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Nova Iorque tem tudo. Pastéis de nata da Manteigaria, croissants da Sacolina e obras de Hilma af Klimt e Mapplethorpe

Há novo “Inventário de Nova Iorque”, de Maria João Almeida, para ler no Vida Extra. “Nova Iorque tem o seu encanto, as suas peculiaridades e pequenos charmes. Menos ‘’fried oreos’’ no menu de sobremesas de um restaurante. Isso já não é um pequeno charme, é só colesterol à bruta.”

Estou feliz. Há umas horas comi um pastel de nata da Manteigaria e um croissant açucarado da Sacolinha. Sim, é verdade; diretamente de Lisboa para Nova Iorque. Uma colega minha passou em Lisboa nesta spring break que tivemos, e surpreendeu-me com estes mimos. Enchi-a de beijos, e fiquei ali a olhar para aquela caixinha com o sagrado pastel, ainda com o design que recordo, a mesma fonte, o mesmo logotipo. Afinal ainda há coisas que não mudam; dá para sossegar um bocadinho a saudade escondida. Das colinas no sol, os azulejos e as bicas.

Por aqui a Primavera faz-se tímida, não permite largar o casaco e o ocasional guarda-chuva. Olhei para o calendário no metro, a caminho de casa e apercebi-me de que faltam aproximadamente dois meses para terminar este meu primeiro ano aqui nesta cidade e nesta escola. É surreal. Nos meus ossos é como se ainda ontem estivesse a dormir no chão da sala desmobilada em finais de Agosto a torrar. Para onde é que foram os dias todos no entretanto?

Ficaram entretidos em ensaios, estações de metro, pedaços de neve cinza. Ficaram por aí, sem eu dar bem conta deles. Por isso, quando tenho tempo gosto de parar e estar comigo. Deambular por aí sozinha e descobrir ruas e cafés, lojas desprovidas de razão de existência.

Nestas curtas férias que tivemos fui ao Guggenheim pela primeira vez, que por algum motivo, acreditava ser bem maior. É um edifício curioso, em espiral, que não constitui aquele género de museu que cansa o pé, onde temos que fazer paragens estratégicas para recuperar forças. Em exposição estava ‘’Paintings for the Future’’, de Hilma af Klimt, uma pintora sueca do início do séc. XX, que por saber que a sua obra era demasiado abstrata e radical para a compreensão da altura, estabeleceu que esta deveria ser exposta apenas vinte anos após o seu falecimento.

Olhando para aqueles quadros, deparei-me com a questão óbvia a colocar - como é que alguém se lembraria, em 1906, de começar a desenhar aquelas formas, aqueles traços, aquelas cores, aquelas ideias? Como é que aquilo surge na sua cabeça? Como é que alguém tem estas primeiras ideias artísticas de vanguarda? Os primeiros grandes movimentos? É fascinante. E tão desconexo ao mesmo tempo, a altura em que vivia e o que pintava na tela.

Em exposição estava também uma pequena amostra do trabalho de Robert Mapplethorne — auto-retratos, polaroids, colagens e fotografias da cena S&M da Nova Iorque dos anos 70. Tão simples e cru. Preto no branco, literalmente. Patti Smith, fiel companheira, lá estava em várias das fotografias, claro, a lembrar-me do bonito sentido de irmandade que gosto de acreditar que existe entre alguns artistas. “Just Kids” foi um dos livros que, enquanto artista, me tocou de uma forma especial — creio que qualquer pessoa que almeje uma vida nas artes consegue sentir empatia ao ler a luta de ambos na Nova Iorque da altura, ainda mais dura e fria do que é agora.

Sei que não tem as colinas da minha Lisboa, mas mesmo quando é dura e fria, Nova Iorque tem o seu encanto, as suas peculiaridades e pequenos charmes. Menos “fried oreos” no menu de sobremesas de um restaurante. Isso já não é um pequeno charme, é só colesterol à bruta. Vá lá, América.

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