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Vida Extra

O primeiro Justiceiro

Antes do homem do Kitt, a televisão portuguesa teve em Lin Chung o seu primeiro justiceiro

“Suikoden” no original, “Water Margin” em inglês, “Die Rebellen vom Liang Shan Po” em alemão, “La Légende des Chevaliers aux 108 Etoiles” em francês, “Frontera Azul” em espanhol ou “Lin Chung, o Justiceiro” em português, é o nome de uma série japonesa de 1973-74, passada algures na China do século XII, durante a dinastia Song e que foi um autêntico fenómeno de popularidade na Europa e em Portugal, sobretudo no público masculino juvenil.

Emitida nos anos 70 na RTP (e em 2004 na SIC Radical), terá sido a primeira serie japonesa na nossa televisão (excluindo as animações), com estas aventuras de Lin Chung (que muita gente pronunciava Lingue Chungue) a constituírem outro excelente exemplo de uma certa ambição televisiva mundial dos anos 70 de tentar fazer televisão-cinema, investindo recursos para tal. Filmada em película, na China por equipas e atores japoneses, a série foi uma encomenda para assinalar os 20 anos da Nippon TV, uma obra de grande fôlego, que se seguiu na RTP a “Kung Fu” (série americana, com David Carradine) e antecedeu “Os Jovens Heróis de Shaolin”,esta já uma produção de Hong Kong.

“Water Margin” (1972)

“Water Margin” (1972)

Um clássico é sempre um clássico

Se para a pequenada (onde eu me incluía), o que interessavam era que víamos uma série de ação, com heróis e vilões, em batalhas de longas espadas curvas e punhais, fosse a pé ou a cavalo, mais os ninjas e alguns seres fantasiosos e os seus feitiços, no fundo lambuzarmo-nos naquela estética wuxia (um género de literatura de fantasia que descreve histórias de guerreiros, cavaleiros e artes marciais passadas na China antiga), a verdade é que “Water Margin” é uma obra do cânone chinês, com os 26 episódios a serem uma adaptação de uma pequena parte de um dos quatro clássicos antigos da Literatura Chinesa do século XIV, no caso (e em inglês) ”The Water Margin – Outlaws of the Marsh”.

A frase “Do not despise the snake for having no horns, for who is to say it will not become a dragon?” (“Não desprezes a serpente por não ter chifres, porque quem te diz não se poderá vir a tornar num dragão?”) fazia parte do extraordinário e hipnotizante genérico e constituía a princesa das metáforas enigmáticas que surgiam volta e meia através de um narrador sábio, e que ajudavam a aumentar o mistério e sofisticação do ambiente narrativo. Que iria acontecer no episódio de hoje?

Além dessa constatação recorrente de só haver dois canais, é inequívoco que a série possuía todo sabor forte a índios e cowboys, piratas e soldados do rei, Robin Hood contra o xerife, e por aí fora, ajudado pelo exotismo dos personagens, cenários, músicas e camas sonoras diferentes das produções europeias que estávamos habituados. Parte da imponência marcial com que deliramos em “A Guerra dos Tronos” era comum a estes épicos dos anos 70, e Lin Chung, com os fora-da-lei a cavalo em lutas permanentes, foi dos exemplos mais eloquentes a que assistimos no tempo dos dois canais.

O ator Atsuo Nakamura (que mais tarde optaria por uma carreira política, sendo eleito para uma das câmaras do parlamento japonês) encarnava Lin Chung, um alto funcionário do Império alvo de uma conspiração, que se refugia com 108 rebeldes fora-da-lei no pântano nas margens de Liang Shan Po, de onde enfrentarão as tropas do Governador.

Acreditem que era uma bela série, a vários títulos notável, porque cada episódio parecia um pequeno filme, inúmeras cenas em exterior com vários personagens e extras e até tinha uma destacada “guerreira” (Hu San-Niang interpretada por Sanae Tsuchida), algo inusitado à época: as mulheres costumavam ser apenas as frágeis beldades de serviço.

Foram produzidas duas temporadas com um total de 26 episódios, emitidos aos domingos na RTP1, mas infelizmente não consegui descobrir a data exata.

“Water Margin” (1972)

“Water Margin” (1972)

IMDb

Dobrar é criar

A popularidade da série na Europa deveu-se uma estranhíssima opção de dobragem. Posterior à morte de Bruce Lee, cujo efeito provocara um rápido desinteresse dos europeus pelo cinema de Hong Kong e de artes marciais, não seria evidente que esta produção japonesa viesse parar às televisões europeias. Para se dar uma ideia, não havia “scripts” disponíveis (ou seja, os diálogos entre personagens) passíveis de serem traduzidos do japonês para o inglês, o que ainda assim não impediu que se construíssem diálogos a partir das sinopses dos episódios.

Era bizarro que um ator japonês pudesse estar a dizer alhos e o texto inglês bugalhos, mas o que interessava na essência era que o significado do episódio se mantivesse coerente com a sinopse. Um detalhe que não atrapalhou o enorme êxito da série na BBC em 1976, ainda hoje recordada pela geração britânica que então era jovem e estava prestes a saber o que era o punk.

Estranho? Sem dúvida, mas este projeto mirabolante daria a “The Water Margin” uma escala incrível. O homem responsável por essa autêntica criação chegou mesmo a publicar uma novelização da série em livro, ou, talvez seja mais justo dizê-lo, a escrever a sua versão do clássico chinês. Na dobragem, os atores ingleses falavam aquele inglês com sotaque oriental carregado e, como curiosidade, refira-se que o papel do “narrador” era assegurado pelo ator que faz de Cato nos filmes Pantera Cor de Rosa, com Peter Sellers.

A dobragem em inglês de “The Water Margin” permitiu que uma geração inteira de europeus (Alemanha, Holanda, Bélgica, Espanha, Portugal, etc) pudesse acompanhar a saga e, de entre as séries de culto daqueles tempos, poucas foram mais de culto que esta, até porque não provinha de um dos grandes mercados. Ainda hoje é relativamente complicado ser expedito a comprar programas aos japoneses e quase todas as séries de anime são adquiridas através de intermediários europeus.

Como noutros casos, escapava-nos por completa a dimensão política e a trama histórica daqueles bandoleiros por quem torcíamos e que punham em causa a autoridade do imperador, obrigado a viver nas margens de Liang Shan Po, ao sul da cidade. Algumas das cenas podiam ser especialmente violentas e elaboradas, outras mais ingénuas, e havia bastante humor. No fim Lin Chung e os seus cúmplices ganhavam sempre, afinal de contas aquilo que em casa estávamos à espera.

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