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Vida Extra

De Coimbra à Figueira com algumas surpresas

Um passeio que parece óbvio mas que afinal não o é. Descubra porquê

Biblioteca Joanina, Coimbra

Ana Baião

Coimbra, ponto de início deste passeio, justificaria, por si só toda uma visita e toda uma crónica, tantos os pontos de interesse desta cidade, berço de uma das mais antigas universidades europeias. Atente na parte alta da cidade, todo o complexo da universidade coimbrã, com a Porta Férrea, o Pátio das Escolas, a Biblioteca Joanina e os laboratórios, alguns ainda de feição setecentista.

Já a Baixa coimbrã tem, além do património edificado (Igreja de Santa Cruz), a animação característica de uma zona pedonal e comercial (o eixo da Rua Ferreira Borges). Não deixe de espreitar os quarteirões de sabor medieval entre a Rua Ferreira Borges e a Avenida Fernão de Magalhães. É a Baixinha, labirinto de lojas antigas sempre muito concorrido.

Homenagem a Cassiano Branco

Na margem esquerda do Mondego são de visita obrigatória o recém-recuperado Mosteiro de Santa Clara-a-Velha e a obra de Cassiano Branco, o divertido parque temático doutros tempos chamado Portugal dos Pequenitos. Aqui encontra reproduções dos principais monumentos portugueses — quase sempre entrelaçados de forma criativa — bem como miniaturas de casas exemplificativas da arquitectura popular das diferentes regiões portuguesas.

Portugal dos Pequenitos

Portugal dos Pequenitos

Divulgação

Na margem contrária do Mondego a zona das esplanadas e bares, as “docas” que se estendem até à curiosa ponte pedonal Pedro e Inês (Adão da Fonseca, 2006).

Ponte pedonal Pedro e Inês, sobre o rio Mondego, na cidade de Coimbra

Ponte pedonal Pedro e Inês, sobre o rio Mondego, na cidade de Coimbra

Sérgio Granadeiro

Encantos do Baixo Mondego

Visto tudo isto ou a parte que mais lhe interessar, é tempo de partir ao longo do Mondego na direcção da Figueira da Foz. O trajecto feito pela estrada velha (N111) e não pela auto-estrada permitirá ir apreciando a paisagem, nomeadamente a forma como o próprio leito do rio mudou. Fruto do assoreamento e das tentativas seculares de controlar as cheias chegou-se a situações curiosas com o Mondego a correr, por vezes, por leitos paralelos ou as águas do rio, contidas por altos diques estarem a uma cota superior à das margens.

Um primeiro ponto de paragem é o duplo monte de Santa Olaia e Ferrestelo. O primeiro abriga restos de um castro e outras antigas ocupações humanas, enquanto o outro alberga vegetação rara e correspondente ao coberto vegetal de há muitos séculos e que, por razões diversas aqui se conservou. Do lado oposto da estrada, uma zona húmida que é um refúgio de aves migratórias quase sempre observáveis: o paul dos Taipais.

Castelo no meio dos arrozais

Bem visível ao longe, o castelo de Montemor-o-Velho ergue-se como uma ilha acima dos arrozais do Baixo Mondego. É através da Porta da Peste que se acede ao interior das muralhas. Lá do alto, uma paisagem inesquecível com os imensos arrozais traçados por filas de salgueiros, correspondentes a valas de escoamento. Para norte, do outro lado da estrada para Coimbra, o paúl dos Taipais e os referidos Santa Olaia e Ferrestelo.

O castelejo é um último reduto entre a torre de menagem e a cortina norte de muralhas. Alberga a igreja de Santa Maria da Alcáçova do século XI. O principal retábulo em talha dourada contém uma escultura de Nossa Senhora da Vitória.

A torre de menagem, de planta quadrada, fica a nascente, tendo dois pisos com aberturas ogivais. São visíveis os restos do Palácio das Infantas (D. Teresa, mãe de D. Afonso Henriques e D. Urraca). Data da época do condado portucalense, tendo sido modificado até à época manuelina, sendo a torre sineira posterior.

Interior do castelo de Montemor-o-Velho

Interior do castelo de Montemor-o-Velho

Rui Ornelas / Flickr

Refugiados e areias

A Figueira da Foz é o próximo ponto de paragem. A cidade desenvolve-se ao longo da margem direita do Mondego e prolonga-se para além da embocadura deste, através da praia até Buarcos e ao Cabo Mondego. Durante a II Guerra Mundial a Figueira acolheu centenas de refugiados, aqui compulsivamente alojados pelas autoridades, enquanto aguardavam vistos para outros países como os Estados Unidos. Por alguma razão Jorge de Sena aqui situou a acção de “Sinais de Fogo”.

Na zona pedonal entre o casino e a Esplanada Engenheiro Silva, nomeadamente junto da Havaneza, a cidade ainda conserva uma sugestão do ambiente dos anos 40. Isso já não sucede na extensa marginal que se estende até Buarcos. As novas construções criaram uma barreira entre a cidade e a praia, excepção feita ao Grande Hotel da Figueira da Foz.

O Parque das Abadias que se estende perpendicularmente ao mar desde o Museu Municipal e Centro das Artes e Espectáculos mostra como se pode crescer sem perder qualidade urbanística.

A praia é uma originalidade. Fotografias dos anos 50 mostram o mar a bater perto da actual marginal. Mas, devido à alteração da dinâmica das correntes costeiras decorrentes da construção dos esporões de protecção do porto comercial, a zona frente ao Grande Hotel assoreou (a praia tem quase 1 km de largura), enquanto no topo oposto da baía, para o lado de Buarcos, se parece verificar o fenómeno oposto, com o mar a comer todo o areal até à estrada.

Foto antiga da Praia da Figueira da Foz, anos 50 ou 60

Foto antiga da Praia da Figueira da Foz, anos 50 ou 60

Divulgação

Miradouro atlântico

Já a caminho do Cabo Mondego e da Serra da Boa Viagem atente na paisagem. Numa costa toda ela baixa e arenosa entre São Pedro de Moel e a Ria de Aveiro, este cabo é a única excepção. Eleva-se a 200 metros, proporcionando belas panorâmicas sobra a paisagem envolvente. É o caso dos miradouros da Vela (altitude 202 metros) e, sobretudo, da Bandeira, na vertente norte da serra, dominado a praia e a mata de Quiaios (altitude 258 metros). Vista daqui a costa estende-se a perder de vista, até à Lagoa de Mira, com a densa e larga barreira dos pinhais a proteger os campos interiores do avanço das areias. Vir aqui e apreciar a paisagem é uma das melhores homenagens ao esforço pioneiro dos engenheiros florestais que aqui trabalharam a partir de finais do século XIX.

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