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A caixa de Zuckerberg e o luxo do sono

Dormir tranquilamente é um luxo que nem os milhões do fundador do Facebook conseguem comprar, levando-o a criar uma solução para o sono intermitente da mulher, escreve a jornalista Catarina Nunes na crónica ‘Sem Preço’ desta semana

Mark Zuckerberg acaba de criar uma caixa de luz para ajudar a mulher a dormir tranquilamente, revelando, numa publicação no Instagram, que Priscilla integra o grupo gigantesco de pessoas com um sono agitado. A confidência do fundador do Facebook encerra a conclusão de que nem para o oitavo homem mais rico do mundo (com uma fortuna de 71 mil milhões de dólares - €63,7 mil milhões) está disponível uma solução para o problema que transforma o sono tranquilo num luxo inacessível.

Os alarmes em relação ao sono (e à falta dele) há muito que soam. Multiplicam-se os estudos que apontam os malefícios para a saúde e os livros de especialistas, gurus e figuras públicas sobre o tema. Aplicações que monitorizam a qualidade do descanso, camas, colchões, almofadas, pijamas, espaços para fazer sestas e até coachs que ensinam a dormir são algumas das variáveis que dão forma ao negócio crescente da saúde do sono, avaliado entre 30 e 40 mil milhões de dólares (€27/€36 mil milhões) nos Estados Unidos, segundo um estudo da McKinsey.

Instagram

O meu alarme soou em 2004, no final de uma manhã de sexta-feira, enquanto escrevia a última frase de um texto. Em frações de segundos deixei de ouvir e de ver, o corpo amoleceu, as rodas da cadeira deslizaram e caí no chão. No hospital, o veredito: exaustão. Até chegar a este ponto, o cansaço não deu sinais. A rotina era feita por três atividades em simultâneo: o turno da manhã no site do Expresso que acabava de ser lançado, a colaboração num programa na SIC Notícias e a escrita da versão impressa da reportagem televisiva, no caderno de Economia. O acumular de tarefas não foi imposto, mas uma junção de circunstâncias, sem sentir que estava a ‘esticar a corda’.

Mais de um mês a dormir dias inteiros (sem comprimidos) e uma infeção generalizada, seguida de uma cirurgia, foram a fatura a pagar pela fragilização do sistema imunitário. É uma experiência semelhante (com contornos diferentes) que leva Arianna Huffington a escrever, em 2016, o livro ‘A Revolução do Sono’. Para a fundadora do site de notícias Huffington Post, o alarme soou no dia em que desmaiou em casa por exaustão, o que lhe valeu um queixo partido e um olho cortado. Depois do livro que a transformou numa ‘evangelista do sono’, lançou a plataforma Thrive para pôr em causa o paradigma de que o burnout é o preço do sucesso, questionando o dinheiro e o poder enquanto medidas de referência.

O cobertor Gravity Blanket (249 dólares - €230) replica a sensação de um abraço, com a consequente sensação de bem-estar

O cobertor Gravity Blanket (249 dólares - €230) replica a sensação de um abraço, com a consequente sensação de bem-estar

Gravity Blanket

Voltemos ao início do texto: o sono que o dinheiro não compra e que leva o oitavo homem mais rico do mundo a criar, com as próprias mãos, uma caixa que evita que a sua mulher passe as noites a acordar e a olhar para o relógio do telemóvel, na ansiedade que antecipa o horário de as filhas despertarem. A invenção é uma caixa em madeira com uma tecnologia que emite uma luz ténue entre as 6h e as 7h, o momento da alvorada. O sistema permite a Priscilla saber, cada vez que o sono é interrompido, que, se não há luz, é sinal para continuar a dormir, sem necessidade de ir ver as horas.

Na mesma publicação no Instagram, o fundador do Facebook deixou aberta (a eventuais interessados) a possibilidade de alguém pegar na ideia e criar um negócio de produção de caixas idênticas. Para lá do altruísmo, a atitude de Zuckerberg tem por trás a certeza do potencial dos dispositivos que contribuem para o fim das perturbações noturnas. A mesma convicção que nos últimos anos tem levado à proliferação de produtos contra as noites mal dormidas.

São as tecnologias (principal vilão na incapacidade de desligar a cabeça na hora de descansar) que, paradoxalmente, dão o maior contributo na expansão de soluções que transformam uma necessidade natural num luxo. O mercado mais produtivo nesta matéria é o das aplicações, desde os sons dinâmicos da Pzizz (usada pelo Duque de York e a escritora J.K. Rowland) para induzir o sono, às que monitorizam os ciclos circadianos, como a SleepCycle, entre dezenas de outras opções.

O robô Somnox (€599) simula a respiração budista, que acalma e induz o sono

O robô Somnox (€599) simula a respiração budista, que acalma e induz o sono

Somnox

Alguns serviços vão-se sofisticando. A Calm começa como uma aplicação de meditação e evoluiu para uma contadora de histórias de embalar, relatadas pela voz do ator Stephen Fry, cujo objetivo é fazer com que os mais renitentes em adormecer se deixem levar por Morfeu. A experiência é multissensorial, com a disponibilização de vaporizadores com os aromas associadas a cada história contada por Stephen Fry. O próximo passo da Calm é abrir um hotel, onde os hóspedes apenas dormem, e lançar edredãos e cortinas que acabem com as insónias.

No ‘hardware’ associado ao ambiente de descanso exploram-se múltiplas possibilidades. As almofadas Smart Nora expandem e contraem para combater o ressono; as camas Epitome controlam os movimentos noturnos e os níveis de luz, barulho, humidade e temperatura ambiente, dando recomendações para melhorar o sono; o cobertor Gravity Blanket replica a sensação de um abraço, com a consequente sensação de bem-estar; e Tom Brady, jogador de futebol americano, comercializa pijamas que garantem absorver o calor corporal e refleti-lo em raios infravermelhos, que aliviam a tensão física.

Uma pesquisa na Internet apresenta um mundo infinito de marcas, onde a obsessão com o sono chega a trilhar a ficção científica. O robô Somnox, uma espécie de almofada para colocar junto ao peito, simula a respiração budista, mais completa e profunda, enquanto a fita para a cabeça Dreem induz o sono a partir da monitorização das ondas cerebrais. Nesta nova fronteira, paga-se para dormir. Literalmente. Em Nova Iorque, a cidade que nunca dorme, aumentam os estúdios onde é possível fazer sestas durante o dia, como no Nap York ou no Dreamery. São cápsulas ou quartos, com poltronas reclinadas ou camas, em espaços que reúnem as condições ideais de luz, som e temperatura, para o sono curto e revitalizador.

Numa das cabines do Nap York, em Nova Iorque, é possível dormir a sesta sob um céu estrelado, durante 30 minutos (15 dólares — €13,5) ou uma hora (25 dólares — €22,5)

Numa das cabines do Nap York, em Nova Iorque, é possível dormir a sesta sob um céu estrelado, durante 30 minutos (15 dólares — €13,5) ou uma hora (25 dólares — €22,5)

Nap York

O desespero pelo descanso perfeito está a criar uma nova profissão: os coaches de sono. Nick Littlehales é o que tem mais notoriedade, por ser o responsável pelas rotinas de Cristiano Ronaldo nesta matéria. Recomenda o sono bifásico (noite e sesta) ou o polifásico (dormir várias vezes ao longo das 24 horas), desmistificando a exigência de dormir oito horas seguidas. O programa desenvolvido para Cristiano Ronaldo é adaptado às necessidades do futebolista e envolve ciclos de 90 minutos cinco vezes ao longo do dia, com os dispositivos eletrónicos desligados uma hora e meia antes de se deitar.

Um estudo da Sociedade Portuguesa de Pneumologia, divulgado em março por ocasião do Dia Mundial do Sono, indica que mais de metade dos portugueses dorme menos de seis horas por noite, numa amostra com uma média etária de 36 anos. Em Portugal proliferam clínicas do sono e unidades hospitalares de combate à patologia que impacta na produtividade, raciocínio, tomada de decisões e é responsável por acidentes rodoviários. Assim é a era da busca do ‘sono dos justos’.

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