros fãs.

Se me dissessem que isso alguma vez iria acontecer, diria que era impossível.

8. A pirataria, em especial a pirataria poucos minutos depois do episódio das primeiras temporadas ser emitido na América, foi um grande ensinamento para a HBO. Não só não refilou, como percebeu que tinha ali uma série que agradava a meio mundo que ficava acordado para ver cada nova dose na madrugada de domingo para segunda.

Quem também usou a pirataria a seu favor foi a banda Iron Maiden. Através de um software próprio, apuraram quais os países onde havia mais downloads da sua música e marcaram concertos para aí. Ficaram ainda mais ricos.

9. Não se sabe porque é que os humanos ganharam consciência (a), como (b) e porque não só precisam (c) como anseiam (d) por histórias, seja o Capuchinho Vermelho, seja o Natal, seja Moisés abandonado numa cesta no Nilo, seja agora esta “Guerra dos Tronos”. O que se sabe, porque se intuiu e investigou de várias formas e em diversas especialidades, é que existe uma identificação entre aquilo que somos, queremos ser e julgamos estar certo ou errado e as histórias que vemos. As histórias serão então espelhos onde nos refletimos, sendo que a esmagadora maioria de nós não passa de um simplório que precisa, anseia e gosta de finais “como deve ser”. Deste modo, a reação de cada um de nós ao “final” de “A Guerra dos Tronos” é capaz de ser um bom espelho daquilo que somos.

10. Acabada “A Guerra dos Tronos”, a probabilidade quase nula de haver histórias que continuam com os personagens que conhecemos deve-se muito provavelmente ao fato de os atores que a HBO pretenderia ou se terem recusado ou terem pedido somas astronómicas. Imaginem a atriz que faz de Arya Stark presa por três ou mais anos ao papel. Dificilmente teria uma carreira daí em diante.

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