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No tecto do mundo português

Uma viagem ao Pico onde se situa o ponto mais alto do território luso. Mas os atractivos desta ilha açoriana não se ficam por aqui

Maurício de Abreu (Visit Portugal)

Há imagens que nos marcam para sempre e uma destas é a aproximação ao grupo central das ilhas açorianas. O avião, trate-se de um jacto vindo de Lisboa ou de um bimotor turbo-hélice vindo de São Miguel, começa a perder altitude à medida que se embrenha no canal de 20 km de largo entre as ilhas de São Jorge e do Pico. À nossa direita São Jorge, alta, rochosa e alongada. À esquerda o Pico, fazendo lembrar um chapéu mexicano: uma vasta zona relativamente plana donde se eleva um altaneiro volume cónico que parece subir para a estratosfera.

É difícil saber até onde se eleva pois está invariavelmente rodeado por nuvens que se entrelaçam em torno da cumeada. É o famoso cachecol de nuvens, tão inseparável da imagem da ilha do Pico como um cometa da sua cauda.

Seja qual for o nosso eixo de aproximação, o vulcão do Pico, elevando-se a 2351 m de altitude (mais que a continental Serra da Estrela ou o madeirense Pico Ruivo), domina sempre a paisagem. Nem que naveguemos vindos do vizinho Faial e nos aproximemos do porto da Madalena, embalados pelas ondas do Atlântico, haja ou não mau tempo no canal, tenhamos, ou não, lido o romance do grande Vitorino Nemésio.

Para os viajantes de alma desportiva, desejosos de acrescentar mais uma façanha ao seu cardápio de aventuras, a subida ao topo do vulcão do Pico, incluindo o famoso Piquinho, espécie de pirâmide vulcânica que acrescenta mais 70 m à montanha (a escalada desta última elevação passou a ser proibida por razões ambientais), justifica por si só a viagem. Implica algumas precauções, a principal das quais é ser acompanhado por um guia certificado, isto para além de estar minimamente em forma e ter roupa e calçado adequados.

Mas, parafraseando o antigo presidente da República Jorge Sampaio, o resto da ilha está para a montanha, como a vida para o orçamento de estado de 2003, ou seja, há mais ilha para além do vulcão do Pico. Muito mais, na verdade.

Memórias baleeiras

A primeira coisa que vale a pena ver na ilha do Pico é a evocação dos tempos heróicos da caça à baleia (em bom rigor, ao cachalote). Entre meados do século XIX e a década de 80 do século seguinte a actividade baleeira teve enorme importância na economia desta e das restantes ilhas, mesmo levada a cabo em condições precárias.

Para saber mais sobre a saga dos baleeiros do Pico, nada melhor do que arranjar um carro e percorrer a meia centena de quilómetros que separa a Madalena (na costa oeste) das Lajes do Pico na costa sul. Aí poderá ver no Museu dos Baleeiros como eram elegantes mas frágeis os botes em que estes ilhéus se aventuravam atrás das mastodônticas presas e como a diferença entre a vida e a morte podia ser medida em escassos segundos, aqueles que demorava a cortar o cabo do arpão, se o barco estivesse em risco de virar ou de ser arrastado para os fundos abissais.

A partir de 1987 este tipo de pesca foi proibido, no quadro das convenções internacionais de defesa das espécies protegidas, mas 150 anos de tradições não desaparecem da noite para o dia. Nem devem desaparecer, daí o valor deste museu, complementado na zona norte da ilha, pelo da indústria baleeira, em São Roque, onde foram guardadas as máquinas e ferramentas com as quais se fazia o desmonte dos cetáceos caçados para, entre outras coisas, se lhes extrair o precioso óleo.

Sinal dos tempos, os arpões foram substituídos por máquinas fotográficas e o objectivo dos barcos que agora saem à cata dos cetáceos é compreender e apreciar em vez de matar. Ao fazê-lo, criam alguma receita para a economia local.

Ainda nas Lajes do Pico há uma referência a reter em matéria de gastronomia: o restaurante “O Lavrador”, com um pequeno museu agrícola anexo. Consoante os gostos de cada um, a saborosa alcatra ou a delicada abrótea cozida são algumas das sugestões a considerar.

Museu dos Baleeiros

Museu dos Baleeiros

Museu do Pico (Governo dos Açores)

Terra de lava e vinho

O regresso à Madalena pode fazer-se a meia encosta, por exemplo subindo à curiosa Lagoa do Capitão, sobranceira à vila de São Roque e situada a 900 m de altitude. Neste planalto central da ilha se situa a maior recta destas redondezas: uma estrada absolutamente linear com nada menos de 9 km de extensão.

A partir de São Roque, e dando a volta à ilha no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio, começamos a entrar numa zona de dupla maravilha: a do vinho e a dos mistérios, de resto inseparáveis. Ao longo de séculos o labor dos viticultores foi desbravando o terreno rochoso para cultivar a vinha. As pedras iam sendo acumuladas para formar extensos e tortuosos muros de separação. Passada a crise oitocentista do oídio e depois de décadas de ocaso, o verdelho do Pico voltou a ganhar alguma projecção, antigos vinhedos têm sido recuperados e, aos poucos, as vendas deste vinho voltaram a ter expressão.

Quanto aos mistérios, são formações geológicas espectaculares, nascidas do encontro entre as águas oceânicas e as lavas que escorriam do vulcão durante as muitas erupções, as mais violentas das quais ocorreram em 1572, 1718 e 1720. Alguns dos mais impressionantes situam-se (no sentido São Roque-Madalena) na Prainha e nas Bandeiras.

Rampas para o oceano

Vale a pena ver a curiosa formação rochosa conhecida como Cachorro e descobrir as rampas através das quais os pipos do verdelho eram laboriosamente descidos até botes que, à falta de portos capazes, pairavam por ali e depois os levavam para embarcações maiores. O nome diz tudo: rola-pipos.

Já perto do aeroporto e da Madalena vale a pena visitar o Museu do Vinho, em cujo pátio há um portentoso dragoeiro secular. E um curioso edifício moderno à beira-mar, cujo projecto foi premiado, o Cella Bar, mistura de bar e de restaurante com vista esplendorosa paras o canal e a não muito distante ilha do Faial.

Depois disto quem ousará dizer que o Pico é só montanha?

Cella Bar na ilha do Pico , Açores

Cella Bar na ilha do Pico , Açores

Divulgação

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