11h00 06 Abr 19
Mais de 2 mil milhões de pessoas no mundo não têm acesso a água potável de origem segura. 1,8 mil milhões matam a sede com água contaminada e 4 mil milhões (quase metade da população mundial) passa por escassez de água, no mínimo, uma vez por ano. Os números da UN Water, que abrem a crónica desta semana, denunciam a falta de água e o estatuto de luxo que assume por más razões.
Cedo às minhas origens no jornalismo económico para continuar a debitar números das Nações Unidas. Cada ser humano necessita de 110 litros de água por dia para satisfazer as necessidades de higiene, limpeza, alimentação e outros consumos pessoais. Na maioria dos países europeus, cada pessoa gasta diariamente entre 200 e 300 litros (540 litros para os mais sedentos norte-americanos), contra os 15 litros consumidos por um moçambicano.
O bar Water by Lev está instalado em oito das 22 clínicas Lev e tem uma carta com mais de 50 águas diferentes
Em Portugal anuncia-se um verão seco e a abertura de um bar de águas raras, o primeiro no país e talvez o único na Europa, depois do encerramento da Colette em Paris, há dois anos, onde existia um espaço com estas características. No Water by Lev há mais de 50 variedades diferentes, engarrafadas ou enlatadas, que prometem muito mais do que apenas matar a sede. Umas repõem o oxigénio durante o exercício físico, outras são boas para curar a ressaca, despertar o estomago e os intestinos depois de uma noite de sono ou ajudar a perder peso.
Cyrill Decoret, francês radicado em Portugal há 20 anos, é a cabeça que está por trás do conceito que quer criar o hábito de ir a um bar para beber água. Ao longo dos últimos 17 anos populariza o ‘Comer para Emagrecer’, através das clínicas Lev e o programa de nutrição que põe quem tem excesso de peso a alimentar-se com as refeições confecionadas pela empresa que detém. O Water by Lev, localizado em oito das 22 lojas onde é feito o atendimento nutricionista, é o passo natural no caminho do negócio deste francês que tem um compatriota (o sommelier de águas Alexis Durand) como curador do catálogo de águas.
Entre as raridades encontra-se água de glaciares da Gronelândia (Inland Ice) e outra variedade, por exemplo, extraída de bolsas de água no fundo do mar (Aquagen)
Cerca de um a dois litros de água por dia é a quantidade mínima convencionada para garantir uma desejada boa forma física. Entre a saúde e o marketing, a degustação no bar da Lev começa com a Inland Ice, água de um glaciar da Gronelândia com seis mil anos que chega aqui depois de ter sido cortado em pedaços, derretido e engarrafado. Segue-se a água extraída de bolsas no fundo do mar, que vê a luz do dia com a denominação Aquagen, sem ser revelado o oceano em causa nem a localização das bolsas. Outra das preciosidades da carta é a Rosemary Water, que tem origem numa aldeia em Itália (onde é comum encontrar pessoas com mais de cem anos de idade) e promete longevidade.
Cyrill Decoret acredita que o negócio com este tipo de produtos contribui para a proteção das águas potáveis. Quanto mais não seja nas imediações dos locais onde são extraídas e produzidas, como glaciares, nascentes e aquíferos, cuja formação geológica subterrânea é capaz de armazenar água em lagos no subsolo. É vinda de um lago russo (aquele que é a maior reserva mundial de água doce) que chega a Baikal, batizada com o nome da bacia no sul da Sibéria onde é recolhida a H2O mais cara (€7) da Water by Lev. A viagem prossegue para águas francesas com a preferida por Luís XIV, a Chateldon 1650, que tem origem no centro de França e propriedades digestivas.
Águas com narrativa: boa para a obstipação (Mehrner Quelle), a bebida por Luís XIV (Chateldon 1650), promete longevidade (Rosemary Water) e repõe o oxigénio perdido com o exercício físico intenso (Oxygen Water e Oxygizer)
Por enquanto, Cyrill Decoret comercializa apenas as águas produzidas por outras empresas, mas em breve pretende ter uma marca própria, a lançar com dois goles de marketing: água preta de carvão ativado e água das nuvens. A primeira é mais ou menos óbvia (carvão natural acrescentado à agua), mais difícil poderá ser ingerir uma textura preta leitosa com sabor a água. A coragem valerá os benefícios desintoxicantes. Das nuvens, a extração é mais sofisticada e implica um reservatório assente na terra, com uns funis que recolhem a chuva produzida artificialmente com descargas elétricas, explica Cyrill Decoret.
Estas duas águas feitas à medida estarão disponíveis dentro de um a dois meses, com denominações que ainda estão por definir. Fora da estratégia está a hipótese de ter águas portuguesas. Cyrill Decoret não vê aí potencial porque são águas que qualquer pessoa pode encontrar e, por isso, não têm valor acrescentado. Em Portugal, o Governo prepara a limitação do consumo de água, quando mais de metade do continente está em seca moderada e 5% em seca severa. Março foi o Mês da Água, em abril não há (por enquanto) ‘águas mil’. Em África é preciso percorrer seis quilómetros, em média por dia, para ir buscar água. Mulheres e crianças gastam 200 milhões de horas (média anual) nesses percursos. Paradoxos do luxo da escassez.