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Vida Extra

As portagens do absurdo

Um itinerário alternativo para minimizar os custos das portagens na A23 entre o Fratel e Castelo Branco

A semana passada sugeri-vos um passeio de jipe pela charneca ribatejana. Desta vez vou falar-vos de algo que já abordei de passagem nestas crónicas: as auto-estradas com cobrança electrónica, ou seja as SCUT. Neste caso o tema é a A23 e como evitar pagar portagens. Em plena legalidade, é claro, antes que me acusem de ser um “colete amarelo” ou qualquer outro OPNI (objecto politicamente não identificado). Se houve auto-estrada com potencial para impulsionar o desenvolvimento regional foi esta. Ligava a Beira Interior à Europa, a Lisboa e ao Atlântico. Quebrava isolamentos atávicos na margem direita do Tejo, de Proença-aNova a Vila Velha de Ródão. E favorecia o turismo, aproximando os citadinos do litoral da serra da Estrela, das aldeias de xisto ou dos castelos da raia. Inaugurada em 2003, uniu troços de vias rápidas já existentes: o IP6 (entre o nó de Torres Novas da A1 e Abrantes) e o IP2, (entre Alpalhão, Barragem do Fratel e Castelo Branco). Passou a haver túneis sob a serra da Gardunha e o tempo de viagem entre a Covilhã e a Guarda caiu para menos de metade. Acabada muito antes de o IP5 ser transformado em A25, tirou trânsito de ligeiros e pesados desta via, tornando-se na mais curta e rápida ligação entre Lisboa e a fronteira de Vilar Formoso.

Passeio Serra da Gardunha no Fundão

Passeio Serra da Gardunha no Fundão

Tiago Miranda

Tarifário incompreensível

A herança do antigo IP6 continuou a marcar a A23 entre Abrantes e Torres Novas, com sucessões de curvas e pisos, impróprios de uma auto-estrada moderna. Ao serem impostas portagens na A23, em Novembro de 2011, nada disto foi tomado em conta. O troço que nunca fora pago desde a sua a inauguração, nos tempos áureos do cavaquismo, foi integralmente portajado. Nem a sua desadequação aos padrões rodoviários modernos, nem a falta de alternativas locais pesaram na balança.

Mesmo dando de barato o princípio da introdução de portagens nas SCUT (coisa que tem muito que se lhe diga, dado o impacto no turismo e na mobilidade locais), o tarifário é aberrante. Os 217 km da A23 entre Torres Novas e Guarda custam ao automobilista mais que os 320 km da A1 entre Lisboa e Porto, mesmo tendo em conta os troços não pagos Lisboa-Alverca e Carvalhos-Porto. Este panorama repetia-se com algumas variações nas restantes SCUT, razão pela qual me meti à escrita de um guia com roteiros alternativos que minimizassem os custos de portagem. Viria a ser publicado em Julho de 2013 e chamava-se “Pare, SCUT e Olhe”. Reflectia uns bons milhares de quilómetros de reconhecimentos feitos em condições reais, na estrada. Os itinerários então levantados mantêm-se actuais. Relativamente à A23 é possível conceber uma alternativa global entre Lisboa e Guarda (ou vice-versa), a qual acaba por só ser interessante para quem esteja de férias e, por consequência, não esteja condicionado pelo factor tempo.

“Pare, SCUT e Olhe”, do jornalista Rui Cardoso

“Pare, SCUT e Olhe”, do jornalista Rui Cardoso

D.R.

Aproveitar o antigo IP2

Assim limitar-me-ei à alternativa mais interessante, a qual se desenvolve entre o nó de Gardete e Castelo Branco, ou seja numa extensão de 42 km. Entre o nó 15 (Gardete/barragem do Fratel) e o nó 17 (Fratel) a A23 não tem portagem (durante 11 km). Saindo neste nó apanha-se facilmente o antigo IP2 até Castelo Branco e fintam-se, pelo caminho, três pórticos. Para ter uma ideia do que poupa, estime o custo médio de cada pórtico em um euro (em Classe 1).

Após a área de serviço saia da A23 no nó 17 (Fratel) e apanhe o antigo IP2 para Castelo Branco que mantém um traçado magnífico e pouco trânsito, excepção feita à zona que cruza a serra das Talhadas, algo degradada. Tenha atenção, uns quilómetros adiante perto do Perdigão, depois de entroncar à esquerda numa via rápida, pois as indicações são confusas: siga em frente, deixando à esquerda o cruzamento para o IC8 (Sertã e Proençaa-Nova) e, logo a seguir, corte à direita para reentrar no IP2, direcção Castelo Branco.

Mantenha-se na N18 quando o IP2 acabar numa rotunda às portas de Castelo Branco e, se for para norte, (Fundão, Covilhã, etc), siga a variante pela zona industrial, hospital e hipermercados até à orla norte da cidade.

Aldeia historica de Castelo Novo, Fundão na Serra da Gardunha

Aldeia historica de Castelo Novo, Fundão na Serra da Gardunha

Tiago Miranda

Túneis da Gardunha são gratuitos

De Castelo Branco para norte, se não estiver cheio de pressa, ainda pode fazer mais umas habilidades e poupar uns trocos. Entrando na A23 no nó 23 (Castelo Branco Norte) pode sair no nó seguinte (Alcains) para a N18, fintando uma primeira portagem. Reentre no nó 25 (Lardosa) mas deve tornar a sair para a estrada nacional logo no nó 26 (Soalheira). E vai outro! Segue-se uma dezena de quilómetros, por vezes estreitos e sinuosos pela N18 mas que eliminam a passagem por um terceiro pórtico.

Volte a apanhar a A23 no nó 27 (Castelo Novo) e saiba que até ao nó 29 (Fundão Norte/Zona Industrial) volta a não haver pórticos, dando livre acesso aos túneis da Gardunha. Nestes 13 km, o trajeto não é pago, permitindo evitar as curvas da serra da Gardunha e a travessia de Alpedrinha, aldeia muito interessante mas para uma visita turística específica, aliás como Castelo Novo.

Se porventura a sua viagem prosseguir para norte do Fundão, nomeadamente para a Covilhã, pode perfeitamente seguir pela N18, aqui com uma traçado perfeitamente aceitável, o que significa passar ao lado de um último pórtico. Perdeu tempo? Uns minutos, sobretudo entre Soalheira e Castelo Novo mas meteu ao bolso à volta de quatro euros (em Classe 1).

Para a semana falar-vos-ei da A25 e das suas alternativas.

José Fernandes

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