Perfil

Vida Extra

Os famosos Cinco. Uma boa música de genérico vale por uma série inteira

Uma boa música de genérico vale por uma série inteira

“The Famous Five”

IMDb

Há dias que a música do genérico da série “Os Cinco” (1978-79), que foi emitida na nossa RTP nos anos 80, não me sai da cabeça. Uma coisa leva à outra e esta febre “Guerra dos Tronos” (cujo genérico e música foram essencialíssimos para construir o mito) levou-me a cogitar quais seriam as músicas mais fortes das séries da minha infância e juventude, e eis que cheguei à série da ITV de “Os Cinco” para ficar com um caso sério de earworms, a síndrome da canção que não nos sai da cabeça (stuck song syndrome).

A antecipação que o genérico de uma série favorita provocava era — e espero que ainda seja — das experiências mais sensuais e sensoriais que pode haver numa criança. Uma série de televisão pode começar a ser definida por um tema título. Em “Hitchcock Presents”, “X-Files” ou “Guerra dos Tronos” não fazemos “saltar introdução”, porque a música é tão poderosa e intrinsecamente parte daquilo que vamos ver daí a nada que se torna parte da experiência.

Os temas título das séries de televisão são uma parte estruturante das infâncias: ouvimo-las tantas vezes que marcam recordações para sempre. Falando de música que recordo quase instantaneamente, e tendo eu nascido em 1970, apanhei Pequenos Vagabundos — Grande música que podem conferir aqui:

E, indo até “D’Artacão”, passei pelos óbvios Sandokan, Verão Azul, Love Boat, Zé Gato, Dallas, Balada de Hill Street, Vicky ou Abelha Maia que devo ter cantando a berrar centenas de vezes e, claro, por este fantástico genérico da adaptação de “The Famous Five” de Enid Blyton, com os seus freeze típicos dos indicativos daquele tempo (a imagem fica paralisada quando o personagem está em grande plano) e em especial a contagiante música que o acompanha e que podem conferir aqui:

Enid, a prolífera

Estima-se que a escritora inglesa Enid Blyton (1897-1968) tenha vendido mais de 600 milhões de cópias dos seus mais de 700 livros escritos ao longo de 45 anos e se hoje escorrega devagar para ser menos conhecida, na segunda metade do século XX era muito lida por todo o lado, incluindo em Portugal, para quem os seus livros foram os primeiros livros só com letras de muitos petizes. No meu caso, lembro-me perfeitamente de ter começado a minha carreira de leitor com uma aventura de “Os Sete”. Nos tempos pré-tecnologia, “Os Cinco”, “Os Sete”, “Colégio de Santa Clara”, o “Colégio das Quatro Torres” (no original Mallory Tower), ou o meu favorito em criança, a coleção “Mistério” (The Five Find-Outers) faziam a alegria da infância de meia Europa, incluindo a Alemanha, onde Blyton sempre foi e continua a ser fortíssima.

Parte interessante é este espólio gigantesco que formou gerações de ingleses, europeus e populações da Commonwealth ter sido ignorado e assumidamente ostracizado pela BBC, que considerava Blyton uma escritora de segunda categoria, motivo pelo qual nunca (repito nunca!) adaptou nenhuma destas séries. Ou seja, uma das escritoras mais prolíferas e vendidas de sempre teve uma pegada televisiva francamente escassa. Então se excetuarmos “Noddy”, uma invenção de Blyton entretanto higienizada e relançada, esse lastro é quase inexistente.

Teve de ser a ITV, um canal privado, a pegar nos Famous Five em 1977 para duas temporadas, com um total de 26 episódios emitidos também em Portugal e que por alguma razão não ficaram no cantinho nostálgico nacional imediato de outras séries.

Foi só depois de morta que Blyton, que nunca se casou de abordar a BBC, riu por último. Para as crianças há uma enorme, gigantesca, familiaridade e apelo nas suas histórias — raptos, contrabandistas, pequenos crimes, furtos, resolvidos por pré-adolescentes, lanches saborosos, ausência total de ambivalência e ambiguidade, nenhuma sexualidade ou confusão sobre sentimentos. A vida podia ser aborrecida, mas aquelas narrativas serializadas baseadas na coragem, valentia, mas também nos “valores” e na “boa educação” das crianças entretinham qualquer um.

A primeira aventura de “Os Cinco” foi escrita em 1942. A série passava-se nas férias escolares de Julian, Dick, Ann, George e no cão Timmy e, nos mais de vinte livros publicados, todos se mantém sem hormonas a funcionar, apesar de estarem no início da adolescência, mas o que é que isso interessa? Há alguns anos, os livros de “Os Cinco” foram atualizados e palavras usadas naquele pós-guerra, como “gay”, “queer” ou “golly gosh” foram substituídas por outras contemporâneas, embora os pequenos heróis continuem sem fazer a barba.

“The Vicious Five”

“The Vicious Five”

IMDb

Sobram os “Funf Freunde”

Se originalmente os livros eram passados nos anos 40 e 50, esta adaptação televisiva (que não seria a única) decorria nos anos 70, o que correspondia a uma lógica contemporânea à época. O upgrade não terá afetado muito a coerência do universo, dado que as crianças ainda brincavam na rua.

Com a tal música introdutória eletrizante, a atmosfera de excitação estava criada ao fim de alguns segundos de episódio, numa das mais antigas, elementares e comprovadas táticas da televisão: faz uma música de genérico poderosa e a tua série nunca será esquecida. Sendo uma co-produção anglo-alemã, “The Famous Five” foi francamente ambiciosa e cara, cheia de planos abertos em exterior (os chamados wide shots) daquele countryside inglês, que nos transportavam diretos para as aventuras com aquelas crianças de classe média alta (embora ninguém pensasse nestas coisas então), de férias das suas boarding schools, nas casas ricas das suas famílias. Filmada em película, obteve enorme êxito a ponto de a ITV querer continuar a fazer mais episódios com histórias originais escritas de propósito, mas em vão, já que que geria o império Enid Blyton não autorizou.

Hoje a série está no YouTube e resiste firme em clubes e fãs e páginas de Facebook. Dos atores, nenhum seguiu ou conseguiu seguir carreira na representação, tendo a atriz Michele, que fazia a Maria Rapaz “Zé”, tido um fim triste: seria uma toxicodependente que se terá suicidado em 2000. O cão, por sua vez, morreu pouco depois das rodagens.

Uma outra adaptação da ITV, de meados dos anos 90, já era passada nos originais anos 40 e 50 em que Blyton situou as histórias, mas não teve nem perto nem de longe a repercussão da versão anterior, muito menos um genérico comparável.

Se a BBC e os ingleses de um modo geral desconsideram Enid Blyton e “Os Cinco”, os alemães continuam a adorar os “Funf Freunde” — e têm feitos vários filmes com os personagens, alguns bem recentes.

Michele Galagher em “The Famous Five” (1978)

Michele Galagher em “The Famous Five” (1978)

IMDb

Siga Vida Extra no Facebook e no Instagram.