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Thirtysomething: A série que deu uma palavra ao dicionário foi a primeira a mostrar um casal gay masculino na cama

Esta semana, Pedro Boucherie Mendes escreve sobre a (quase) esquecida) “Thirtysomething” — transmitida em Portugal com o título Os “Trintões”. É a mais recente entrada de “Séries com História”

Foram quatro temporadas, entre 1987 e 1991 e 85 episódios de uma das criações mais injustiçadas na televisão americana. Bem escrita, com excelentes personagens e intérpretes e mesmo assim com ritmo e bastante popular e fácil de ver, Os Trintões (no original thirtysomething, com minúscula) não sobreviveu à compita pelas audiências, foi cancelada como quase todas as séries acabam por ser e não se conseguiu impor (ainda?) nas listas, rankings e demais eucaristias nostálgicas sobre os anos 80 e 90. Não se fala dela, não há planos de remakes, é como se nunca tivesse existido. Onde andam os que adoravam Os Trintões?

Em Portugal esta produção da ABC seria exibida na RTP 2 (tanto quanto recordo), no final dos anos 80, princípio dos 90, e também por cá parece que nunca existiu. É conferir o reduzidíssimo número de menções online para se verificar como se esvaneceu da memória coletiva.

this is us

Ultimamente, a série This Is Us como que demonstrou que o público americano branco, de classe média, também se interessa e apaixona por histórias de famílias, onde se podem rever, com problemas ditos normais. Ou seja, que não é imperioso que todas as ficções de televisão generalista tenham advogados, polícias, cirurgiões, tiroteios, aliens ou perseguições.

Mel Harris, Peter Horton, Timothy Busfield, Polly Draper, Melanie Mayron, Ken Olin, Patricia Wettig e Jason Nagler em Thirtysomething (1987)

Mel Harris, Peter Horton, Timothy Busfield, Polly Draper, Melanie Mayron, Ken Olin, Patricia Wettig e Jason Nagler em Thirtysomething (1987)

Pois bem, no seu tempo, Os Trintões acabou por ser um percursor eloquente deste tipo de narrativas, onde vidas normais afetadas por problemas normais e plausíveis (filhos, traições, divórcios, carreira, etc) são o alfa e o ómega da intriga. Com um apelo sobretudo feminino, o espectador acompanhava a vida e carreiras de gente com trinta e tal anos nos anos 80 (conhecidos como yuppie) americanos, que tinham sido hippies nos anos 70 e agora assentavam e se preocupavam com as suas carreiras e famílias e menos em mudar o mundo. Passada em Filadélfia, era notoriamente inspirada pelo tom geral dado pelo filme que em Portugal ficou conhecido por Amigos de Alex (The Big Chill no original) e assentava na óbvia questão da frustração de a vida real e concreta muitas vezes não corresponder à idealização na juventude.

Na nossa televisão era considerada uma série mais intelectual, mais séria e sem a parvoíce descontraída de ofertas cómicas ou de ação, onde a evasão e o escapismo eram transversais a todos os públicos (de Teias da Lei aos 3 Duques). Naqueles tempos, acreditou-se que Trintões talvez fosse elitista porque seria preciso estar com atenção e seguir a vida dos personagens (incluindo a sua vida interior) para haver envolvimento, o que convenhamos não era para todos, em especial quando no canal ao lado McGyver fazia um leitão à bairrada com uma lima de unhas e um pacote vazio de bolachas.

Ai se fosse de agora

Naquele tempo, de muitíssimo menor oferta, a série foi criticado por retratar a vida de ricos aborrecidos, com os seus problemazinhos irrelevantes, uma espécie de novela para intelectuais, com um ritmo pausado, muita conversa, gente bonita, quase sempre de copo de vinho na mão. Antes de Friends, Brothers and Sisters ou This Is Us (ou outros), Os Trintões baseava-se na amizade, sentimentos e relações. Sem surpresa, as mulheres gostavam mais e os homens irritavam-se bastante, mas acredito que se Os Trintões fosse lançada agora por uma HBO ou uma Netflix, o mundo pararia e a Internet apaixonar-se-ia já que é a típica obsessão de jornalistas e críticos hodiernos além dos gatekeepers das redes sociais, um This Is Us avant la lettre, mais sofisticado, com muitas dinâmicas feministas nos argumentos e personagens, por exemplo. Talvez então refletisse um mundo que ainda não existia abundantemente, mas que (felizmente, digo eu) se tornou muito mais vulgar.

Na origem esteve um projeto de dois babyboomers com uma reunião marcada na ABC que decidiram levar um projeto que nada tinha que ver com o que se fazia na televisão da época, acerca de baby boomers como eles e a chamada era yuppie. A proposta foi aceite e thirtysomething estrearia a 29 de setembro de 1987, 20 dias antes da famosa Black Monday, o crash que quase derrubou Wall Street.

No fim da temporada de arranque, thirtysomething arrebataria o Emmy para melhor série dramática e venceria mais alguns, bem como dois Globos de Ouro no total da sua existência. Certo é que até 1991, este produto da ABC seria um importante fenómeno cultural a ponto de a palavra thirtysomething ter ganho vida própria e ter ido parar ao dicionário. Edward Zwick and Marshall Herskovitz, os autores dethirtysomething, criaram a seguir as séries My So-Called Life e Once And Again, sendo Ken Olin, um dos atores mais marcantes de thirtysomething é hoje um dos homens fortes (atrás das câmaras) em This Is Us.

P.S.: Esta foi a primeira série a mostrar um casal gay masculino junto na cama, embora sem se tocarem, muito menos se mostrarem em carícias ou afetos. Por causa das reações adversas dos anunciantes, a ABC não permitiu que se repetisse o episódio que só ressurgiria nas edições de DVD.

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