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Princípios éticos do yoga: O desapego — Aparigraha

Cristina Diniz, como de costume à quarta-feira, fala-nos sobre a ética e a máxima mais importante do yoga

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De acordo com uma escritura antiga, os Sutras de Patañjali, a ética é a base do yoga. São referidos os yamas (cinco princípios éticos para com a comunidade onde nos inserimos) e os niyamas (outros cinco princípios éticos para connosco próprios). Pouco a pouco abordaremos cada um desses princípios éticos, iniciando hoje com o conceito de desapego — Aparigraha, classificado na categoria dos yamas.

De um modo genérico, poderia traduzir-se como não possessividade ou não apego e, de certo modo, faz-nos pensar que agarrarmo-nos às coisas ou sermos livres são conceitos opostos, excluem-se um ao outro.

Quando se fala em desapego não nos estamos a referir ao apego salutar dos laços familiares, amorosos, laborais e afins, mas sim a um apego mais negativo ou doentio, como por exemplo quando nos apegamos obstinadamente a algo e cultivamos a resistência à mudança.

Este conceito ético é tido no yoga como dos mais importantes, pois sabemos que isso pode ser a causa de grande sofrimento e impedir-nos de crescer e viver de modo prazeroso.

Se virmos bem, sempre que alguém tenta apegar-se fortemente a algo, seja possessividade pelo companheiro, por alguém que se deseja demasiado e por vezes nem se é correspondido, ou então quando existe um apego desajustado a uma juventude que já se foi ou a um filho que está na altura de bater asas e sair do lar familiar, seja o que for e os quadros imagináveis são múltiplos, esse apego desajustado, desequilibrado, descomedido pode conduzir à destruição dessas mesmas coisas que valorizamos e até de nós mesmos. Não há por vezes crimes passionais por apego a relações que não têm pernas para andar? Apego a ilusões que criamos, a paradigmas ou conceitos que construímos? Diria que errado é não nos sabermos soltar, libertar e encarar a realidade tal qual ela é, aceitando as situações reais como são, sem nos deixarmos apegar pelo que acreditamos ser verdade e, com base nisso, cometer erros drásticos para outros e para nós próprios.

Parece-me que o caminho mais correto será deixar partir o que não nos faz bem, ao invés de nos apegarmos a isso. É deixar ir e abrirmo-nos a novas ideias, novas possibilidades, a novos relacionamentos e escolher um modo mais benéfico e harmonioso de ser e de viver.

Deixar ir é importante, a possessividade desmedida ocupa espaço em nós e retira-nos energia. Até mesmo em nossas casas é bom desfazermo-nos do que não usamos, do que ocupa espaço só por ocupar, do que é hábito. É bom renovar, minimizar, limpar, arejar, tudo fica mais leve, sentimo-nos como novos e com novo ânimo de encarar tudo. Aliás, por que não dar? Porquê insistir no apego a roupas que não usamos há anos e anos? Uma boa prática poderia ser dar algo antigo sempre que adquirimos algo novo. Refletir sobre o desapego é provavelmente concluir que deixarmos ir as coisas do passado nos permitirá viver mais e melhor no presente.

Do mesmo modo, se nos agarrarmos a memórias, pensamentos ou emoções negativas estamos a alimentar uma espiral destrutiva por isso mesmo é bom substituí-los por conceções positivas.

Até perdoar é bom, perdoar é saber desapegar de mágoas, é largar memórias penosas e sofrimentos inculcados em nós.

Às vezes, uma dose certa de desapego passa também por não nos apegarmos tanto aos bens materiais e acharmos que só somos felizes ou que somos mais felizes e realizados quando obtivermos um certo carro ou um certo vestido, colar, livro ou relógio que nos falta. Acreditar que um novo objeto nos traz felicidade é baseado num sentimento de falta, parece que não estamos completos sem isso. Não será isso que vem trazer realização pessoal ou felicidade real e duradoura pois na verdade o que é essencial para nós está ao nosso alcance.

Aparigraha, o desapego, é também não nos apegarmos aos resultados das ações, ou seja, devemos fazê-las intrinsecamente bem por fazer e não pelo seu resultado, até porque podemos estar obstinadamente à espera de um pagamento ou consequência que nunca ocorrerá, pois as conjunturas são tão variadas e nem tudo depende de nós. Por isso mesmo, se calhar o melhor caminho é fazer sempre o nosso melhor, mas lembrarmo-nos depois de nos libertarmos mentalmente e emocionalmente, preocuparmo-nos apenas com a ação e nunca com os seus frutos, não deixar que o resultado da ação seja o nosso motivo. O caminho é que conta, não é tanto o destino, mas sim a viagem.

É bom ser elogiado ou reconhecido, mas devemos agir bem naturalmente sem nos apegarmos à necessidade de ser louvado por outras pessoas. Aprender a fazer isso é um alívio, lá está … uma enorme liberdade, um desapego saudável. Efetivamente, a melhor recompensa é estarmos bem connosco e o verdadeiro gosto em fazer seja o que for.

Ao decompor o termo A-pari-graha, vemos que A significa não, nega o nome que vem a seguir; pari significa em todos os aspetos e graha significa agarrar. É uma palavra que aponta para nos agarrarmos só àquilo que precisamos no momento e saber deixar ir na altura apropriada. Tendo isto em consideração fica o desafio de meditarmos um pouco sobre a relevância de aparigraha na nossa vida, de parar um pouco para analisar a nossa experiência passada e presente no que diz respeito ao apego e, se for o caso, talvez apostar em melhorar no futuro ou já, como no yoga, pois yoga é agora.

Boas práticas!

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