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Vida Extra

De jipe pela charneca

Um itinerário todo-o-terreno desde a Azambuja ao Couço, passando por Muge, Raposa e Feixe. Conheça o Ribatejo numa outra perspectiva

Tiago Miranda

Se nestas crónicas já vos falei de percursos a pé, de comboio ou de carro, porque não um pouco de TT? Aqui fica um itinerário de 70 km que, pelo menos fora da época das chuvas, não oferece dificuldades de maior, sendo acessível a qualquer SUV mesmo que não tenha tracção integral. Apenas convém ter a viatura em bom estado mecânico, com pneu sobressalente, macaco e chave de rodas, para além do depósito atestado.

É recomendável circular com precaução, pois os estradões e caminhos não asfaltados são muito mais frequentados do que se pensa, podendo encontrar tractores, gente a pé, camiões carregados de madeira, quando não motards a fazer o gosto ao dedo. Pode haver pó e visibilidade escassa. E, não subestimando os dotes de condução do prezado leitor, tenha presente que em pisos de areia ou terra, mesmo aparentemente lisos, as trajectórias em curva ou as distâncias de travagem podem ser surpreendentes.

Para começar este passeio, parte em asfalto e parte em terra, comece por ir à procura de um dos segredos mais bem guardados da lezíria. Sabia que se pode atravessar o Tejo de carro, de Porto de Muge (Valada do Ribatejo) para Muge? Tudo graças à adaptação ao trânsito rodoviário da antiga ponte metálica da Linha de Vendas Novas. Construída em 1904, a Ponte D. Amélia foi reconvertida em 2001.

Há que ter em conta restrições de velocidade, dimensões e peso dos veículos que, basicamente, apenas afectam os pesados. A largura da ponte não é muita e o piso é metálico, pelo que convém ter atenção aos espelhos e aos lados do carro. O trânsito faz-se alternadamente, comandado por semáforos. Enquanto espera, aprecie um Tejo, ainda muito largo e com ilhotas, mas completamente diferente do que está habituado a ver em Lisboa. Saiba que o efeito das marés se faz sentir até este ponto.

Ponte D. Amélia

Ponte D. Amélia

Rui Ornelas / Flickr

Onde mudam as marés

Para chegar à Ponte D. Amélia comece por se dirigir à Azambuja (A1 até ao Carregado e N3 direcção Cartaxo/Santarém). Não deixe de deitar uma olhada aos bonitos azulejos da estação (C.A. Moutinho, 1935). 9 km depois, em Cruz do Campo, num cruzamento com semáforos vire à direita para Valada, aldeia onde chegará depois de passar sobre a Linha do Norte e percorrer uma longa recta entre campos cultivados.

À vista de Valada (onde vale a pena espreitar a praia fluvial, a marina e o dique) corte à esquerda para Porto de Muge, logo surgindo a rampa para a Ponte D. Amélia. Na margem esquerda, uma via secundária com 4 km liga à N118 à entrada de Muge.

Entre à esquerda na estrada nacional e atravesse Muge. Atente à esquerda na longa fachada da Casa Silas onde, até altas horas da noite, se podem comer as melhores bifanas da região. Logo após a igreja e o coreto, vire à esquerda para a Rua Miguel Bombarda, seguindo a direcção Junta de Freguesia/Bombeiros/Cemitério. No cruzamento de quatro ruas, corte à direita para a Rua Almirante Reis, pela qual deve continuar até entroncar à direita num estradão paralelo à ribeira de Muge.

Ao longo da Ribeira de Muge

Com a quinta da Casa Cadaval à direita, passe debaixo do viaduto da N118 donde saiu há pouco. Passado um estreitamento de via e uma curva apertada, o estradão toma a sua directriz definitiva, para leste, paralelo à Ribeira de Muge. Seja prudente ao passar junto a uma albufeira. Pouco depois passará sobre a A13 num viaduto asfaltado. Quando começar a ver casas à direita, saiba que está junto ao Granho, povoação não incluída no percurso. Continue em frente pelo estradão, com o campo de futebol à direita.

Prossiga pela pista principal mas numa bifurcação com um sobreiro a meio, desça sobre a esquerda. A partir daqui vai começar a rodar com a zona alagadiça da Ribeira de Muge bem visível à esquerda, situação que se manterá até à Raposa. Não se perderá: é sempre em frente pela pista principal entre vedações. Seja prudente à entrada de algumas curvas fechadas, até porque nem sempre o estradão é muito largo.

Quando começar a ver outro campo de futebol e o casario da Raposa à esquerda está a chegar ao entroncamento com a N114, onde deve entroncar à direita, direcção Coruche (na direcção contrária tem bomba de gasolina, tascos e, do outro lado da ponte, uma área de piquenique).

Exterior da Casa do Cadaval, em Muge

Exterior da Casa do Cadaval, em Muge

Ana Baião

A caminho da Lamarosa

De regresso ao asfalto, avance, então, na direcção de Coruche mas 3,3 km depois corte à esquerda, direcção Azerveira/Lamarosa. Não há perigo se se enganar, visto ser a única derivação em asfalto desde que saiu da Raposa.

Tenha atenção a uma curva fechada antes da Azerveira que deverá atravessar até um STOP, onde deverá entroncar à esquerda, direcção Lamarosa, passando sucessivamente em Zebrinho, Medronheira, Salgueira e Outeiro. Passe a placa de entrada na Lamarosa e, logo depois, cuidado numa encruzilhada entre casas com STOP: vire à direita, direcção Coruche. No centro da Lamarosa, à vista da igreja, do coreto e da praça de táxis, vire à esquerda para a Rua Luis de Camões, direcção Mora/Couço (as indicações para Feixe não são visíveis deste ângulo, ainda que também lá estejam). Saia da aldeia pelo asfalto principal, a subir sobre a direita.

No reino dos estradões

Passados uns quilómetros uma placa alerta para o risco de acidentes. Tenha isso em atenção, antes de virar à esquerda, direcção Feixe/Couço. Para a direita fica a estrada de Frazão que dá acesso a Coruche, via Erra. Após a placa de entrada em Feixe surge o início do estradão para Foros do Arrão praticamente em frente, junto a uma casa tradicional com fachada amarela e três chaminés. Para a direita, a estrada desceria para Escusa, Erra e Couço.

Está a entrar no famoso Estradão de Coruche onde em tempos se disputou o último troço do Rali de Portugal (em sentido contrário), tendo este traçado também sido utilizado em provas nacionais e internacionais de TT como a saudosa Vodafone 1000. Se vai continuar pelo estradão (que iria acabar em Foros do Arrão, a caminho de Abrantes) reponha aqui o conta-quilómetros a zeros para não falhar a navegação, ainda que esta não seja complicada.

Entre no estradão e siga sempre a pista principal (0,0 km). Continue na dita, passando entre um marco geodésico e um posto de observação do Instituto de Meteorologia. Vai começar a encontrar piso arenoso e frequentemente trilhado (1,0 km). Sempre na principal, curve à esquerda, deixando, à direita, o ramal para a Herdade do Junco (3,4 km). Idem, desprezando, à esquerda, o ramal para Peta (km 4,0) e voltando a ignorar, à esquerda, o acesso à Herdade da Machoqueira/Grou (km 4,6).

“Direita para Santa Justa!”

Atenção à placa para Vale Sobreiro (km 6,6), pois logo seguir deve deixar a pista para a direita e começar a descer para novo estradão que daí por 12 km o levará a Santa Justa. Atenção a algumas armadilhas pelo caminho como por exemplo um desce-e-sobe estreito e escorregadio entre casas onde, numa Vodafone 1000 há uns 20 anos, apanhei um susto monumental que só não me pôs os cabelos todos em pé porque estavam tapados pelo capacete….

Chegado a Santa Justa e cruzado o rio Sorraia está às portas do Couço, onde lhe recomendo os petiscos (e pratos principais é claro) do restaurante “Os Maias” (há quem lhe chame apenas Maia). Se não forem horas de comer ou esta subliminar referência queirosiana não o entusiasmar, experimente as empadas na bomba de gasolina local e não se arrependerá.

Para regressar a Lisboa tem a N251/N119 para Coruche e Alcochete. A menos que queira experimentar, na direcção contrária, o atalho asfaltado do Couço/Santa Justa para o paredão da barragem de Montargil de que vos falarei noutra ocasião.

É esta a entrada do restaurante “Os Maias”, no Couço

É esta a entrada do restaurante “Os Maias”, no Couço

D.R.

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