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A farsa “Allo, Allo”

“Uma comédia passada na Segunda Guerra foi de longe uma das séries mais transversais e populares no público português”. Por Pedro Boucherie Mendes

Gorden Kaye e Vicki Michelle, 'Allo 'Allo! (1982)

IMDb

Indo logo ao que interessa: imagine-se uma comédia inspirada no “Programa da Cristina” ou em “Quem Quer Namorar com um Agricultor”, em que (obviamente) as várias situações, personagens e repetências são (muito) exageradas em nome da gargalhada e gáudio do público.

Allo Allo”, uma comédia da BBC que viria a somar 85 episódios em nove temporadas e que estreou em setembro de 1982, foi isso mesmo: uma farsa inspirada numa série dramática anglo-belga chamada “Secret Army”, emitida nos anos 70 na BBC, e está na história como uma das grandes produções (e exportações) do canal público britânico.

Julgo que poucos discordarão que “Allo Allo” terá sido uma das séries de comédia mais transversal de sempre no público português. Não há forma de o confirmar, mas entre ricos e pobres, cultos e incultos, letrados ou quem tivesse a antiga quarta classe, é impossível encontrar um português que não goste muito de “Allo Allo”, que a RTP 1, 2, Memória transmitiram várias vezes, bem como a SIC Comédia, ao longo dos anos entre 1984 e 2006.

A farsa

A bem dizer, todos nos lembramos no que consistiu esta sitcom que pareceu viver sempre o mesmo episódio. Rene Artois (cujo nome é devedor da cerveja Stella Artois) é um francês gordito e de bigodinho, proprietário de um café na pequena cidade francesa de Nouvion,ocupada pelos nazis durante a Segunda Guerra. Rene corresponde ao cliché do francês meio cobardolas em tempo de guerra, que colabora com relutância com o esforço da Resistência, fazendo por não ser apanhado pelas altas patentes nazis que frequentam o seu estabelecimento, que se vai distraindo e ocupando tempo e energia com affairs tórridos com as suas duas (sensuais) empregadas, enquanto atura a sua mulher e lhe esconde os casos, deflectindo ainda os flirts de um tenente alemão gay e escondendo como pode a obra “Fallen Madonna with the Big Boobies”, um dos grandes MgGuffins da televisão mundial, que muitos desejam por motivos diferentes.

Mais do que uma sitcom, “Allo Allo” era uma farsa, ou seja, uma comédia com enormes e implausíveis excessos, à antiga, dir-se-ia, uma espécie de teatro altissimamente exagerado, cujos sucessivos quadros assentam em equívocos, encontros fortuitos que acontecem de surpresa ou se evitam por pouco, tintas muito carregadas na caracterização dos personagens e double entendres picantes e até básicos. Era uma grande panela temperada com as músicas, as baguettes, a célebre boina, uma certa atmosfera lúdica da França ocupada durante a guerra, que nos foi mostrada em tantos filmes, o gendarme que afinal é um espião inglês, uma certa idiotia em todos os envolvidos, etc.

É engraçado como hoje a série talvez não fosse possível, dado o extraordinário número de lugares comuns, estereótipos e retratos sexistas, xenófobos, caricaturais e redutores em que a produção baseou a sua estética e ideologia. Aliás, esta lógica de pastiche era assumidíssima, a partir da já citada “Secret Army”, essa sim, uma série dramática sobre a Resistência. Goste-se ou não da ideia, esse humor de coletivo e mínimo denominador comum foi a chave do imenso êxito de “Allo Allo”, como foram os tremendos atores e a habilidade com que eram dirigidos, ou a constante e frenética manipulação de um conjunto de referentes sobre franceses, ingleses, nazis, espiões, mulheres, criadas de restaurante, patrões tarados e salazes, mulheres ingénuas e enganadas, velhos manipuladores, gays e até protagonistas de guerra cobardes, idealistas ou simplesmente lunáticos. Os próprios nomes dos personagens faziam parte desta enorme farsa (por exemplo, a criada Yvette chama-se Yvette Carte-Blanche) que se diferenciava também de outras comédias por ter enredos longos e prolongados (como a odisseia da obra Fallon Madonna) que viviam durante inúmeros (demasiados) episódios.

Não houve limites na pilhagem a referências e homenagens. Fica como exemplo a informação de que o terrível e cómico Herr Flick foi baseado em parte num vilão nazi de Indiana Jones, um filme bastante recente aquando da escrita de “Allo Allo”.

Carole Ashby e Gorden Kaye, 'Allo 'Allo! (1982)

Carole Ashby e Gorden Kaye, 'Allo 'Allo! (1982)

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E ainda…

Na verdade, e refletindo mesmo que por instantes, a série é muito menos boa do que se julga, sobretudo comparando com outras daqueles anos 80. As piadas óbvias marotas (sobretudo com salsichas alemãs, as big boobies da Fallen Madonna, etc) eram mais que muitas, numa lógica mais próxima dos “Malucos do Riso” do que se calhar estaremos dispostos a admitir. A circularidade das histórias e um bater de tecla levado à extrema potência diferenciaram “Allo, Allo”, mas também a tornaram previsível e irritante. Isso era tão assim, que no início de cada episódio o personagem René nos fazia um resumo do que acontecera para nos preparar para o que viria de seguida.

Talvez possa não soar inteiramente justo para o radar da nostalgia, mas de facto “Allo, Allo” pouco mais foi que esse paraíso de exageros, referências, piscadelas de olhos, no fundo, um tratado de humor básico de estereótipo. Só que arte é nos museus e, naquela altura, entreter era a ideia primeira, segunda e terceira e as pessoas adoravam a exagerada teatralidade dos personagens ou os artifícios de escrita (tão geniais que se tornam óbvios), como meter os atores que fazem franceses (que são ingleses) a falar num inglês macarrónico de sotaque francês, idem nos alemães e italianos, com os personagens ingleses a usarem um inglês de alta sociedade.

A paródia era tanta que a série até beneficiou da sorte. Os bordões mais conhecidos (“You stupid woman!”, de Rene para a mulher) e, principalmente, a frase de Michelle Dubois (nome de código Blue Tit) da Resistência, “Listen very carefully, I shall say zis only once” (ou “The resistance..., which of course we do not know”), faziam parte do guião, mas seria suposto serem ditos apenas uma vez como linhas de diálogo normais, ganhando vida própria pela eloquência, entrando assim na história da série e mesmo da televisão.

Alemanha, 2010

A primeira temporada não foi isenta de controvérsia – afinal de contas, fazia-se pouco de uma época terrível – mas depressa a força da comédia silenciou os protestantes. “Allo, Allo” foi bem um filho daqueles anos 80, das doses semanais de meia hora, sem gravações nem plataformas, nem perturbações excêntricas com atores e argumento, o que justifica que tenha havido três atores diferentes a fazer de Leclerc (e dois a fazer de Herr Flick) e poucos nos tenhamos dado conta.

A série obteve enorme sucesso na Europa e em Portugal e foi um dos melhores exemplos de “comedy in wartimes” mas só chegaria à Alemanha em 2010, décadas depois de estrear na BBC, por motivos atendíveis. Os vários executivos de canais alemães adoravam a série, mas temiam a controvérsia e havia a questão de dobrar aqueles sotaques.

A série original terminaria em 1992, mas continuaria em repetições atrás de repetições, espetáculos ao vivo e peças de teatro, com alguns dos atores a rentabilizarem os seus papéis durante anos e anos, em especial na chamada Europa de Leste, onde “Allo, Allo” foi um êxito.

Apesar das tentativas, a série só conseguiu ser fenómeno de culto na América, nunca chegando ao grande público.

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