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Vida Extra

Quem vão ser os novos escravos?

Cristina Margato escreve sobre o facto do nosso cérebro ainda ser mais vasto que o céu

SEACAT

Querido Willie,

Uma das minhas escritoras preferidas, Rosa Montero, escreveu um livro a partir da história de um dos filmes que marcou o início da minha adolescência: “Blade Runner: Perigo Iminente”, de Ridley Scott, 1982. Ou melhor, a partir de uma história que Philip K. Dick havia escrito antes de eu nascer: “Será que os Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?” (embora eu não o soubesse quando vi o filme).

“Lágrimas na Chuva”, o livro de Rosa Montero, tem como personagem central Bruna, uma replicante que já nasceu com prazo de validade estabelecido, um ser inferior criado para servir um novo sistema de castas que habita uma Terra árida, na qual a vida é solitária, penosa e ‘desamorosa’.

A dada altura, Rosa Montero introduz o filme de Ridley Scott no romance: “Um dia, Yiannis mostrara a Bruna o velho e mítico filme do século XX, onde se falava pela primeira vez de replicantes. Intitulava-se ‘Blade Runner’. Era uma obra estranha e bem-intencionada para com os reps, embora tenha parecido irritante. Os androides tinham pouco a ver com a realidade e, regra geral, eram bastante estúpidos, esquemáticos, infantis e violentos.”

Lembrei-me desta replicante quando, esta semana, ouvi falar na possibilidade de a humanidade criar novos escravos, programando-os para gostarem de ser escravos (Caso não se destrua a si própria, evitando assim os piores pesadelos do Homem -- o de ser destruído por esses novos “escravos”).

Há quase 70 anos, Willie, que tentamos ensinar os computadores a pensar, que lhes criamos um espaço para que possam aprender, desenhando redes neurais semelhantes às do nosso próprio cérebro.

Philip K. Dick sabia-o. Não sobreviveu, porém, para testemunhar a sociedade algorítmica em que vivemos, e na qual entrámos quase sem dar por isso. Mas a sociedade algorítmica é apenas o início deste caminho cuja meta está por definir.

Na exposição “ Cérebro: mais vasto que o Céu”, da Fundação Calouste Gulbenkian, a abertura é feita com um poema, de Emily Dickinson, numa tradução de Ana Luísa Amaral, de onde é retirado este título, e a despedida com uma nota de reflexão sobre o que pode ser a nossa relação com a Inteligência Artificial.

Na exposição, olhamos para o passado e para o futuro: aprendemos que o desejo de nos ‘replicarmos’ é muito antigo, nem que seja porque o primeiro robot remonta mais precisamente à dinastia chinesa Zhou Ocidental (século 10 a.C.), altura em que foi construída uma máquina humanóide, sem operador, que cantava e dançava; e que é conveniente pensar nos caminhos que nos reserva a ‘maravilhosa’ Inteligência Artificial (IA).

Ao longo destes quase 70 anos, a IA tem tido fases boas e fases más. Tanto melhorou a nossa vida como se tornou um problema, como aconteceu na China, onde milhões de cidadãos são vigiados através da tecnologia de reconhecimento facial e sobre eles é feita uma recolha exaustiva de dados usados para uma consequente classificação social, com implicações reais e económicas na sua vida. A par dos EUA, a China é uma das grandes potências nesta área de investigação e está a utilizar os avanços alcançados no controlo de cidadãos e na defesa militar.

A IA tornou-se um assunto premente. Uma má evolução pode significar anos de atraso para a humanidade, uma boa pode determinar a nossa sobrevivência num mundo ameaçado pelas alterações climáticas. É uma das questões incontornáveis do século XXI, e atribuir-lhe uma ética, ainda que muito difícil, é urgente, como foi dito na quarta-feira passada, na Culturgest, onde se realizou mais conferência sobre IA.

Há que decidir quem vão ser os novos escravos. É que, para já, uma coisa é certa: nós já somos a principal fonte da Big Data, os fornecedores de matéria-prima, ainda que possamos usufruir do tratamento que lhes é dado quando, por exemplo, consultamos o Waze antes de ir para casa. Mas não nos devemos esquecer que, na atual cadeia de produção, os produtores de matéria-prima nunca são quem ganha mais.

Logo, e lembrando a Bruna de Rosa Montero, somos nós, e não os ‘reps’, que não devemos “ser estúpidos, esquemáticos, infantis e violentos”. Afinal, não somos reps.

Os computadores até podem escrever o texto da nota final da exposição da Gulbenkian, mas tendo em conta as experiências que têm sido feitas na área de 'machine learning', ainda não são capazes de produzir um poema tão bom como aquele que a abre.

Willie, ainda é o nosso cérebro que é mais vasto que o céu. Seria absurdo se não o soubéssemos usar.

Carinhosamente,

Willie

PS. envio-te uma fotografia da exposição na Gulbenkian.