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A que soa o português? Necessidades fisiológicas causam gargalhadas em Nova Iorque

“Inventário de Nova Iorque”, a crónica da atriz Maria João de Almeida às quintas-feiras no Vida Extra

26 dias até ao fim do curso. É-me tão estranha esta realidade. Ainda ontem andava aqui em pleno tórrido agosto na busca incansável por uma casa. E agora mais umas semanas e lá se foi o primeiro ano. Deve ser verdade o que dizem — quando fazemos o que gostamos o tempo passa mais depressa.

Criei aqui como que a minha pequena família internacional de várias idades, diferentes origens, diferentes ideias. Bolívia, México, Dinamarca, Malásia, Australia, Rússia, Canadá, Índia, Alemanha e tantos outros países. Todos dentro dos mesmos metros quadrados a querer absorver com sofreguidão todas as palavras, todos os momentos e micro-epifanias deste crescimento artístico. É bonito. E gostava que esta existência de mão em mão, independente de nacionalidades e crenças, pudesse caber fora das paredes das Artes, e de outros meios considerados mais liberais. Um dia, talvez.

Há tanto para aprender com a diversidade humana, que me parece incrivelmente pequenino ficarmos confortavelmente estagnados no que nos é familiar. A linguagem, por exemplo, é uma matéria fascinante. Interessa-me perceber como é que os outros ouvem as palavras que digo, interessa-me conhecer as origens, muitas vezes comuns, de certas expressões — prova de que já há muito tempo havia este sentido de união maior por detrás das subsequentes ramificações.

No outro dia, falei em português num exercício no studio, e a minha professora perguntou-me que língua estava eu a falar; o que eu achei que seria óbvio, visto ela saber que eu sou de Portugal. Eu disse que era português e ela ficou muito chocada, pois parecia-lhe uma qualquer língua eslava.

É bastante curioso. Já várias pessoas me disseram que quando ouvem português lhes soa a russo, por contraste com o espanhol ou português do Brasil, que têm uma melodia diferente e maleabilidade maior. Não é interessante? Também é engraçado como os meus amigos não acreditaram quando eu lhes disse que o nosso equivalente ao 'pee' e 'poo' era xixi e cocó. Incrédulos e a sufocar com as próprias gargalhadas, acharam que eu estava a inventar aquelas palavras na hora. Só depois de já estarem em lágrimas, de tanto rir, é que decidiram acreditar em mim.

Enquanto escrevo isto sentada no sofá da sala, a Zoe e a mãe, que está cá de visita, jogam Scrabble acompanhadas por um bom Malbec de fim de tarde. As mães possuem esta coisa de mães que não tem bem um nome, mas é uma coisa, uma espécie de super poder que só elas têm. Ontem à noite quando cheguei a casa, a mãe da Zoe deu-me um abraço apertado na cozinha que se fosse dado por outra pessoa que não uma mãe não teria tido o mesmo efeito. Eu estava a precisar de um abraço da minha mãe, e ela, de alguma forma, soube isso assim que olhou para mim.

A conexão humana, o contacto, um simples abraço é algo tão simples e tão grande ao mesmo tempo. Acho que ontem estávamos todos a ter um dia difícil cá em casa. Acabámos a noite a dançar na sala ao som de música francesa, nos nossos pijamas, óculos de sol, bóinas, chapéus e lenços ao pescoço. Às vezes uma boa hora de dança esparvoada mas dedicada, sem aviso de chegada, é tudo o que se precisa para afagar a alma. Já a Meredith Grey bem sabia.

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