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Seinfeld. Esta é uma série sobre tudo que é pura metafísica

Seinfeld faz 30 anos e continua insuperável. E é sobre ela que escreve esta semana Pedro Boucherie Mendes, em mais uma entrada de “Séries com História”

George Lange/NBC TV/Kobal/REX/Shutterstock

O tempo passa, corre e Seinfeld – a sitcom da NBC acerca de “nada”– já vai fazer 30 anos neste nosso 2019. Incompreensível, estranha, mais novaiorquina que a estátua da Liberdade, violadora de todas as convenções, genial e geniosa, talvez Seinfeld seja a primeira pedra da grande televisão que vivemos hoje em dia, onde a quantidade de coisas de qualidade é maior do que imaginamos.

Emitida entre julho de 1989 e maio de 1998, ao longo de 180 episódios de meia-hora, divididos em nove temporadas, era o ponto alto dos serões de quinta-feira, líder de audiências, queriducha da crítica e demonstração dessa possibilidade cósmica que é poder haver coisas boas e simultaneamente populares em televisão generalista. Com palmas e gargalhadas enlatadas e um protagonista que fazia de ele próprio e era um dos piores atores de sempre, se Seinfeld tivesse surgido dez ou vinte anos mais tarde, seria por certo mais popular que Guerra dos Tronos, mais amada que Black Mirror e mais vista que as duas juntas. Como Pelé, que foi rei do futebol a preto e branco, Seinfeld conseguiu ser um fenómeno cultural num tempo em que as redes sociais eram devaneios de escritores de ficção científica e a televisão ainda nem sequer descobrira a reality television do fim de século.

Nem colegas, nem família

Seinfeld começa logo diferente. Os principais não são nem família, nem colegas de trabalho ou sequer membros de uma mesma organização. O que une o núcleo dos quatro personagens centrais é a cidade de Nova Iorque e ligações de amizade tão eventuais como quaisquer outras. Não demoramos a compreender que não há nem filhos, nem cara metade fixas, nem sequer planos de carreira além de uma semana. Do princípio ao fim das nove temporadas, os nossos quatro protagonistas ficam mais ou menos na mesma, cheios de falhas (até de caráter) e tão amigos como no princípio, enquanto nós vamos testemunhando os seus egoísmos, manias e obsessões.

Apelidada de série “acerca de nada”, na medida em que nunca se pôde encapsular o conceito numa fraseologia do tipo “um médico genial com bengala faz a vida negra aos que o rodeiam” ou “um sobrinho pobre vem viver com a família rica em Bel-Air”, Seinfeld (palavra que é o apelido de Jerome Seinfeld, um dos criadores e intérpretes) teve um arranque complicadíssimo e ficou muito perto do cancelamento porque se demorou um pouco a entrar naquela lógica meio absurda. A televisão costuma ser confortável e até cómoda, ajudando o espetador a orientar-se através de convenções, mas em Seinfeld essas marcações não eram nada evidentes e até inexistentes. Até chegarmos àquela estética assente no vago e no egocentrismo, os episódios sucedem-se sem que possamos dizer em concreto que se passou e por que é que rimos tanto, porque é a amoralidade é tão sedutora.

Aprendemos depressa que Jerry Seinfeld é um comediante sem estados de alma que vive sozinho em Manhattan e trabalha esporadicamente, que o seu azougado vizinho da frente é Kramer, que Elaine é uma ex-namorada menos feminina do que costumam ser os personagens femininos de sitcoms e George é um amigo ensimesmado, chato, irritante e perturbado que está sempre a aparecer com a sua depressão e megalomania a reboque, querendo ser o centro da atenção e da tensão. Cada um à sua maneira, os quatro são solipsistas, imunes ao que sucede fora do seu mundo, nem boas nem más pessoas além disso, apenas preocupados em tirar o melhor partido das situações. Como qualquer um de nós? Sim, como qualquer um de nós, daí a orfandade prolongada a partir de maio de 1998, quando foi emitido o último episódio original.

O nada que é tudo

Recordando que sitcom é uma corruptela de situation comedy, ou seja comédia de situação e que uma “situação” pode ser um aniversário, uma entrevista de emprego, um cano que entope ou um jantar à luz das velas, em Seinfeld há uma continuidade narrativa improvável e nada típica das comédias de meia hora naquele final de século XX, em que o muro de Berlin ainda nem sequer caíra. É quase como se houvesse “tempo a passar” e gente que vemos e voltamos a ver, como se fossemos testemunhas de uma dimensão existencial paralela à nossa.

O rasgo de Seinfeld está neste rame-rame inconsequente porque não tem prurido em partir do princípio que a vida é feita de debates que não levam a lado nenhum. Muita da televisão de hoje em dia, em especial as melhores comédias, são descendentes deste aparente niilismo que Seinfeld impôs a dezenas de milhões de espetadores babados que semanalmente tinham a sua dose. Outra das forças maiores da série, e incompreensivelmente poucas vezes emulada, foi a quantidade de personagens adjacentes (desde logo Newman, vizinho de Jerry e Kramer; os pais de George, os sucessivos namorados de Elaine, o nazi das sopas, o chefe de Elaine, o tio Leo, o advogado Jackie Chiles etc) e os cruzamentos feitos entre estes e as improbabilidades que abundavam na vida dos personagens principais.

Vista com alguma atenção, Seinfeld é um planeta com um povo e regras próprias, que por acaso decorre na terrena Nova Iorque. As camadas de texto e as historietas intricadas ao longo das temporadas só vão melhorando, em especial porque o ritmo narrativo aumenta bastante, com a série a acabar com quase o dobro das cenas do seu início.

D.R.

Património cultural

Quando dois fãs de Seinfeld se encontram, é habitual desatarem a competir sobre que episódio julgam ser o melhor ou que situação acharam mais insólita e inaudita. Aliás a melhor forma de ver a série hoje em dia é mesmo ir através dos inúmeros tops, rankings e listas que há na internet. Por exemplo, um dos episódios gira em torno de uma questão primordial da essência humana: a namorada de Jerry tem mãos de homem, que fazer? No imortal “Chinese Restaurant”, todo o episódio se passa na fila de espera para o jantar num restaurante chinês e num episódio posterior há um bebé que é o bebé mais feio jamais visto e o problema é como conseguir que os pais não percebam. É disto que estamos a falar quando falamos Seinfeld, ou ainda daquele episódio em George consegue um lugar de estacionamento tão bom para o seu carro que passará o resto do episódio a tentar não lhe tocar mais, apesar das solicitações de inúmeras boleias que recebe. Nenhum escrito consegue fazer justiça à combinação entre o texto, atores, edição, a que se somam efeitos sonoros e opções de música superlativas bem como opções de realização nada habituais naquele tempo.

Disponível na plataforma Amazon Prime (também em Portugal), nem todos os episódios resistiram ao envelhecimento, mais pela luz, realização, adereços e até roupas e penteados dos personagens, que pelo texto. Seinfeld começa ortodoxa, com quase toda a ação a decorrer no apartamento de Jerry, mas termina com muito exterior, muito movimento e muito décor diferente, como hoje em dia é frequente. Também deste ponto de vista foi fundamental para a televisão, ainda que, repita-se, em especial nas primeiras temporadas a ação fosse mais teatral e o ritmo se ressentisse. Compreende-se. Afinal de contas, Seinfeld era uma comédia de televisão generalista e não um produto de luxo de Cabo ou plataforma como nos habituámos. Seinfeld acelera de qualidade a partir da terceira temporada e torna-se matéria obrigatória para qualquer pessoa que queira ser humorista ou escrever comédia. Na química entre diálogos e situações, não há melhor.

Anos mais tarde, Larry David, o cérebro de Seinfeld e inspiração para o personagem George, oferece-nos outra obra prima, Curb Your Enthusiasm, onde leva as minudências e paranoias dos personagens ainda mais longe. Curb só foi aposta da HBO por causa da lição que Seinfeld deu à indústria da televisão. Porque valeu a pena dar carta branca aos autores das séries como Larry David e Jerry Seinfeld tiveram quase sempre nesta sitcom. O episódio piloto testou mal, mas verificou-se que era o público quem estava errado e ainda hoje todos ganham biliões de dólares anualmente pelas repetições e licenciamentos por todo o mundo.

Eleita (quanto a mim, com justiça) a sitcom mais bem escrita de sempre pela Writers Guild of America, mais de 75 milhões de americanos assistiram ao final da série, uma das maiores audiências de sempre na televisão americana.

Em Portugal, Seinfeld foi emitida na TVI generalista nos tempos pré-Big Brother e posteriormente na SIC Radical. Conviveu com Friends, uma comédia mais relatable, menos neurótica e perturbadora. Mas onde Friends é engraçada, divertida e sintonizada com o ar dos tempos, como todo o entretenimento de grande público deve aspirar, Seinfeld é pura metafísica.

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