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Bolo e os deuses do olimpo? O desejo e a expectativa

Sergei Solo

Sobre cenas de aniversário, retratadas no cinema há talvez uma que me tenha marcado de forma imponente. Pertence a um filme de 1937, “Stage Door”, realizador por Gregory La Cava. A cena marca, não pelo plano especialmente genial ou até pela boa interpretação: o que a faz sobressair é um simbolismo bem desenhado que não permite indiferença, no que toca ao universo das celebrações.

Num filme a preto e branco, onde o argumento destaca a competição e pressão do mundo do espectáculo, vemos uma aspirante a actriz a ser surpreendida pelas colegas com uma festa surpresa. Há um bolo, no bolo a vela, e como não podia deixar de ser, com a vela vem o momento do desejo. Momento esse que nesta cena é destruído por uma chamada telefónica que altera à partida os planos da aniversariante. Há lágrimas e soluços enquanto parte o seu próprio bolo.

Desejo, esse grande vilão de vidas e situações, que eleva expectativa e vontades que nem sempre podem ser cumpridas. Mas insistimos, e desejamos, ou às vezes há quem deseje por nós, ou outras vezes, quem nos deseje a nós. Faz parte, desejar.

Na cultura ocidental, celebramos a data de nascimento, fazem-se festas, e por norma há um bolo, bolo esse que pela quantidade de vezes que já o mencionei neste texto, consegue ser tão popular quanto o aniversariante. Há quem diga que essa herança nos chega das celebrações a Artemis (Deusa da caça), um bolo redondo coberto de mel que lembrava a lua, cheio de velas que, quando eram apagadas, levavam ao céu os desejos, através do fumo que subia. E mantemos tal “cerimónia”, até trincamos velas! Ficou-nos esse pequeno rito e, quando o fazemos, nem pensamos de onde ele chega...E a Artemis, lá de cima, provavelmente revoltada por sentir uma qualquer traição.

No filme de La Cava, como referi, há lágrimas durante o corte do bolo, mas uma coisa é certa: nenhum bolo merece tal acidez vinda do aniversariante. Não só pelos Deuses do Olimpo, que eventualmente ficaram furiosos, mas também porque na hora de apagar as velas, a alegria de estarmos vivos nos devia inundar o corpo.

Celebrar a vida com bolo? Que mais se pode querer?

Sobre os desejos, atiremo-los para o ar, o que vier, virá por bem (não é?).

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