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Apagar automaticamente o nosso rasto na Google — já não era sem tempo

“Futuro Extra”, a crónica de Lourenço Medeiros, editor de novas tecnologias da SIC

A demonstração da funcionalidade feita pela Google

A demonstração da funcionalidade feita pela Google

Lourenço Medeiros

Era um bichinho que andava aqui atrás da orelha. Até sou um tipo confiante mas isto fazia-me alguma confusão. Vamos já à notícia e depois aos motivos.

A Google anunciou que passa a permitir aos utilizadores apagar automaticamente o seu histórico, seja a informação de navegação seja a informação de geolocalização. O utilizador define um período de tempo, três ou 18 meses, e ao fim desse tempo a história desaparece. Puf, zap, gone. A funcionalidade vai aparecer de forma gradual ao longo das próximas semanas, e tanto quanto se percebe será possível definir separadamente para a geolocalização e para a actividade na web e em aplicações.

Até agora podíamos ir às características da nossa conta e apagar os dados guardados, toda a história de uma só vez. Depois voltávamos a usar e voltávamos a apagar quando nos lembrássemos. Se quisermos usar funcionalidades como as direções do Google Maps temos mesmo que autorizar a Google a ter a nossa localização. Não há forma de nos dizer como vamos daqui para ali se não lhe dissermos onde é “aqui”, mais ainda se queremos que nos vá dando o trajecto e o estado do trânsito. Eu tenho toda a minha história desde que a Google a guarda e agradeço que continue a guardar. Adoro ir lá de vez em quando e recordar uma viagem espreitando a data e indo ver os trajectos que fiz, ainda por cima agora associados às imagens que fiz e tudo. Espero bem não me arrepender, mas acho que esta memória virtual é, de certa forma, eterna e pode mesmo ser vista como uma das grandes conquistas da era digital. Claro que também não nasci ontem e sei que o mundo dá muitas voltas.

Lourenço Medeiros

Se o mundo mudar, a memória pode ser perigosa e o simples facto de eu ter feito viagens à Rússia pode voltar-se contra mim. Não estou a brincar, já vimos coisas piores. Por isso, acho mesmo que todos temos o direito de optar. Esta funcionalidade de apagar automático é para mim um direito que a Google devia ter instalado desde o início. Precisa dos dados para prestar o serviço que nos presta, e até para ganhar o dinheiro que ganha em troca, mas convenhamos que é razoável que os tenha por um prazo, e não até lhe apetecer. Eu, talvez de forma ingénua, vejo como uma mais valia a manutenção da memória, como se fosse até mais um serviço que me prestam, mas isso sou eu.

Se por acaso ainda não viu o seu histórico de localização, vale bem a pena. Basta estar ligado, ou seja, ter acedido no browser de preferência do computador, a um dos serviços da Google como o Gmail e procurar “histórico de localização” ou “location history”. Vai descobrir todo um mundo que até viveu. Não se assuste, e antes de apagar pergunte a si próprio se é mesmo assim tão perigoso e se quer lá voltar. Depois a opção é sua.

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