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Vida Extra

Passeio ferroviário sem comboio em Porto de Mós

Um percurso pela plataforma da antiga Linha Mineira do Lena em pleno Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros

Entre 1917 e 1955 operou na região oeste uma companhia ferroviária transportando passageiros e carga numa linha de via estreita que ligava as minas da Bezerra a Porto de Mós, Batalha e Martingança, onde confluía com a Linha do Oeste. Teve na sua máxima extensão 33 km.

Desta linha poucos vestígios se mantiveram, a não ser o troço mais a sul que subia laboriosamente de Porto de Mós até às minas de carvão da Bezerra. Nesta área boa parte da plataforma manteve-se em razoável estado de conservação com balastro (base de cascalho onde assentavam os carris), um ou outro vestígio da via-férrea e dois magníficos túneis abertos na rocha viva. Em 2012, por iniciativa da Câmara Municipal de Porto de Mós, um troço de 8 km entre a Bezerra e os moinhos e parque de merendas da Corredoura foi transformado em ecopista.

Tendo o piso sido regularizado, os túneis iluminados e instaladas guardas lateiras de protecção, este itinerário tipicamente ferroviário, ou seja sem grandes desníveis (na verdade desce ainda que suavemente), é ideal para passear, seja a pé, seja de bicicleta. Como se desenvolve ao longo da cumeada da serra de Pevide tem amplas vistas, primeiro para leste e, na fase final, sobre Porto de Mós.

Ecopista na Bezerra, Porto de Mós

Ecopista na Bezerra, Porto de Mós

Ricardo Teixeira / Google Maps

Onde deixar o carro

Se tenciona fazer este périplo a pé organize-se, uma vez que se trata de um percurso em linha, portanto sem retorno ao ponto de partida (o que é um não problema para quem esteja de bicicleta). Se estiver sozinho ou com um grupo pequeno, pode deixar o carro estacionado em Porto de Mós (por exemplo junto ao Intermarché) e tomar um táxi para a Bezerra (a 8 km). Caso disponha de diversas viaturas, deixe-as nos dois extremos do percurso.

Para chegar ao início do passeio saia de Porto de Mós para sul, tome a estrada para Serro Ventoso e derive para a Bezerra, estacionando junto à boca das antigas minas. A antiga ferrovia, agora ecopista, é acessível junto ao campo de futebol da aldeia da Bezerra, sendo a sinalização bem visível.

Convém ter presente que, ao longo destes 8 km, não vai encontrar casas nem povoações, circunstância pela qual convém ir prevenido com a água e a comida que lhe parecer necessária (não foi por acaso que se sugeriu o estacionamento junto a um supermercado) mais o equipamento que entenda adequado.

A mais suave das descidas

Quando havia cascalho solto era aconselhável usar botas de montanha mas para o piso de saibro compactado que vai encontrar, qualquer sapato de desporto serve. Os primeiros 3 km vão ser basicamente a direito, com bonitas vistas sobre os vales a leste da serra. Sensivelmente em frente vai-se avistando Porto de Mós. Um esse muito largo corresponde, sensivelmente, ao km 2 do percurso.

Se observar com atenção verá que o trilho tem um pequeno declive e que, ainda que não pareça, está, na verdade, a descer. Para garantir que a pendente fosse compatível com a tecnologia ferroviária de princípios do século XX foram rasgadas trincheiras pelo meio da rocha e feitos aterros sobre as zonas baixas. Mas a obra mais espectacular de engenharia são os dois túneis que surgem já na fase final do percurso. Abertos na rocha viva, dão acesso à vertente ocidental da serra, começando a avistar-se o mar, a N1, Alcobaça e a Nazaré.

Um dos vários túneis ao longo da ecopista da Bezerra

Um dos vários túneis ao longo da ecopista da Bezerra

Thérèse Ascençao / Google Maps

Dificuldades do vapor

Entre 1928 e 1945 por aqui circularam comboios mineiros que transportavam o carvão (de fraca qualidade) extraído nas minas da Bezerra. O peso dos vagões, o raio das curvas e, apesar de tudo, a inclinação do traçado, tornavam a viagem algo aventurosa, sobretudo se nos lembrarmos que se recorria a locomotivas a vapor. Umas de fabrico checo eram potentes mas demasiado pesadas, enquanto as de fabrico alemão eram mais ágeis mas faltavam-lhes cavalos…

À chegada ao topo norte da serra de Pevide a antiga linha contorna um cabeço, antes de começar a descer. Bem visíveis, o marco geodésico de Pevide (altitude 288 m), os moinhos da Corredoura e um parque de merendas com vista panorâmica. Poderá ser a altura para retomar forças e gozar a vista porque há muito para ver.

Lá em baixo, já bem visíveis, Porto de Mós e o seu castelo medieval, destacando-se a meia encosta. Ainda que a linha prosseguisse por mais 6 km, descendo a serra em sucessivos ganchos esse trajecto ainda não foi adaptado a ecopista. Se não quiser continuar na ecopista até Figueiredo e à pedreira da Ricel, pode atalhar, descendo o caminho muito íngreme (ciclistas, atenção aos travões) que irradia da curva do parque das merendas e que, 1 km volvido, desemboca na N242, já às portas de Porto de Mós. O centro da cidade está a cerca de 1 km.

Pedro Varela / Flickr

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