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A prática do desapego — Aparigraha, no tapete de yoga e na vida

Ravi, o jovem indiano já nosso conhecido, continua a ir, com empenho e entrega, às aulas de yoga tão bem dirigidas pelo seu mestre Swamiji

D.R.

Apesar de viver na região abençoada das afamadas “montanhas azuis” — as Nilgiris, no estado de Tamil Nadu, no sul da Índia — e ainda que tenha consciência da sua sorte por habitar numa zona tão calma e linda, sentia que a sua vida laboral e social nem sempre era fácil de gerir. Por isso mesmo os momentos de paz no Ashram onde praticava eram de total importância para ele.

Na última aula, Swamiji tinha abordado demoradamente o conceito de Aparigraha, o desapego. Ravi lembrava-se bem que se tratava dum yama, um dos cinco princípios éticos para com a comunidade onde nos inserimos. Sabia que sendo a ética a base do yoga, este conceito apontava para a necessidade de nos desapegarmos do que nos prejudica, de não cultivarmos a possessividade, emoções, memórias ou ideias que nos tragam sofrimento. Aparigraha — o não apego — enfatizava a importância de nos agarrarmos apenas àquilo que precisamos no momento.

No final dessa aula, por sinal mais teórica do que prática, o mestre tinha lançado o convite aos discípulos de refletirem um pouco sobre esta matéria. Seria uma meditação e um momento de autoconhecimento e seria suposto sentir a relevância de aparigraha na vida real.

Ravi viu que um excelente modo de fazer essa reflexão seria durante a prática pessoal de yoga no seu tapete enquanto executava as sequências de posturas físicas, as suas práticas respiratórias, o seu relaxamento final. Decidiu estar bem consciente dos seus pensamentos e atitudes enquanto fazia yoga, sabia que era o local perfeito para o autoconhecimento. Tudo o que aí sentisse e pensasse podia extrapolar para a vida real. Iria aproveitar a oportunidade para os analisar bem, melhorar o seu comportamento quando inserido na comunidade e até a sua maneira de pensar, se fosse caso para tal.

E chegou a conclusões bastante válidas. Reparou, sem antes ter tido disso consciência, que se comparava com os seus colegas de prática, achava que os outros eram melhores do que ele e esse pensamento remetia-o para um sentimento de inferioridade. Por outro lado, em certas posturas ele estava lindo e elegante e considerava-se num estádio mais avançado. Isso não lhe parecia nada bem e decidiu desapegar-se desse sentimento de inferioridade ou superioridade, deixar de se comparar com os outros e enveredar pelo caminho do meio, com equanimidade, focado apenas na sua própria evolução pessoal.

Em certas posturas também achou que, se tivesse outra compleição física, conseguiria atingir a postura perfeita. Decidiu desapegar-se da ideia de que nos falta sempre qualquer coisa para sermos felizes e optou por explorar, contar com e trabalhar apenas com aquilo que tinha, com o corpo que era o seu e estar grato por ele.

Viu que algures numa postura física muito difícil, o professor chegou ao pé dele e o quis ajudar. Ficou feliz por ser humilde e aceitar a sabedoria dos outros, reparou que não estava nada apegado à presunção de que não precisava de ninguém para progredir, o que é lindo, pois na vida todos precisamos e devemos agradecer a ajuda uns dos outros.

Foi muito tenaz e forte. Nas posturas que requeriam muita força muscular e de espírito, decidiu persistir, não desistir, aguentar o esforço. Viu que o caminho certo é não nos apegarmos à ideia que somos fracos, que não temos força ou que não conseguimos suportar mais. Na vida real aplicaria a mesma mentalidade, implementaria o não apego a pensamentos destrutivos e de fraqueza, lutaria sempre, ultrapassaria as dificuldades no seu rumo à prosperidade.

Ravi achou muito curioso quando reparou que a sua atitude usual na vida era ajudar os outros, mesmo que se prejudicasse a si próprio. O que o fez ter consciência disso foi ter logo a intenção de dar a uma colega um material que ela precisava. Contudo não o fez, pois viu que a consequência seria perder o seu equilíbrio, destruir o seu próprio trabalho, desviar-se do seu propósito. Concluiu que provavelmente não poderia ser tanto assim e optou por desapegar-se dessa ideia que tinha de agradar sempre aos outros.

Desapegou-se da perceção de que estamos sós. Quando menos esperava viu que um colega lhe teceu um belo elogio. Os olhos do seu companheiro Yogi reconheceram a formosura e pertinácia de Ravi na custosa postura do corvo, quando ele próprio achava que nunca sequer iria levantar voo …

Durante a sua prática Ravi tirou também a ilação que o apego total pela opinião dos outros por vezes é prejudicial e faz-nos estagnar. Sabendo que padecia de algumas limitações físicas, optou por ter sempre em consideração os diferentes pareceres de profissionais de saúde, mas seguir também sempre a sua intuição e conhecimento corporal pessoal.

No relaxamento final teve a certeza de como era bom desapegar-se, nem que fosse por breves minutos, de tensões e preocupações. O corpo e a mente agradeciam tanto! Bastava esboçar um suave sorriso e contemplar como o cérebro ficava solto, liberto, feliz.

Por último, continuaria o seu voto de não apego a memórias do passado ou a projeções do futuro. O seu foco seria o tempo presente, o único que verdadeiramente dispomos para influenciar e viver.

E as palavras de Swamiji ecoavam ainda e sempre na sua mente: “O passado é história, o futuro um mistério, o momento é uma dádiva, é por isso que se chama o presente!”

Boas práticas!

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