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Vida Extra

Há um novo destino de luxo em Lisboa. E não é na avenida da Liberdade

Na crónica “Sem Preço” desta semana, a jornalista Catarina Nunes escreve sobre o conceito que leva vestuário de luxo à tradição operária e modernidade criativa de Marvila

A nova loja Tem-Plate é, como a denominação indica, um modelo de como o luxo pode conviver com o ecossistema artístico e criativo, no enclave menos valorizado de Lisboa

Francisco Nogueira

Atenção aos distraídos. As cortinas amarelo pálido, em longas e grossas tiras de plástico PVC, podem fazer parecer que estamos perante a entrada para mais um dos muitos armazéns de Marvila. Sem nenhuma referência a marcas ou nome de empresa na fachada, o novo destino de luxo em Lisboa confunde-se com os edifícios devolutos na zona da cidade historicamente associada a pobreza e atividades fabris.

É o local mais improvável para, no interior, se encontrar dezenas de marcas de luxo, desde as mais vanguardistas como a Doublet, à referência de streetwear Off-White, passando pela consagrada Burberry, por exemplo. Já no final de Braço de Prata, a poucos metros do novo condomínio de luxo Prata, projetado pelo arquiteto-estrela Renzo Piano, a loja Tem-Plate quer ser parte do futuro de Marvila, que se faz cada vez mais com criativos, artistas e novos conceitos.

No enclave menos valorizado da capital, onde o preço por metro quadrado ainda é o mais barato de Lisboa, a nova loja de roupa e acessórios de luxo convive com a contradição. Uma história que se cruza com os habitantes de há dezenas de anos, herdeiros do passado fabril da zona oriental da cidade, e os jovens empreendedores que aqui encontram a atmosfera ideal para pôr de pé novos conceitos de lojas, restauração, coworking, galerias de arte e espaços culturais, entre outros.

Rune Park e Robby Vekemans (o dinamarquês nascido na Coreia e o belga que estão por trás da Tem-Plate) não temem o bairro que até há poucos anos era evitado por lisboetas e turistas, onde os edifícios devolutos, os armazéns abandonados e as hortas à beira de estradas fazem parecer que se aterrou num cenário pós-apocalíptico. É o sítio perfeito para apanhar a onda de renovação que se sente e ser pioneiro num segmento que até agora tem estado concentrado na avenida da Liberdade.

Rune Park e Robby Vekemans, os fundadoresda Tem-Plate, querem apanhar a onda de renovação em Marvila

Rune Park e Robby Vekemans, os fundadoresda Tem-Plate, querem apanhar a onda de renovação em Marvila

Francisco Nogueira

Os dois fundadores da Tem-Plate não gostam de localizações nem de cidades óbvias. Conhecem todas as grandes capitais de moda e, no passado, definiram as coleções de vestuário de lojas de luxo em Copenhaga e Nova Iorque (Rune) e em Antuérpia (Robby). Já tinham estado em Lisboa, muito antes da explosão do turismo, e conheceram-se numa conferência anual da Farfetch (a plataforma digital de luxo de José Neves), a mesma onde também têm à venda as peças da loja que criaram em Marvila.

Ambos queriam desenvolver um projeto próprio, depois de dezenas de anos a trabalhar para lojas que não eram suas. Não foi preciso muito para lhes chegar aos ouvidos que Lisboa é ‘a’ cidade onde estar neste momento. Além do fervilhar turístico, cultural e artístico, a dupla percebeu o potencial dos novos residentes, das empresas internacionais que se instalam e da Web Summit. As contradições do bairro, que divide ‘paredes’ com o Parque das Nações e bairros sociais, tem o apelo criativo que já tornou moda outras localizações esquecidas, como o Bairro Alto, no passado, e o Cais do Sodré, mais recentemente.

A uma localização fora do circuito do luxo, a Tem-Plate soma a ousadia de apresentar vestuário de estilistas que não estavam em Portugal. Thom Browne, Loewe (a loja da avenida da Liberdade tem apenas artigos em pele), Maison Margiela e Comme des Garçons são algumas das marcas do portefólio, que é composto em 80% por novidades no país. Rune Park e Robby Vekemans querem juntar o luxo ao ecossistema dos espaços de cowork e das galerias de arte da zona, para criarem um estilo de vida. Por isso garantem que a TemPlate não é apenas uma loja. É um espaço que abrem a eventos não só na moda como nas artes e mobiliário, por exemplo, com projetos e apresentações temporárias. O site internacional de comércio eletrónico, com todas as marcas e produtos, leva a loja de Braço de Prata para o mundo.

Na loja projetada pelo estúdio Gonzalez-Haase/AAS, de Berlim, 80% das marcas à venda não estavam em Portugal

Na loja projetada pelo estúdio Gonzalez-Haase/AAS, de Berlim, 80% das marcas à venda não estavam em Portugal

Francisco Nogueira

No passado, esta zona estava habituada a ver sair daqui produtos mais prosaicos. Vinhos, fósforos, sabão, tabaco e até armamento militar são a base produtiva da zona oriental, alimentada pela mão-de-obra operária vinda do norte do país, na primeira metade do século 20. Dos séculos 17 e 18 resta a herança aristocrática e monástica, onde predominam quintas e ordens conventuais. O salto para a industrialização e apogeu fabril dá-se com a inauguração da linha férrea, em 1856.

O antigo armazém onde se encontra a Tem-Plate, perpendicular aos escombros em tijolo da antiga fábrica da Tabaqueira, foi reabilitado mantendo a estrutura original. Por trás das cortinas em plástico PVC, que preservam o interior do excesso de frio ou de calor, encontra-se a assinatura do estúdio de arquitetura e iluminação Gonzalez-Haase/AAS, sedeado em Berlim, responsável pela loja da Balenciaga, em Paris, e por um ponto de venda móvel da Birkenstock, em Berlim, entre outros projetos.

Em Marvila, o atelier alemão manteve os 850 metros quadrados em espaço aberto e o chão original, lixado até desvendar as pedras originais por baixo do cimento. A luz, que entra apenas pela fachada da entrada, é a protagonista nesta reabilitação, com uma iluminação feita por camadas que se intensificam no fundo da loja, onde o sol não chega. Para lá chegar, é rumar a Oriente e atravessar as cortinas amarelo pálido.

Tem-Plate
Rua Projetada à Matinha, F Lisboa
2ª feira a sábado, das 10h às 18h
tem-plate.com

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