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Vida Extra

A ressurreição do IP5

Com a aplicação de portagens electrónicas na A25 passou a valer a pena usar alguns troços do antigo IP5, pois estes deixaram de ter camiões

Construído entre 1986 e 1988 o IP5 vinha quebrar isolamentos seculares entre as terras de Riba Côa e o Atlântico. Contudo, tratava-se de um traçado de montanha, sinuoso, sem separação central e com uma arriscada coexistência entre ligeiros e pesados, já que boa parte do comércio externo português se fazia por ali. Não tardou que os acidentes se multiplicassem, fazendo deste itinerário o terceiro mais mortífero da Europa.

Foi preciso esperar até 2006 para esta via rápida ser substituída por uma auto-estrada moderna e segura, a A25. Até a introdução de portagens electrónicas em finais de 2011 voltar a por tudo em causa.

É possível conceber traçados alternativos mas uma boa parte destes utilizam estradas antigas, estreitas, muitas vezes de montanha e com muitas travessias de localidades. Afinal, por alguma coisa se tinham construído o IP5 e a A25…

Tal como sucede na A23 de que vos falei em crónica anterior a melhor alternativa consiste em voltar a utilizar dois troços dos antigos itinerários principais, neste caso o IP5 que, livres do tráfego pesado, voltaram a ser praticáveis. Um entre Vouzela e Viseu e outro entre Celorico e Guarda.

Museu de Grão Vasco, em Viseu

Museu de Grão Vasco, em Viseu

Ana Baião

Até Viseu sem portagem

No primeiro caso, se circula pela A25 vindo do lado de Aveiro deverá sair no nó 14 (Vouzela Nascente) para a serra da Penoita. Ainda que nada nestas indicações o sugira, na verdade, está a passar da A25 para um troço ainda praticável do antigo IP5 que o levará até Viseu Norte, sem problemas, sem trânsito e, sobretudo, sem portagens. Do nó 14 para leste a A25 e o IP5 divergem, seguindo, respectivamente, por sul e por norte da cidade de Viseu.

Este caminho alternativo inclui ligações directas e gratuitas para o IP3 na direcção de Coimbra ou para a A24, na direcção de Lamego. É, ainda, uma opção interessante para quem se dirija de Viseu para Vouzela, Caramulo ou, mesmo, São Pedro do Sul.

Pelo antigo IP5, cujo perfil imediatamente reconhece, com os marcos quilométricos característicos, serão quase 30 km que, sucessivamente, cruzam a A24 e contornam Viseu por norte. Por este velho IP5 há diversas opções de entrada na cidade, a última das quais através da N2, para Lamego, junto ao restaurante Santa Luzia, um dos expoentes da cozinha beirã, cujos filetes de polvo com migas, regados com um bom vinho do Dão mais que justificam a viagem até aqui. Ainda não está a salivar? Então saiba que, entre muitas outras sobremesas, tem um requeijão com doce de abóbora que é de se lhe tirar o chapéu.

O itinerário alternativo termina perto da chamada Curva do Camelo, entrando directamente na A25 no Nó 20 (Caçador). Permitiu contornar três pórticos e poupar alguma coisa (estime à média de um euro por pórtico em Classe 1 para ter uma ideia dos custos em causa)

O piso ainda está bom, há poucos camiões mas nota-se a tendência para as pinturas no pavimento desaparecerem e para o próprio pavimento se degradar.

Restaurante Santa Luzia, Viseu

Restaurante Santa Luzia, Viseu

António Pedro Ferreira

Pela rampa de Alvendre

O segundo troço alternativo, entre Celorico da Beira e a Guarda, corresponde, ironicamente, àquele que era o troço mais perigoso do IP5, a temida Rampa de Alvendre entre Porto da Carne e a capital de distrito. Tal como no itinerário alternativo anterior, desaparecidos os camiões (ou quase), a forte pendente do traçado não é problema para um ligeiro conduzido por um condutor minimamente desembaraçado.

Vindo do lado de Viseu e saindo nó 28 da A25, se seguir para Porto da Carne entra a direito no antigo troço de Alvendre do IP5. Está lá, tal qual nos lembramos dele: uma rampa interminável e sinuosa com piso pouco aderente, onde os veículos pesados, consoante subissem ou descessem, levavam os motores ao rubro, ou deixavam pastilhas e discos de travões num estado lamentável.

Este traçado é também uma lição de geologia, permitindo apreciar o traçado da falha da Vilariça, que vinda da margem direita do Douro e do Pocinho, aqui cava extenso vale e contribui para existência de estâncias termais como Cavaca (Aguiar da Beira), Cró (Sabugal), Fonte Santa (Almeida) ou Manteigas. As Caldas da Felgueira (Nelas), Carvalhal ou Sangemil (Viseu) não ficam longe.

No final da subida o IP5 conflui com a A25, sendo esta gratuita até aos nós da Guarda (29) e Pinhel/Guarda Gare (30). No sentido contrário a colocação do pórtico electrónico faz com que o caminho não seja rigorosamente simétrico, pelo que vale a pena descrevê-lo em pormenor.

Se está na Guarda e quer aproveitar a rampa de Alvendre do antigo IP5, terá que fazer um trajecto ligeiramente diferente. Se vem do centro da cidade a descer para a A25, pouco antes do nó de entrada nesta, deve cortar à esquerda para a povoação de Alvendre, subindo e seguindo sempre a estrada principal. Antes da dita aldeia estará a passar por cima do antigo IP5. Não se engane: deve entrar a descer, direcção Porto da Carne.

J.Correia

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