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A respiração do fole — Bhastrika Pranayama

Cristina Diniz, como sempre à quarta-feira, oferece-nos técnicas de yoga para lidar com dias invernosos, cinzentos e chuvosos — e voltar “à Ericeira e ao mar de cada um”

D.R.

Quem me conhece sabe que eu adoro a Ericeira. Além de ter raízes lá, diria que toda eu estou cada vez mais enraizada naquela pequena vila onde o mar é mais azul. O que mais amo mesmo é o mar, todo o percurso junto ao mar, cada recanto, recôndito ou não, onde eu possa estar quase dentro do mar. Estes últimos dias foram lá passados e a energia que se vive é maravilhosa. Voltei e acho que comigo trouxe os dias mais invernosos, cinzentos, chuvosos, tendo deixado para trás o brilho prateado daquelas águas, a ondulação forte a salpicar bem alto nas Furnas, as calmas noites de luar, a doce fulgência do Sol. Por isso mesmo, creio que a minha energia baixou. Mas uma guerreira não baixa armas e arranja sempre maneira de se erguer firme e procurar entusiasmo e energia.

Como sempre, o yoga ajuda. Tenho constatado que nas minhas práticas sinto necessidade e recorro a um tipo de respiração que revigora, dá força, revitaliza. É uma respiração que nos faz centrar muito em nós, que visivelmente nos aquece o físico e emocionalmente nos dá coragem e ânimo. Refiro-me à respiração do fole, em sânscrito Bhastrika prananyama.

Bhastrika significa um fole utilizado num forno de ferreiro. Tal como num fole, aqui o ar é forçado a entrar e sair de forma bem vigorosa. Ao fazê-lo, procuramos não movimentar nada mais além do diafragma e dos músculos abdominais; contrariamos a tendência de contrair a face ou fazer movimentos com os ombros. Existem vários graus de complexidade adequados a praticantes mais ou menos experientes. Segue a descrição de duas técnicas acessíveis e que produzem bons resultados.

Como preparação, devemos assoar o nariz e zelar para que o ar circule livremente por ambas as narinas. Sentados de modo confortável, por exemplo, com o dorso dos pés no chão e sentados sobre os calcanhares, mãos apoiadas nas coxas (posição de vajrásana). Cuidamos que as costas estejam bem eretas e descontraímos rosto e ombros. A nossa atenção mental pode fixar-se na cavidade abdominal (plexo solar, correspondente ao manipura chakra). Inspiramos e expiramos de forma rápida e vigorosa pelas duas narinas. A inalação e a exalação devem produzir um ruído como o de um fole e devem ter a duração de apenas um segundo cada uma. Isto perfaz um ciclo de Bhastrika.

Repetimos de modo seguido 10 ou 12 ciclos, estando sempre atentos e bem conscientes do que está a ocorrer no nosso corpo. Se houver sinais de cansaço ou tonturas, se o vigor diminuir, reduzimos o número de ciclos. No final desta série (uma dezena ou dúzia de inspirações e expirações seguidas), ao expirar, permanecemos 2 ou 3 segundos de pulmões vazios, contraindo simultaneamente a musculatura dos esfíncteres do ânus e da uretra, elevando e contraindo a zona pélvica, contraímos o abdómen e também o queixo de encontro ao peito (Bandha traya). Depois recomeçamos novo ciclo, até perfazermos 3 ou 4 ciclos completos.

Outra técnica que pode ser utilizada é fazer os mesmos 10 a 12 ciclos seguidos e depois fazer uma inspiração lenta e profunda e reter o ar de pulmões cheios, contraindo apenas a musculatura dos esfíncteres do ânus e da uretra durante 2 ou 3 segundos, e depois expirar lentamente. Isso vai permitir que os pulmões e o diafragma repousem e se preparem para um novo ciclo. No final deitamo-nos em decúbito dorsal (savasana) e talvez possamos apreciar toda a nossa energia vital a expandir-se internamente no corpo, o que é bem bom!

Contraindicações

Não fazer práticas prolongadas, pois o processo respiratório é enérgico e potente. Certo tipo de pessoas não devem fazer este exercício respiratório: pessoas com doenças pulmonares ou parca capacidade pulmonar; quem sofra de síndrome vertiginoso, tenha problemas oculares ou do ouvido (pus nos ouvidos, deslocamento da retina ou glaucoma); pessoas com tensão alta ou baixa ou doenças do coração. As grávidas não devem praticar (contudo é bom para o trabalho de parto, caso estejam habituadas a fazê-lo). Não fazer antes de dormir nem com o tempo muito quente, pois aquece. Se sentir sensação de desmaio, transpiração excessiva ou vómitos é porque a técnica está a ser feita de modo incorreto e deve parar.

Benefícios

É uma respiração vitalizante, ativa e revigora o fígado, o baço, o pâncreas e os músculos abdominais. O movimento rápido e ritmado do diafragma massaja e estimula os órgãos viscerais, tonificando o sistema digestivo e melhorando a digestão; os seios nasais são drenados, o que proporciona uma sensação estimulante. Usado para aumentar a energia e para sair de estados de espírito introspetivos. Purifica o sangue. Devido à rápida troca de ar nos pulmões, há aumento na troca de oxigénio e dióxido de carbono na corrente sanguínea, o que estimula o metabolismo a nível celular, produzindo calor e libertando toxinas. A energia vital ativa e aquece todo o corpo, podendo inclusive ser praticado para aquecer o corpo se nos depararmos com clima frio e sem roupa suficiente. Trabalha o foco mental.

Posto isto, com cuidado e consciência do que se pode ou não fazer, é uma prática ótima para recuperar o nosso estímulo, vigor e energia. A partir daí é fácil meditar, que estamos novamente sob o céu amplo e frente ao mar azul da Ericeira ou doutro qualquer cantinho à nossa medida.

Boas práticas!

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