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Morte em troca de vida

A mortalidade de bebés e de grávidas aumentou como há muito não acontecia e soam alarmes. Os especialistas atarefam-se para dar explicações e a natureza observa tudo, vitoriosa. O homem ganha ao gerar vida em quem dificilmente o conseguiria, mas depois a natureza continua a vencer: faz-se cobrar com a morte de crianças mais frágeis e de mães menos jovens e pouco saudáveis

Freestocks Org / Unsplash

No ano passado, a mortalidade no primeiro ano de vida aumentou 26%, 289 bebés não resistiram, e no ano anterior foram também mais as mulheres, nove no total, que perderam a vida na sequência da gestação. A estatística faz Portugal regredir nos níveis de excelência típicos dos países desenvolvidos e com sistemas de Saúde com qualidade reconhecida. As explicações serão várias, embora no caso dos óbitos infantis não tenham sido conclusivas, mas há um facto que os peritos garantem ser inabalável: não é um problema só da prestação de cuidados. Aliás, pode mesmo ser um problema da assistência de qualidade.

Sabe-se que as mortes de bebés e de grávidas têm um facto em comum: a idade menos jovem em que a maternidade foi concretizada. A média de idades das nove mulheres que morreram em 2017 por problemas relacionados com a gravidez era de 36,4 anos, fasquia que os médicos garantem ser tardia. E é tarde porque torna mais complexo o ato de engravidar e depois a própria gestação, com hipertensão, diabetes, obesidade ou outros problemas de saúde.

A medicina evoluiu e consegue fintar a natureza, permitindo a maternidade a mulheres que outrora não conseguiriam conceber, ajudando com técnicas de procriação medicamente assistida e/ou o acompanhamento e tratamento constantes durante a gravidez. Contudo parecem existir efeitos adversos. A natureza dá agora sinais de que não se dá por vencida e cobra mais tarde, levando a vida a bebés mais frágeis — como prematuros, muitos fruto de uma gravidez tardia ou com complicações — e a mães menos jovens, e logo por isso com outros fatores de risco.

Estudos recentes indicam até que existe uma relação entre os nascidos com recurso a técnicas de procriação e o cancro em idade pediátrica. As crianças com doença oncológica aumentam cerca de 1% por ano e vários cientistas admitem que uma das causas, desconhecidas no geral, possa ser a própria conceção. Isto é, como se a natureza não se esquecesse de ripostar a vitória da ciência mesmo depois de as crianças terem sobrevivido ao primeiro ano de vida.

A natureza é poderosa e são muitos os exemplos desse poder e da incapacidade humana para a superar. A mortalidade acrescida de quem vence as leis naturais e supera a inicial incapacidade para conceber pode, afinal, ser mais um exemplo. Um sistema de Saúde capaz e com qualidade consegue realizar o sonho da maternidade a muitas mulheres, contornando os limites da idade ou da falta de um estado de saúde ideal, mas parece que só o faz por momentos. Vale a pena correr o risco? Como mulher, vale a pena ser mãe. E ser mãe não é só ter um filho biológico.

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