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Deserto

Um esboço de insónia. O deserto de vazio ou o deserto de desejar. Melodias do rádio e as invenções da madrugada

Toa Heftiba / Unsplash

Olho para as insónias como lugares, como espaços físicos, de tão espessas que são, parece que ganham forma: tecto, parede, rua ou areal. Habitar numa insónia, num lugar onde o sono não chega, onde o sono não existe.

Há tempo para pensar, para escrever, para sujar folhas com aguarelas, mas há noites em que as insónias se parecem com o deserto: desabitadas, longas, inundadas de simbolismo. A madrugada, que traz a sensação de se estar só, na cidade que dorme, e nós a contrastar com os outros mortais. Ali desperta, como se fosse um dos cowboys que ouvi falar. Moonshine! — expressão que surge no século XVIII, devido aos produtores contrabandistas de whisky. A destilação era feita durante a noite, quando se tornava mais difícil a descoberta de tais feitos.

Para estas insónias, que nos valha a luz da lua, neste contrabando de ideias frenéticas que o cérebro não consegue deter.

Textos que se decoram à luz da noite parecem atrasar a chegada do dia seguinte. Frases que ganham novas dimensões, à conta de uma sonolência que não é consumada. Devorar páginas e páginas, dizer palavras mudas, personagens inventadas de pés descalços e roupão azul. E o deserto que verte história faz-me achá-lo belo.

Um mal com poucas curas, este de não dormir. Fica o calor que nos tem prendado os dias, fica com as noites a ajeitar-nos os lençóis.

Deserto quente que faz pensar, quente que arde, mas que pouco cura. Lentamente aproximo-me do rádio, ligo-o baixinho, escuto. A voz que surge como um oásis, a voz que embala devagarinho com os acordes dançantes. A melodia que aquece ainda mais o ar, mas que conforta a ansiedade e abraça sem saber. Ouço repetidamente.

Lá no fim da madrugada, esse deserto começa a sua fuga, o areal infinito deixa de existir, grão a grão desfaz-se até ficar o nada. É aí que o sono vagabundo finalmente chega a casa e se aninha na cama, exausto, abraça-me e sussurra ao ouvido palavras que não sei repetir. Porque o sono é uma cidade com língua própria: uma cidade dentro de outra cidade, e eu não lhe sei responder.

Desertos destes, não os combaterei, junto-me a eles e permaneço quieta com o seu timbre: é que as insónias estão desertas (de o ouvir).

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