Perfil

Vida Extra

Dormir com Ronaldo, Putin, Obama e Abramovich

Na crónica ‘Sem Preço’ desta semana a jornalista Catarina Nunes escreve sobre a experiência do ‘melhor de Portugal’, no Dão, com um mergulho no universo do Grupo Celso de Lemos, que conquista celebridades e o mundo

A crónica desta semana é literalmente o que lê no título. Dormir com Cristiano Ronaldo, Vladimir Putin, Barack Obama e Roman Abramovich. Sim, há quem consiga (e é portuguesa) ter o dom da omnipresença e partilhar a cama com o melhor futebolista do mundo, políticos que definem a organização mundial e um bilionário russo.

Chega o momento em que espero ter uma história ainda mais improvável do que aquilo que o título pode indiciar. De facto estas celebridades internacionais dormem com uma marca de lençóis fabricada na região do Dão, com todos os requintes que lhe confere o estatuto de luxo e parceira de intimidade de nomes inalcançáveis. Não é com este intuito que Celso de Lemos começa há mais de 40 anos a produzir tapetes de casa de banho, depois toalhas turcas e mais tarde lençóis. Emigrado na Bélgica, para onde foi estudar, decide aos 35 anos ganhar a vida a revender têxteis portugueses, que na época já são muito valorizados no estrangeiro.

Celso de Lemos, que exporta 98% da produção têxtil, inaugura a 29 de março uma loja própria em Pequim. Já tem outra em Nova Iorque, desde o início do ano

Celso de Lemos, que exporta 98% da produção têxtil, inaugura a 29 de março uma loja própria em Pequim. Já tem outra em Nova Iorque, desde o início do ano

Farta-se de comercializar o que não é dele e mete na cabeça a ideia de mostrar que o melhor do mundo é feito em Portugal, não só nos têxteis, como nos vinhos e na gastronomia. Na garagem de casa dos avós, na região de Viseu, começa a fazer tapetes de casa de banho. Não é um tapete qualquer: quer que seja o melhor do mundo. Avançando no tempo quase quatro décadas (Celso de Lemos tem atualmente 73 anos), o mundo parece rendido à evidência deste sonhador, que estende a ambição aos restantes têxteis que fabrica. A mesma intenção que é colocada nos vinhos, restaurante e no micro-hotel com três quartos, que integram a Quinta de Lemos e a Mesa de Lemos.

Mas regressemos ao início desta crónica. A companheira de cama e casa de banho de milionários internacionais faz parte do Grupo Celso de Lemos, mais conhecido pelas marcas Abyss, Habidecor e Celso de Lemos, que é um gigante mundial no têxtil de luxo. Exporta 98% da produção para 61 países, em cinco continentes, e os restantes 2% estão à venda em Portugal apenas nas lojas Paris em Lisboa e El Corte Inglés. Em Londres está no Harrods e em Nova Iorque apresenta-se no Bloomingdale’s, que é o maior cliente do grupo de Viseu.

A notoriedade em Nova Iorque é tanta que o grupo já se apresenta em Manhattan por si próprio. Desde janeiro deste ano, Celso de Lemos ostenta o seu nome na fachada de uma loja no número 294 da Columbus Avenue, a poucos quarteirões do Museu de História Natural e do Central Park. A ideia é criar uma rede mundial de lojas próprias, flagship stores, com uma segunda abertura agendada para 29 de março, em Pequim. Uma estratégia à qual não será alheio o facto de a China ser o país que mais cresce no consumo de têxteis para a casa. Além das toalhas e lençóis, as lojas têm à venda uma linha de cerâmica, criada por Geraldine de Lemos, uma das filhas de Celso.

A experiência na Quinta de Lemos passa pelo descanso em lençóis de 900 linhas e banhos que terminam com toalhas fofas, sobre a paisagem de Passos de Silgueiros

A experiência na Quinta de Lemos passa pelo descanso em lençóis de 900 linhas e banhos que terminam com toalhas fofas, sobre a paisagem de Passos de Silgueiros

Na base deste caminho internacional (em Portugal é quase inexistente, com 2% das vendas anuais de €15 milhões) está o que se passa em ‘casa’ de Celso de Lemos: entenda-se as fábricas, a quinta, a vinha e o restaurante gourmet, no vale do Dão. É desta região que Celso de Lemos parte para a Bélgica, onde ainda está radicado. E é a partir daqui que tudo acontece, antes do destino nas casas e barcos de celebridades ou em hotéis de luxo, como o Burj Al Arab, no Dubai, e o Grand Hyatt, em Hong Kong, por exemplo.

Pierre de Lemos é o cicerone na visita ao império Celso de Lemos, idealizado pelo pai. Primeiro a fábrica, que consome 20% dos fios extra longos de algodão produzidos no Egito, aqueles que detêm o título de melhor qualidade do mundo. São eles que garantem a durabilidade e toque suave, das toalhas, lençóis, roupões e chinelos de banho, que cada cliente comprova numa pernoita na Quinta de Lemos. Pierre, aliás, não gosta de vender a quem não experimenta previamente aquilo que lhe vai comprar, nem faz negócio na Internet.

Por isso, é ver distribuidores dos cinco continentes a atravessarem o mundo para se instalarem num dos três quartos de visitas na Quinta de Lemos. A experiência não se fica pelo descanso em lençóis de 900 linhas e banhos que terminam com toalhas fofas, num ambiente separado do exterior por uma parede totalmente envidraçada, que exibe um cartão postal da paisagem granítica de Passos de Silgueiros. A ‘overdose’ do melhor de Portugal não acaba aqui.

O restaurante Mesa de Lemos harmoniza o menu de degustação do chefe Diogo Rocha com os vinhos Quinta de Lemos

O restaurante Mesa de Lemos harmoniza o menu de degustação do chefe Diogo Rocha com os vinhos Quinta de Lemos

Fabrice Demoulin

Na ponta oposta à zona dos quartos (onde se encontra também a piscina interior com água aquecida), Celso de Lemos fecha o seu círculo do melhor de Portugal. É no restaurante Mesa de Lemos que o chefe Diogo Rocha harmoniza o menu de degustação com os vinhos Quinta de Lemos, que acumulam prémios internacionais no campeonato dos vinhos de topo, com preços acima dos €20 por garrafa. A totalidade da colheita nos 25 hectares de vinha é utilizada na produção de néctares exclusivos, como o Nélita 2016 (rosé), o Alfrocheiro 2012 (tinto), o D.Paulette 2010 (branco) ou o D.Georgina 2009 (tinto).

Se, no início, o Mesa de Lemos serve apenas os clientes do grupo Celso de Lemos e os amigos da família que pernoitam na quinta, agora já é possível a quem chega de fora reservar mesa, de quarta-feira a domingo. As criações de Diogo Rocha (que passou nas cozinhas do Vila Joya, em Albufeira, e do Valle Flor, no Pestana Palace) são feitas a partir de produtos da região, atum e ananás dos Açores, manteiga da ilha do Pico e sal do Algarve, entre outras preciosidades nacionais. No dia da minha visita, a viagem pelos sabores de Portugal passa, entre outros, por um pastel de massa tenra com atum curado e mostarda, um creme de míscaros e carabineiros, um porco com ervilhas e couves de Bruxelas, rematando com uma pera rocha com gelado de chocolate branco e chocolate ‘ruby’.

O espaço por onde se estende o restaurante, e se prolonga até à área dos quartos, foi idealizado pela designer de interiores Nini Andrade e Silva, que soma várias distinções internacionais sendo também um exemplo do melhor de Portugal. A estrutura de betão, aço e vidro, que ondula para acompanhar a topografia local, foi projetada pelo atelier Carvalho Araújo e chegou à final dos prémios Building of The Year 2014, do site de arquitetura ArchDaily.

A totalidade da colheita da vinha com 25 hectares é utilizada na produção de vinhos de topo, que somam principais internacionais

A totalidade da colheita da vinha com 25 hectares é utilizada na produção de vinhos de topo, que somam principais internacionais

Uns níveis abaixo desta construção (e na outra ponta da quinta com 50 hectares de área) a tradição contrasta com a modernidade. Na adega, supervisionada pelo enólogo Hugo Chaves, encontram-se os tais vinhos premiados que, em 2011, fazem o pleno ao serem todos distinguidos com mais de 90 pontos (numa escala de 50 a 100) no sistema Parker, a referência mundial na avaliação de vinhos. O prémio mais emblemático, esse, é uma medalha de ouro, em 2013, na categoria de vinho tinto português do Dão, com o D.Georgina (2005), no International Wine Challenge. Neste concurso, o mais prestigiado a nível internacional, o vinho (batizado com o nome da mãe de Celso de Lemos) recebe ainda a distinção James Rogers Trophy 2013, atribuído ao melhor vinho no primeiro ano de produção, passando a integrar o grupo dos cinco melhores vinhos do mundo.

A adega é literalmente uma gruta de Ali-Babá, localizada no piso abaixo da loja e da sala de provas, paredes meias com uma rocha granítica que se ergue até à superfície. Cubas, barricas e garrafas escondem vinhos monocasta de castas regionais, como touriga nacional, alfrocheiro, tinta roriz e jaen. Também aqui, o objetivo é provar o vinho e comprovar a certeza de Celso de Lemos de que os néctares do Dão são os melhores do mundo, mesmo não tendo a notoriedade e reconhecimento do Douro ou do Alentejo.

Hugo Chaves recorda que em 1997 são compradas as primeiras parcelas de vinha e a reconversão acontece em 2000. São seis mil pés de vinha por hectare que o enólogo exibe, orgulhosamente, como a mais densa de Portugal (o comum é ter 4 mil pés por hectare). Nos vinhos, na gastronomia, nos lençóis e nos atoalhados, Celso de Lemos leva o ADN português aos limites do mundo. Pierre de Lemos diz que o destino desta diversidade de negócios é a construção de uma marca de estilo de vida Celso de Lemos. Pôr o logotipo com quatro meias luas, que rementem para um trevo de quatro folhas, a deixar o rasto português.

Do Dão para o mundo

Grupo Celso de Lemos

Conjunto de cama com sete peças, €2 mil/€3 mil

Conjunto de atoalhados com sete peças, €450/€700

Quinta de Lemos

D.Georgina (2005), €108 (75ml)

D.Louise (2005), €15

Mesa de Lemos

Menu de degustação €145 (com vinho)

Menu de três pratos €55 (com vinho)

Siga Vida Extra no Facebook e no Instagram.