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‘Seu’ Aleixo: Um boneco de pelúcia coimbrão é um êxito no Brasil

Esta semana, Pedro Boucherie Mendes escreve sobre “O Programa do Aleixo”. É a mais recente entrada de “Séries com História”

Estreada em novembro de 2008 na SIC Radical, O Programa do Aleixo foi (então) olimpicamente ignorado pela critica e pela imprensa da especialidade, embora nunca pelos fãs que conheciam o universo da internet ou por alguns dos humoristas mais renomados.

A série de animação de sete episódios chega à SIC Radical depois de um processo negocial lento e foi uma verdadeira epopeia que os episódios chegassem de facto. Os “renderings” nos lentos computadores de então e os mil e um toques a mais nas animações pelos artistas de serviço atrasavam a entrega dos episódios, para desespero dos responsáveis do canal.

Que valeu a pena, valeu. Raras vezes houve tanta inteligência, originalidade e qualidade ao mesmo tempo no humor português, feito por portugueses e para portugueses. A mil e quinhentos euros por episódio, Bruno Aleixo já era um ser vivo no digital de há onze anos, mas foi com esta série que começou a escalar.

Solipsismos


Num resumo simplificado, O Programa do Aleixo era um talk show em animação 2D, rústico e intimista, em que uma espécie de urso de pelúcia (Bruno Aleixo) interage com os seus amigos e conhecidos, que obriga a que sejam cúmplices da sua viagem numa maionese muito particular. Como outros apresentadores, o próprio Aleixo é caprichoso, cruel, picuinhas e atropela o que tiver de atropelar pelo ângulo que melhor o favoreça, ofendendo e magoando sem remorso. O seu objetivo era o estrelato, não fazer amigos.

A série é uma magnífica criação dos GANA, Guionistas Não Alinhados, Pedro Santo e João Moreira, então com colaboração de Joao Pombeiro. Falar de Bruno Aleixo é falar de um tipo de humor de obsessão, regionalista, solipsista e maniento, sem palavrões nem demasiados vínculos ao presente trendy e moderno, que não fossem fenómenos abstrusos como o jogo Streetfighter ou a banda Milénio. O apelido Aleixo chegou do poeta António Aleixo e o nome Bruno à raridade de pessoas assim batizadas no tempo que em Bruno Aleixo nasceu (na biografia do boneco de Coimbra, ele é sexagenário, completando 62 anos a 21 de junho), num golpe criativo próprio dos GANA, que os fãs da série entendem perfeitamente e os outros talvez nem tanto.

Numa década que parecia ir bem para a nação portuguesa, com os juros a baixar e o euro parecido com uma cerveja geladinha numa tarde de verão e num tempo favorável ao “humor português”, dominavam Herman, Gato Fedorento e os herdeiros do Levanta-te e Ri, bem como vários autores ligados às Produções Fictícias, que escreviam ficção e crónicas com humor em vários meios. Neste panorama, de alguma repetição de processos, o coimbrão João Moreira (voz de Bruno Aleixo e outros) e o discreto leiriense Pedro Santo (voz de Busto) faziam – com Pombeiro - outra coisa, completamente diferente, surreal, muito cúmplice, que se tornou “culto”.

Fora do eixo lisboeta das mil e uma connections e influências e um pouco impertinentes na construção do seu caminho pessoal, os “Aleixos” acabaram por nunca conseguir apanhar uma onda maior, também porque o humor português naquela altura formava um universo mais fechado e repetitivo, mas sobretudo (acredito) porque o facto de ser em animação retirava versatilidade e rapidez de resposta num país como é Portugal, onde tudo tem de ser de hoje para amanhã e o planeamento é uma palavra só usada em dicionários.

Tele rural

Na sua vida inicial online, o boneco Aleixo era muito parecido com um Ewok de Star Wars. Na transposição para a SIC Radical, e por motivos de direitos autorias, optou-se por uma imagem menos atreita a chamar a atenção dos advogados de George Lucas, tendo o urso com cara de cão ganho uma expressividade mais ampla. Em 2012, houve uma segunda temporada na Radical, também com sete episódios, e depois uma outra série de televisão, igualmente na SIC Radical, Aleixo PSI (em 2017), estando um filme em preparação para o final do ano.

Pelo meio, os “Aleixos”, que mantém uma grande presença nas redes sociais onde são seguidos por milhares de fãs piedosos, tiveram pequenos programas na RTP em tempo de grandes competições futebolísticas e mil e uma rubricas na rádio e projetos online.

Não é simples definir em que consiste Bruno Aleixo, a não ser que as suas múltiplas existências nos vários meios se focam no próprio Aleixo e incluem (quase sempre) os seus comparsas Homem do Bussaco, Renato ou (o meu favorito) o eternamente injustiçado Busto.

Aleixo mistura uma sageza invulgar sobre trivialidades e vive de monomanias muito particulares que defende à luz de um certo conservadorismo próprio dos provincianos. Mas é sobretudo um indivíduo infantil e caprichoso, francamente irritante e capaz de investir todo o tempo do mundo nos seus pequenos e irrelevantes nadas. Atualmente o universo Aleixo existe em versão rádio, na Antena 3 e na RTP play. As séries citadas existem em DVD (exceto a Aleixo PSI), sendo que no YouTube estará tudo ou quase tudo e é nos comentários que descobrimos a autêntica paixão que os seguidores têm por este mundo. Para compensar, algumas pessoas detestam este imaginário e não são poucos os que não o entendem de todo, o que torna “Bruno Aleixo” na verdadeira definição de “fenómeno de culto”.

O grande mérito artístico desta criação está na construção dos personagens, nos textos, na linguagem, nos jogos, diálogos, nuances e menos na (assumidamente) tosca dimensão da produção visual. Entre os grandes momentos estão as interpretações de Bruno ou Busto de clássicos da pop ou as suas cálidas críticas de cinema.

Inexplicavelmente, nenhuma marca portuguesa pegou neste coletivo e personagens de um modo sistemático, pelo que continuam clandestinos, colocando a cabeça de fora de vez em quando, com este ou aquele projeto, até em espetáculos ao vivo. Felizmente para eles, a internet apresentou-os ao mundo lusófono e são adorados no Brasil, onde chegaram a fazer projetos e continuam a ser elogiados, inclusive por elementos da Porta dos Fundos, percebendo-se que a admiração é genuína sem que decorra de uma certa hipocrisia lubrificada de amor por Portugal e pelos portugueses com que os artistas modernaços do Brasil enchem salas e chegam facilmente às primeiras páginas de jornais de referências debitando os mais comuns dos lugares comuns. No caso de Aleixo, e notamos pelos comentários, os brasileiros gostam mesmo.

Talvez o que mais me apeteça sublinhar sobre os conteúdos Aleixo em geral é este prodígio tão português da falta de militância e adesão concretas até aos artistas que adoram. A página de IMDB de O Programa do Aleixo é incompletíssima e nem sequer tem apontamentos para reviews ou comentários dos utilizadores. É como se O Programa do Aleixo tivesse sido uma mera chuva de verão. A página da Wikipédia é outro vazio de detalhes.

O que se verifica é que os críticos e jornalistas gostam francamente do universo Bruno Aleixo e puxam por ele, mas que essa adesão não se traduz no que poderíamos chamar construção de memória coletiva acerca desta que é, sem dúvida, a mais popular e genuína criação cultural de Portugal para a açucarada, enorme e tropicalíssima ex-colónia. Bem à frente de todos os lentes, cronistas, escritores e demais génios contemporâneos que procuram esse cetro.

P.S. Estive envolvidíssimo na existência do Aleixo na SIC Radical e o que posso dizer é que Moreira e Santo em pessoa e em interação, são tão ou mais intrigantes que os personagens que criaram e a que dão vida e voz.