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Patañjali e a codificação do yoga

Cristina Diniz explica, ponto por ponto, as máximas do yoga

Patanjali

Patañjali foi um sábio e gramático da Índia. Compilou um dos documentos essenciais para o estudo do yoga — “Os Sutras de Patañjali”. Sutras são aforismos, são máximas com um sentido profundo, trata-se de versos em sânscrito que servem na perfeição o propósito da meditação.

Não se consegue aferir ao certo em que data foram compilados estes resumos de debates seculares entre filósofos e praticantes de yoga. O sutra era habitualmente elaborado no final de longos e aguerridos debates e retratava as ideias amadurecidas, o consenso e a filosofia que daí resultava. O estilo clássico do texto aponta para que tenham sido metodicamente reunidos entre os séculos III e V d.C., no entanto o seu conteúdo indica que foram compendiados no século IV a.C.

Estes sutras consistem em 196 aforismos e são como um código regulador da prática do yoga, que tornam evidente que esta é uma disciplina que trabalha com a mente, sendo o corpo uma ferramenta adicional para o desempenho prático.

Aprendemos durante a nossa prática de yoga a não nos identificarmos com os conteúdos da mente, a lidar com equanimidade, com aquilo que resulta na perfeição e com o que é quase impossível, a lidar do mesmo modo equânime quando é fácil e quando é difícil, a encarar e a observar princípios éticos, a treinar a concentração, a abstração dos sentidos, a voltar ao nosso ponto de equilíbrio após a imperfeição ou desequilíbrio vivenciados e essas aprendizagens são aplicadas na nossa vida real. Aliás, yoga é a vida tal qual ela é.

“Os Sutras de Patañjali” apresentam os requisitos para a prática do yoga. Se ousarmos fazer uma analogia, é como se o caminho do yoga fosse uma árvore a crescer. Essa sabedoria e crescimento espiritual levam o seu tempo, mas lá está, cada árvore tem o seu tempo próprio para se desenvolver, todas têm crescimentos diferentes, o certo é que todas procuram alcançar a luz e devemos ter em conta que as árvores mais fortes levam mais tempo a crescer!

São oito os passos para a realização do yoga:

Tal como numa árvore, na sua base, bem enraizados, estão os princípios éticos. Yamas são as regras de conduta, a ética que devemos ter para com a comunidade onde nos inserimos. Niyamas são os princípios éticos que devemos ter para connosco próprios. Ambos são princípios que permitem estarmos em paz connosco, com a família e a comunidade, ambos são veículos que nos levam à essência de quem somos. Logo a seguir aparece Pratyahara, a abstração dos sentidos. Aprendemos a abstrair-nos tanto dos sentidos que nos distraem do que é importante no momento, como também a deixar passar pensamentos sem nos agarrarmos a nenhum deles em particular. Pratyahara é não nos deixarmos dominar pelos objetos externos nem pelo poder que exercem sobre a mente, é ganhar controlo sobre os sentidos.

Só agora, em quarto lugar se fala de ásanas, as posturas físicas já conhecidas da prática do yoga. Por aqui se depreende que há muito mais para além de simples exercícios com o corpo. Os ásanas são o veículo para uma consciência interna mais profunda, são um bom meio de autoconhecimento.

Muito importante nesta ordem são os pranayamas, exercícios de expansão e controlo da respiração, que nos levam a expandir a energia dentro de nós e a chegar a outros estados de consciência. Se focarmos a mente no som e qualidade da respiração ao praticarmos, os sentidos voltam-se para dentro.

Em sexto lugar surge Dharana, a concentração, o foco, o domínio da mente.

Dhyana é a meditação, que pode significar o esvaziar dos pensamentos, ou a reflexão sobre questões profundas, ou reduzir as situações a fatos simples, aceitando que é como é, ou até o reconhecimento do Ser que somos. E em oitavo e último lugar aparece Samadhi, um estado de alegria e paz, um preparativo estado de iluminação que nos levará finalmente a Moksa, a libertação.

Mas libertação de quê? Perguntamo-nos com toda a justificação. Simples de dizer, mas acredito que bem difícil de obter: a libertação dos nossos condicionalismos, das nossas limitações, para que possamos viver em paz e de bem connosco e com o mundo que nos rodeia, sem tristezas ou frustrações e respeitando tudo e todos.

Boas práticas!

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