Perfil

Vida Extra

E se fosse possível encontrar amor de forma objetiva? O que une uma mulher a um chinelo?

Há nova entrada de “Diário de um Pai Solteiro” para conhecer. “Para mim seria um alívio ser avaliado por uma mulher com um caderno de encargos com uma lista de critérios objectivos e transparentes.”

Amol Tyagi

Sou frequentemente censurado por não valorizar a individualidade de uma fêmea em idade reprodutiva e sublinhar logo num primeiro date que ter um segundo bebé é uma prioridade para mim. Aliás, censuram-me por usar termos como “fêmea em idade reprodutiva”, “biologicamente fértil” ou “receptiva à procriação” ou outra coisa cavalheiresca do género. Dizem-me que não é romântico, mas pelo tom com que o dizem isso, suspeito que é uma crítica e não um elogio. Confesso que não entendo muito bem no caso de ser uma crítica.

Para mim seria um alívio ser avaliado por uma mulher com um caderno de encargos com uma lista de critérios objectivos e transparentes. E comparado nesses critérios com outros homens, sem qualquer interferência de emoções subjectivas e emocionais. Critérios como a situação material e financeira, cultura de cinema, educação académica, dotes culinários, higiene física, aspecto e simetria facial, sentido de humor, hobbies interessantes, gosto musical ou jeito com crianças.

A minha mulher ideal avaliaria estes critérios e tomaria uma decisão sólida e racional, sem estar sujeita aos misteriosos desígnios do seu subconsciente autodestrutivo, flutuante e imprevisível a que, erradamente, as pessoas atribuem o cunho de livre arbítrio. Eu próprio, quando fui preterido no passado, aceitaria de muito melhor grado uma resposta racional à minha pergunta “O que é que ele tem que eu não tenha?” do que aquele discurso emocional do “não és tu, sou eu”.

Por exemplo, se me dissessem “ele ganha mais dinheiro que tu” ou “ele é mais bonito que tu” por mim estava resolvido, com fairplay. Trataria de ir ao centro comercial comprar uma boa farpela, cortava o cabelo, fazia exercício no ginásio, progredia na carreira e depois voltava a candidatar-me ao cargo de namorado daquele espécime feminino. Claro que isso não acontece e é completamente desnecessário. Não funciona assim. Primeiro porque quando uma mulher nos considera pouco adequados à reprodução, não há volta a dar, o melhor a que podemos aspirar é sermos confidentes e amigos. Segundo porque hoje em dia as mulheres primeiro têm de sentir desejo e só depois é que pensam na questão prática e objectiva e o desejo, pela minha observação, não se suscita por questões objectivas e racionais.

Poderão dizer “ah e tal, mas um namoro não é só para fazer bebés!” Ok, tudo bem, está no vosso direito serem infelizes. Se precisam de uma relação para terem “companhia” ou algo assim, em 2019, com internet e mulheres emancipadas e solteiras por aí, o problema é vosso. Eu não consigo, sozinho, mudar a estrutura da sociedade de volta ao que era antes dos anos 50.

Acho que tudo mudou em 1953 com o “The Wild One”, com o Marlon Brando a fazer de bad boy motard apaixonado pela filha do xerife local. Ou com os Rolling Stones, esse grupo de drogados rebeldes a atrair milhares de filhas da burguesia com dinheiro para comprar discos. De repente as mulheres começaram a interessar-se precisamente pelo arquétipo oposto ao desejado pelos seus próprios pais.

Podemos recuar ao século XIX e encontrar sinais desta decadência, por exemplo, no livro “Um Herói do Nosso Tempo”, de Leermontov, que tem o protótipo do jovem que desafia as convenções da época e a autoridade, entretendo-se com aventuras, desprezando os valores materiais e a carreira, correndo atrás de mulheres e acabando em duelos. Podia ser uma descrição de qualquer homem atraente, ao longo dos tempos? O Ulisses também zarpa de casa e vai à aventura, deixando a patroa Penélope a tricotar em casa.

Será que o arquétipo do indivíduo capaz de suscitar desejo numa mulher é o homem que está acima dela, que não pode ser alcançado, ou preso ou domesticado? É o senhor calado e misterioso? Imprevisível? É que se é isso, não contem comigo para essa brincadeira pueril.

Tenho uma coleção substancial de jogos de tabuleiro, alguns bem raros e caros, como o Eclipse ou o Through The Ages. Deveria ser suficiente ter fotos dos referidos jogos preparados para jogar, no meu perfil do Tinder, assim com todas as peças, cartas e naves espaciais arrumados na minha mesa da sala, para conseguir matches com qualquer mulher. Surpreendentemente, não é isso que acontece.

No entanto, uma rotina numa relação é feita de quê? Uma mulher é bonita, sim senhor, e o que se faz com isso? Olha-se para ela o serão todo? Dizemos “És muito bonita”? E ela para nós “és muito misterioso” ou uma treta assim do género? Anos a fio? E temos de manter o teatro do mistério? Por exemplo, sair de casa todos os dias sem dizer onde vamos, só para dar uma volta ao quarteirão, para ela ficar toda em pulgas: “ele tem um segredo! O que será! Que sorte que eu tenho com este homem! Será que se foi drogar? Adoro drogados como o Mick Jagger! Sou mesmo sortuda!”

Boa sorte, mas não é isso que se quer num pai e numa mãe. Fazer e tomar conta de bebés não se compadece com cinema e rock n’roll. É preciso uma relação que faça sentido e encontre elos de ligação na vida prática do dia a dia. É preciso previsibilidade. Nada de: “Ai que giro, o meu marido desapareceu e a Harley não está na garagem, deve ter ido à concentração de motards de Faro, e logo hoje que me ficou de ir buscar o menino à creche! Adoro-o!” Não. Rotina, previsibilidade, dia a dia, transparência. O amor nasce daí. Não que se queira rotina 100% previsível. Isso também não é bom.

Por exemplo, a Pata Hidrofóbica jogava jogos de tabuleiro. Tivemos um bebé. Coincidência? Acho que não. Claro que nem tudo eram rosas nesse departamento ou continuaríamos juntos. O que correu mal é que ela me ganhava sempre e transformou a experiência de jogar em algo demasiado previsível. Em qualquer caso, o amor deve nascer dessa relação estável e não o contrário. O desejo por algo que que não conhecemos é meramente uma ilusão que raramente estará à altura da realidade.

Eu com o tempo afeiçoo-me a todos os meus chinelos só de os usar diariamente. Não digo que sinta desejo pelos meus chinelos, mas não consigo deitá-los fora, custa-me imenso. Ganham o formato do pé e o nosso cheiro, vivem connosco invernos consecutivos até se desfazerem sozinhos e a empregada deitar fora. Quando não os encontro e ando pelo soalho frio da casa à procura deles fico mesmo desesperado. Não é por acaso que os chinelos são aquilo que os nossos cães roem na nossa ausência.

No entanto, quando estão na montra da loja do centro comercial, novinhos, são só uns chinelos, que não suscitam qualquer interesse especial. Às vezes pego num par de chinelos novo e hesito em escolher aquele ou outro com o mesmo número, são os dois iguais, mas um deles deixará de me ser indiferente. Um deles será o meu chinelo. O meu. Irá comigo à rua, pôr o lixo, em dias de chuva.

Ok, não quis comparar uma mulher a um chinelo, mas foi mesmo o que acabei de fazer e quando começo com comparações deste tipo o advogado que está na minha cabeça começa a dizer que tenho o direito de permanecer calado e desliga-me o microfone.

Siga Vida Extra no Facebook e no Instagram.