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Uma lama de peluche feminista hardcore e um lince que seduz como ninguém

A crónica do Pai Panda desta segunda-feira inclui animais de peluche deixados pela filha — uma companhia imperdível

Alex Blajan / Unsplash

Felizmente, tenho a companhia dos animais de peluche da Panda. Sem eles os meus fins de semana em que não a tenho seriam bem mais solitários e aborrecidos. Se bem que também me causam algum stress. Especialmente o Guaxinim Neurótico. É muito pessimista e angustiado e está sempre a dizer que tudo vai correr mal ou a anunciar desgraças. Se estou a despejar água a ferver na tigela das noodles instantâneas no balcão da cozinha, já sei que aquela cabeça com olhos ansiosos vai espreitar da ombreira da porta para vaticinar: “devias meter a água ferver na mesa da sala e não aqui na cozinha porque depois vais levar essa tigela de plástico cheia para a sala e vais queimar as patas como ontem e entornar caldo a ferver para as partas descalças”. E desaparece. É assim com tudo.

Também tenho de lidar com a Lama de Pijama e o Lince Sedutor. A Lama de Pijama é feminista daquelas hardcore, do género sem sentido de humor, toda politizada, a citar Foucault, Derrida, Lacan, etc. Eu não sabia quando a ofereceram à Panda porque por fora não parecia nada. Tem uma tiara na cabeça, é de boas famílias e tudo. Está em terapia e toma medicação, mas mesmo assim aquelas ideias continuam. Podia arranjar um Lama facilmente e ter Laminhas, mas acha que “o papel de mãe é redutor” e que “não vai ser escrava do patriarcado heteronormativo” e que a sua espécie não a define, que se quiser ter bebés com outras espécies tem. Apesar de isso ser geneticamente impossível, como lhe explica a Coruja Sábia. Está sempre a dar na cabeça do Papá Raposa a dizer-lhe que a guarda do Bebé Raposa devia ser da Mamã Raposa e quando faz baby sitting do Bebé Raposa é frequente o Papá Raposa encontrar o seu bebé a brincar com bonecas e pintado de batom, pois para a Lama de Pijama o “género é uma construção da matilha”. Tem conflitos com praticamente todos os animais do bosque excepto com o Alce Sven desde que este assumiu publicamente a sua preferência por Alces e se tornou professor de ioga. Isto gerou grande desilusão em todas as fêmeas do quarto da Panda, mas causou grande satisfação ao Lince Sedutor, pois agora ficou com a posição alfa sem concorrência. E se ele já era um convencido antes, depois ficou simplesmente com um ego sem fim. Aparece armado em guru a toda a hora. Se estou no chat com uma mulher começa a dar-me dicas no meio de risadinhas de gozo. “Não a elogies assim. Se a elogias ela percebe que gostas dela e perde interesse” ou “sê mais misterioso, elas gostam de mistério porque podem imaginar o que querem e acreditar nisso em vez de perceberem como é que tu és” ou “não respondas já à mensagem, vai jogar playstation primeiro, ela vai pensar que tens vida social”. Fico com a autoestima um bocado em baixo, mas algumas das dicas dele realmente resultam.

Este fim de semana os animais do bosque fizeram uma aposta com o Lince Sedutor para resolver o problema da Lama de Pijama.

  • Ela está é a precisar de uma bem dada! - disse o Coelho Fofinho.
  • Vá lá Lince, usa a tua magia! - pediu o Papá Raposa.
  • Ela gosta de ti na verdade! - espicaçou-o a Coruja Sábia.

Mas o Lince Sedutor perante a proposta, pareceu mais hesitante que o normal. Contemplou os carros a deslizar na rua lá em baixo pela janela da sala, com os seus olhos verdes de felino semicerrados.

— “Não”, disse o Lince, arrancado do transe - ter um date com um bicho como a Lama de Pijama… é muito perigoso. Normalmente tudo o que uma fêmea normal consideraria boa educação, como eu mastigar e regurgitar um pedaço de carne para ela comer, ela vai considerar como condescendente porque sabe mastigar sozinha. Se elogiamos a cauda, é porque só as queremos por isso. Não tomamos a iniciativa de lhes lamber o pêlo porque podem acusar-nos de assédio. Tenho de fazer tudo ao contrário da minha natureza de Lince e perco todos os meus poderes. E no fim… no fim são vulneráveis demais. Não. A Lama precisa de fazer as pazes com ela própria e o seu passado. Apesar de eu ser um Lince… tenho o código de honra dos Linces Sedutores. Não contem comigo.

E voltou a contemplar a janela e os carros. Passa horas nisso, pois afinal de contas é um gato.

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