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Vida Extra

O dia 1 de abril morreu. É preciso dar-lhe sepultura

Nesta carta de Winnie a Willie, Cristina Margato vai das notícias falsas, às notícias fabricadas pelos computadores, deixando algumas sugestões teatrais, a propósito de pós-verdade e outras mentiras, para o fim-de-semana. Do teatro à fotografia e à poesia há várias possibilidades

SEACAT

Querido Willie,

Eu sei que gostas de acompanhar as notícias de desporto nesse jornal que lês vorazmente e a que dás mais atenção do que a mim – pobre mulher atarefada com minudências do quotidiano. E sei que acreditas nelas, e que fazes muito bem, porque os jornais ainda procuram ser fiéis à realidade. Mas, como sabes, vivemos na época da pós-verdade, ou seja da dúvida, de uma dúvida insidiosa que se alastra a todas as pequenas questões do nosso dia-a-dia. A tal ponto que não sei se algum meio de comunicação social arriscou brincar no último dia das mentiras, como antes acontecia.

Paralelamente, e depois de tantas das nossas verdades terem falhado, de tantas hierarquias terem caído por terra, da nossa esperançosa convicção de que o progresso é contínuo ter sido abalada pela economia e as suas crises, de ter sido dada voz imediata e gratuita a todo o ser humano, tornando-o um especialista em tudo e coisa nenhuma, das nossas opiniões poderem ser válidas ainda que sejam pouco alicerçadas, cresceu uma tendência assustadora para se acreditar apenas naquilo que vem ao encontro das nossas crenças.

Delito geral, mundial, vírus infeto, de que a internet e os meios globais que esta colocou ao alcance dos homens se têm aproveitado, e bem, para fazer valer as suas mentiras. As mentiras que servem determinados propósitos políticos, nomeadamente o de instalar a confusão, manipular votos de uma forma que nunca antes existiu e a uma escala nunca antes imaginada. Assim tivemos o escândalo Cambridge Analytica, Trump, ‘Brexit’, Bolsonaro.

O teatro, lugar artesanal, arte pouco industrial, que tem sobrevivido a tudo, à rádio, à televisão, à internet, não tem deixado de estar atento a essas questões. Já te falei do texto escrito por Rodrigo Francisco, “A Fenda” (até 7 de Abril, no Teatro Joaquim Benite, em Almada), embora não tenha referido que a peça é sobretudo sobre jornalismo, e o desnorte em que vivemos até do ponto de vista emocional, outra questão que a internet e as redes sociais vieram despoletar.

Mas em breve, Willie, terás outra peça, que te aconselho a ver, e que se chama “Fake News. Naked News” (Teatro Municipal Amélia Rey Colaço, Algés, 12 e 13 abril 2019). Foi escrita por um dramaturgo, Ricardo Cabaça, atento à realidade, à mudança do clima, às questões sociais, ao tempo da pós-verdade. E é aqui que quero chegar, Willie. Como escreve Ricardo Cabaça, “habilmente aproveita-se uma determinada conjuntura para que seja instalado o pânico, o medo e a necessidade extrema de sobrevivência. Basta publicar uma fake news para que as pétalas da mentira sejam colhidas por milhares de pessoas.” Noutro registo, mas também atento ao mundo digital, poderás ver dos Teatro Praga, no CCB, uma atualização de "Timão de Atenas", uma espécie de Timão, nativo, primitivo digital.

E já agora, sobre as tais notícias de desporto, no outro dia, uma pessoa que sabe do que fala, contava-me que no Japão, os jogos de ténis já têm resumos feitos por computador. Ou seja, uma mega-máquina que leu muitos textos escritos por jornalistas, que aprendeu o jargão e as especificidades do jogo, e que consegue escrever sozinho, propõe um resumo, agradável à leitura humana, de cada partida de ténis, sem intervenção de seres humanos. É só um dos lugares onde essa inteligência artificial é usada, sem levantar problemas éticos, mas também provavelmente, digo eu, sem mostrar as subtilezas, as emoções dos jogadores e da audiência. O sistema poderá ser usado, em breve, para tantas coisas quantas nós deixarmos.

Samuel Beckett, o nosso criador, escreveu muitos textos em que se aproximou de uma verdade intemporal, ainda que tenha escolhido o absurdo como matéria. Mas os tempos, apesar de absurdos, não se aproximam da verdade. De facto, não é só a verdade que nos está a faltar, é também a poética da verdade.

E já agora, tendo em conta que também se perdeu a troça e a brincadeira do dia 1 de abril, não estava na altura de lhe dar uma sepultura?

Carinhosamente,

Winnie

Ps- Deixo-te com uma fotografia da exposição do fotógrafo Mário Cruz, galardoado com um dos prémios do World Press Photo, para ver no Palácio Anjos, em Algés, a partir de sábado, dia 6, e ainda a sugestão do podcast, Palavra de Autor, que gravei com Filipa Leal, de cuja poesia te falei há duas semanas. Um bom fim-de-semana!