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Acordo Alimentar: Governo cede a bolachas, biscoitos, fiambre e queijo

Indústria e distribuição alimentares recusaram reduzir os teores de açúcar, sal e ácidos gordos trans em quatro produtos de grande consumo. Os decisores falharam, o sector ganhou e todos nós, portugueses, perdemos

Os portugueses têm criatividade para criar provérbios para quase tudo e para o caso em apreço há um mesmo a jeito: “Quando a esmola é demais, o pobre desconfia!” Na semana passada, foram anunciados “valores históricos, em que pela primeira vez temos escolhas mais acertadas e saudáveis de produtos alimentares (…) mais de 2000”, mas, na verdade, ficaram de fora alguns dos alimentos mais ‘perigosos’ na dieta.

No acordo feito entre as autoridades de Saúde, a indústria e a distribuição do sector alimentar para reduzir açúcar, sal e gordura trans escaparam bolachas, biscoitos, fiambre e queijo. Ou seja, vão continuar com a mesma composição. E para os restantes mais de dois mil produtos alimentares, com “valores históricos”, o recuo mais evidente não foi nos teores nocivos que têm na sua composição mas na pressão do Governo, sob a liderança da Direção-Geral da Saúde. Por outras palavras: “Manda quem pode, obedece quem quer.”

A proposta na mesa tinha 2021 como meta de execução, no entanto, praticamente todos os alimentos no pacote – iogurtes, leite achocolatado, cereais de pequeno-almoço, refrigerantes, pastelaria, gorduras trans ou sopa e pratos prontos a consumir, entre outros - só vão ser alterados em 2022. E há mesmo um alimento que só mudará em 2023: os néctares de fruta.

Além do calendário, a negociação também foi mal sucedida no capítulo dos valores acordados. Em 2017, ainda com a anterior equipa ministerial, o objetivo era iniciar a negociação das ‘reduções doces e salgadas’ com percentagens entre 20% e 10%, respetivamente, 30% no caso particular do sal no pão. E agora, chegou-se ao momento decisivo da discussão com o Governo a propor 12% a 16% como referências para o sector adotar. E, nem assim, adotou.

No acordo final, ficou-se apenas por uma redução a rondar os 10%. As batatas fritas e outros snacks salgados destacaram-se pela positiva (prometem ter menos 12% de sal, mas só a partir de 2022) e os sumos pela negativa. Os néctares de fruta só vão ter menos 7% de teor de açúcar e apenas daqui a quatro anos. Há, no entanto, uma ligeira vitória dos peritos. Conseguiram incluir alimentos que não estavam previstos entre as reduções, no caso “refeições prontas a consumir e que correspondem ao top 5 das vendas: lasanhas, arroz de pato, bacalhau com natas, bacalhau à Brás e pizzas”.

O esforço dos peritos, com a colaboração das principais entidades de nutricionistas, terá sido grande, mas a resistência do sector parece ter sido maior. Importante é a garantia conseguida, que as alterações saudáveis na composição dos alimentos não vão levar a uma substituição por outros ingredientes nem a uma perda nutricional.

Os estudos internacionais são perentórios: concluem que os ganhos que resultam de medidas impostas, pelos decisores, são vinte vezes mais relevantes do que os obtidos com alterações voluntárias, da indústria e distribuição alimentares. Como se sabe: “De boas intenções o Inferno está cheio.”

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