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Qual é a sexualidade das portuguesas?

Na pele de Winnie, personagem de "Dias Felizes" de Samuel Beckett, Cristina Margato questiona-se sobre sexualidade feminina das portuguesas enquanto reflexo da sociedade em que vivem

Seacat

Querido Willy,

Há umas semanas, em conversa com uma amiga sueca, poucos anos mais velha do que eu, durante uma visita a Estocolmo, ela confessou-me que quando perguntaram à mãe qual tinha sido a melhor descoberta da vida dela, a mãe respondeu: “A máquina de lavar roupa”.

A Suécia, país exemplar em matéria de igualdade de género, nem sempre foi o que é, à distância de apenas uma geração. O incrível feito está no que conseguiram numa geração: essa notável igualdade de género, uma significativa participação das mulheres na política, de que a minha amiga é exemplo, e ainda uma divisão equitativa de tarefas a nível doméstico e familiar, que pude testemunhar. Ainda assim, há várias nuances a considerar, como o facto de muitos homens optarem por usar grande parte da licença parental, a que têm direito, durante a época dos jogos de inverno, e de muitas das cuidadoras informais, na Suécia, ainda serem mulheres.

Numa visita ao Museu Nórdico, espelho da cultura sueca, percebe-se o quanto a reorganização da arquitetura, nomeadamente a doméstica, facilitou a vida das mulheres e, logo, das famílias, ao ponto de esse “design de interiores” se ter transformado num produto exportável a nível global.

Os suecos gostam de coisas funcionais, práticas, sem barroquismos, e sublinham esse gosto como parte da sua cultura. O que se percebe no subtexto da narrativa deste museu é que foram as mulheres quem mais ganhou com a simplificação da vida doméstica, à semelhança do que aconteceu nos EUA com a introdução dos eletrodomésticos nos anos 50.

Muitas coisas mudaram em Portugal, dirás tu, Willie, também numa única geração, por contaminação global e pela mudança do regime político. Não mudaram tanto como na Suécia, direi eu. A começar pela relação das mulheres com a sexualidade. E uma coisa, mesmo não parecendo, anda ligada à outra.

As mulheres suecas são manifestamente mais emancipadas nesta matéria há muitos mais anos, algo que é fácil de atestar se considerarmos as histórias contadas pelos homens mais velhos que tiveram contacto com as turistas suecas que visitavam Portugal, no tempo em que só algumas mulheres nacionais se aventuravam a vestir umas calças para sair à rua. Dizer “as suecas”, para esses homens, é nomear mulheres livres, desinibidas, senhoras da sua sexualidade.

Não sei se a emancipação ocorrida em Portugal, nos últimos 45 anos, chegou de modo universal ao nível das suecas, e a razão para me questionar sobre isso tem sobretudo a ver com o facto de ter recebido, esta semana, uma nova edição do livro de Shere Hite: “Relatório Hite - Um Profundo Estudo sobre a Sexualidade Feminina”, editado pela Bertrand. Foi lançado nos EUA em 1972, dois anos antes da nossa revolução, e publicado pela primeira vez em Portugal em 1979, pela mesma editora.

O relatório Hite foi o primeiro estudo em que uma mulher perguntou a outras mulheres como se sentiam em relação ao sexo. Até então, o “sexo feminino era visto como uma contrapartida lógica daquilo que se julgava ser a sexualidade masculina”.

Do amplo questionário que Shere Hite concebeu, resultaram 577 páginas (edição portuguesa) que “iluminam” a sexualidade feminina e a dissecam de modo cuidadoso.

Shere Hite escreve (em 1972) algo que poderia ser escrito hoje, em alguns países ocidentais: “Embora todas as nossas instituições sociais ainda se baseiem totalmente em formas hierárquicas e patriarcais, o patriarcado está morto como forma, do mesmo modo que a sexualidade que o definia. Estamos num período de transição, ainda que não seja claro para quê.”

Ao ler estas linhas fiquei a pensar em Portugal, no facto de o patriarcado não estar morto, e no estudo publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, em fevereiro passado, “sobre quem são, o que pensam e como se sentem as mulheres em Portugal” e, logo, no cenário de desigualdade em matéria de obrigações domésticas que este tornou evidente.

A mesma fundação publicou, em 2013, um estudo sobre a sexualidade dos portugueses (Sofia Aboim), mas dei por mim a pensar que o interessante, interessante, seria saber qual é a sexualidade das portuguesas… ao estilo do relatório Hite.

É que, se o pressuposto de Shere Hite estiver certo, o de que “a relação de uma mulher com o sexo reflete a sua relação com o resto da sociedade”, ainda há muito a aprender com as suecas.

E assim me despeço, querido Willie,

Carinhosamente,

a tua Winnie

PS- envio-te uma fotografia do Museu Nórdico, em Estocolmo, onde se mostra o interior de uma casa familiar