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Sandokan, Sandokan

Em Portugal, enquanto os adultos lutavam pelo regime, as crianças suspiravam pelo Tiger de Monpracem

“Sandokan”

D.R.

A utilidade marginal das séries é cada vez menor. Cada produção nova, mesmo as que se anunciam como revolucionárias, incríveis e fantásticas, ecoam tanta coisa vista, que temos dificuldade em nos ligar, o que também ajuda a explicar parte da obsessão com “A Guerra dos Tronos”: tem tudo a ver com o coletivo da coisa.

Mas já houve um tempo em que séries lineares, de estrutura simples e previsível, conquistaram metade da Europa, em especial crianças e jovens. Naqueles anos 70 do século passado, coincidentes com a terceira vaga das democracias (Espanha e Portugal), além das adultas e maturadas séries americanas, saiu muita coisa de Inglaterra, França, Itália ou Alemanha que consumimos como se fosse a revelação divina.

“Pequenos Vagabundos”, “Eu, Claúdio”, “Tempos Difíceis”, “Família Bellamy”, “Espaço 1999” e “Sandokan o Tigre da Malásia”.

Seis episódios que pareceram 600

Emitida semanalmente no primeiro canal da Rai, a televisão pública italiana, entre janeiro e fevereiro de 1976, “Sandokan” não foi a primeira adaptação da obra do escritor italiano do século XIX Emilio Salgari, mas cimentou uma lógica de co-produção entre países na televisão europeia que viria a ser frequente pelos anos 70 e 80. Neste caso, Itália, França, Alemanha e Reino Unido suportaram as aventuras do pirata criado por Salgari.

A complexidade da produção foi enorme, maior do que num filme, mas valeu a pena: 27 milhões de italianos viram o sexto e último episódio, um recorde para a época, a palavra “sandokan” transformou-se num adjetivo coloquial para corajoso e valente e a série foi uma mina de ouro em merchandising, incluindo a coleção de cromos, punhais de plástico, turbantes botas e demais parafernália associável aos personagens. Noutros países da Europa, incluindo os do Bloco de Leste, “Sandokan”, com os seus amores impossíveis, paisagens exóticas e cenas de ação intrépidas, também foi um fenómeno.

Em Portugal, e ainda que houvesse apenas dois canais, a produção obteve um êxito estrondoso, e se quase todas as séries eram populares à época, o “Tigre da Malásia”, como também era conhecido, marcou uma era.

Exibida na RTP em 1977 e repetida em anos seguintes, primeiro a preto e branco (porque era assim que a RTP emitia) e depois a cores, apesar de ser uma minissérie de apenas seis episódios de cerca de uma hora cada, para a geração dos Pedros, Paulos, Miguéis, Anas, Cristinas e Margaridas, nascidos nos finais dos anos 60 e princípio dos anos 70, pareceram 600, tamanha foi a influência no imaginário coletivo, numa escala que atingiu os recantos mais remotos. A força da música do genérico e essa pequena coincidência que era “Sandokan” rimar com soutien (na altura a palavra sutiã não existia), resultaram numa cantiga transgressora que a juventude de então repetia mais vezes que os políticos eram capazes de reiterar “liberdade”, “abril” e “revolução” nos seus discursos. Éramos todos livres e a linguagem nestas coisas é mais importante do que se supõe.

A série começava por ter uma música de genérico absolutamente inebriante, atores que nos pareciam tremendos, heróis maiores que a vida, vilões abundantes e capazes e uma beldade de serviço, tão frágil quanto corajosa. Sem esquecer o kriss, o punhal estranho e mortal de “Sandokan”.

É interessante sublinhar o poder das coleções de cromos no prolongar da experiência televisiva de então. Recordando o óbvio, aquele era um tempo em que não havia boxes para gravar, internet ou sequer videogravador, mas a caderneta, com fotogramas da série e pequenos textos em baixo, eram um reviver daquelas aventuras, inimaginável aos dias de hoje. Naquele tempo, a ideia de poder ter em casa os episódios de uma série (em DVD, em cassete, numa plataforma) era menos imaginável que viajar até Marte de bicicleta, mas os cromos fotogramas serviam perfeitamente, porque a imaginação animava tudo.

Durante alguns anos, pelo Carnaval, os rapazes mascaravam-se de “Sandokan” e suspiravam por Lady Mariana (a “pérola de Labuan”), as raparigas apaixonavam-se pelo ator Kabir Bedi, não faltava quem desse o nome “Sandokan” ao cão e havia a curiosidade intrigante de um dos personagens ser português de nome Yanes (numa altura em que o presidente da República portuguesa era Ramalho Eanes).

Os adultos em Portugal podiam andar a lutar pela democracia em eleições sucessivas, mas a garotada estava bem entretida até porque o eco político e colonial de “Sandokan” passou ao lado de toda a gente.

A origem da espécie

“Sandokan” é uma criação do prolífico e mitómano escritor italiano Emilio Salgari (1862-1911) e foi publicada ainda no século XIX (!). Na criação de Salgari, “Sandokan” era um príncipe do Borneo que se tornou num pirata galã, garboso e valente e que o ator indiano Kabir Bedi (que viria a ser vilão em “Octopussy”, uma aventura de James Bond) imortalizou, décadas antes de Johnny Deep criar a sua versão caribenha muito parecida.

De tramas simples e que nos pareciam pouco ambíguas, os episódios eram uma mistura entre Indiana Jones e os Piratas das Caraíbas, mostravam as aventuras de um rei que ficou sem trono no Borneu e na Malásia e as suas lutas contra os colonos europeus. Uma espécie de índios contra cowboys passados na selva, com tigres à mistura. Era simples na sua premissa, sem as extravagâncias narrativas atuais, os milhentos subtextos e ambiguidades, com ótimas cenas de ação, asseguradas por um realizador habituado aos Western Spaghetti. A televisão europeia daquele tempo tendia para produções grandiosas e “Sandokan” foi filmada de facto na Ásia. O tamanho do elenco, o número de extras, a abundância e exteriores e décors mostram que “Sandokan” foi um projeto levado muito a sério. O êxito levou a que sucessivas continuações fossem tentadas, até em cinema, mas aquela magia estava perdida para sempre.

Nos recreios das escolas europeias, ainda longe de imaginar que em poucos anos seriam palcos de cultura americana, todos comentavam e brincavam ao “Tigre da Malásia”, razoavelmente alheios às dinâmicas colonialistas e da luta entre impérios que ecoavam da obra de Salgari, porque houve um tempo em que o mundo da televisão era uno e de mero e direto entretenimento, ao povo dava-se pão e circo. Não se debatia, não se exploravam as questões de época, os contextos, não se ia mais fundo. Era a este mundo da nostalgia que as gentes costumam referir-se quando dizem que “antigamente é que era bom”, ou, na sua versão estrita a este tema, “hoje a televisão está cada vez pior, antigamente é que era boa, acompanhada a pão barrado com Tulicreme e Sumol de ananás bebido pela garrafa.”

Salgari foi um personagem complexo, tendo-se suicidado por seppuku como os samurais, antes dos 50 anos, atolado em dívidas. Como Julio Verne, viajou pouquíssimo ou nada na sua vida real, mas era um mitómano que descrevia viagens fantásticas e proezas ímpares numa biografia inventada que recolhia em enciclopédias, histórias de marinheiros, revistas, jornais e, obviamente, produtos da sua imaginação. Salgari escreveu sobre piratas e corsários, westerns, aventuras da Rússia ou nas calotes polares, mas também sobre viagens do tempo. Sandokan foi o seu personagem mais famoso e a série Tigre de Monpracen (publicada em continuados em jornais da época, como Verne e Dickens faziam), viria mesmo a ser prolongada por outros escritores, com a matriz de Salgari a chegar até aos western spaghetti de Sergio Leone e aos seus vilões ruidoso e coloridos, ficando registada para sempre em quase cem obras.

Apesar de a crítica o considerar simples e até básico, aquilo a que poderemos chamar de escritor juvenil, direta ou indiretamente, a obra de Salgari foi importante em muita da ficção que adoramos e consumimos. Muita ação, personagens marcados, vilões magníficos, heróis apaixonados por beldades em amores impossíveis, percalços sucessivos nas odisseias dos heróis, antagonismos de enorme escala e um contraste entre os valores do antigamente (honra, bravura, lealdade, etc) e o progresso tecnológico que parece irreversível, como vimos em “Star Wars” (por exemplo) são devedoras da imaginação frenética de Salgari, que escrevia por dinheiro para pagar os tratamentos da sua mulher e sustentar os seus filhos.

Sem o talento ou a capacidade literária de Melville, Kipling ou H.G. Wells, Salgari esvaneceu-se e nunca chegou a ser verdadeiramente conhecido no mundo anglo-saxónico, mas não me admiraria que nos próximos anos as plataformas de produções de séries o viessem a descobrir.

P.S: Yanez de Gomera, o amigo de Sandokan, é inspirado no próprio Salgari, será, com Oliveira da Figueira de Herge, o português ficcionado mais lido de sempre.

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