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Ser abençoada por um nativo americano num domingo à tarde? Só mesmo em Nova Iorque

“E aqui nesta cidade há tantas formas de vida. É um habitat perfeito de exploração do ser humano e do que ele pode fazer.” A atriz Maria João de Almeida transporta-nos uma vez mais para Manhattan. Há mais uma entrada da crónica “Inventário de Nova Iorque”, às quintas-feiras no Vida Extra

A Maria está neste momento na cozinha a falar com bolas de falafel enquanto elas cozinham. “C’mon guys, cook already! Oh don’t you look pretty Frank! And Lola! I’m gonna call you Lola!” O facto dela dar nomes às bolas de falafel que vai ingerir daqui a uns minutos poderá causar-me alguma insónia, mas eu sou forte.

Mais um dia longo nesta ilha de prédios altos, com frio e ameaça de chuva. Estou pronta para a Primavera. Podes vir Primavera. A próxima semana não tenho aulas, é a nossa “spring break”; o que me aquece o pensamento e faz muito feliz, em antecipação de todas as coisas que não vou fazer, e das outras tantas que vou efetivamente fazer (como, finalmente, ser turista em Nova Iorque). Não vou certamente para Tijuana, nem vou conviver com o James Franco em tranças e dentes de ouro; ainda assim penso que serão uns bons dias de descanso.

Comecei duas novas aulas - stage combat e improvisation - o que faz com que o meu único dia livre seja domingo; causa olheiras e corpos doridos, mas é a melhor sensação do mundo.

Midtown Manhattan

Midtown Manhattan

E ainda quando tenho dias menos positivos ou brilhantes, Nova Iorque consegue dar-me sempre alguma espécie de luz, algum momento cinematográfico que faz tudo valer a pena. No outro dia fui ver o filme ‘’Greta’’ - apenas digo que a Isabelle Hupert é uma grande senhora - e no fim, enquanto esperava pelo elevador que nunca mais vinha, tive um encontro, no mínimo, peculiar.

Quando finalmente se abrem as portas, percebo que está completamente cheio e não consigo entrar. Devo ter feito uma cara de robalo exasperado, visto que um homem atrás de mim me diz “Not your day, uh?”, com um sorriso meio misterioso, escondido por entre o seu boné de fim-de-semana. Eu apenas digo um “I guess not”, com um semi-sorriso, e ele volta com “do you know the eagles that fly high?”. E eu “what?”, e ele “do you know the eagles that fly high?”, ao que eu respondo que sim, sem perceber onde é que esta conversa poderia levar. Ele continua “they fly so high that almost no one can see them. But they’re the ones up high on top. You fly high.” E eu fico ali um bocado a digerir aquela informação.

Portanto sou uma águia que voa alto, mas isto como um elogio, certo? E finaliza com “and you’re gonna have a good day”. Entra num elevador e assim acaba a nossa estranha interação. E eu só pensei “Ai Meu Deus, será que acabei de ser abençoada ou algo do género por um nativo americano num domingo à tarde?” Isto só mesmo em Nova Iorque.

Outra coisa inédita que um rapaz lá do studio me contou foi que quando era criança, isto nos anos 90, foram várias as vezes em que médicos se recusaram a aceitá-lo enquanto paciente. E porquê? Porque ele tem duas mães. Sei que eram os anos 90, mas não foi assim há tanto tempo, o que me chocou um pouco, e fez pensar que de facto ainda há muito que evoluir no pensamento geral a nível social. É-me estrangeiro um profissional de saúde negar tratar alguém em necessidade por este último não se encaixar nas normas que o primeiro considera aceitáveis. Faz-me mesmo confusão como é que certas ideias se formulam na cabeça de algumas pessoas, chega a assustar até.

Algo em que sempre acreditei e que acredito cada vez mais, é que não há “um percurso de vida”, “um caminho” ou “uma fórmula”. Há inúmeras variáveis de formas de vida, e todas elas têm direito a existir e a serem respeitadas. Por exemplo: vivo neste momento com uma pessoa que viveu grande parte da vida dela na Índia, cercada por yoga, meditação; vem de um círculo familiar muito mais liberal do que o meu, e tem um percurso de vida completamente diferente do que eu vivi.

Ela poderia achar o meu estranho, assim como eu poderia achar o dela estranho. No entanto, aos meus olhos são apenas dois conjuntos de dias que foram vividos de maneiras diferentes; não há nenhum certo nem errado. Sinto que, às vezes, há uma linha grossa marcada que tenta definir o que é a “vida normal”, e tudo o que saia dessa lista de eventos, já é um bocado “esquisito”.

Eu gosto de esquisito, eu gosto de diferente. Se eu não conhecer o diferente como é que posso aprender? Como é que posso ganhar outra coisa que não o que já sou?

E aqui nesta cidade há tantas formas de vida. É um habitat perfeito de exploração do ser humano e do que ele pode fazer, onde pode ir, o que pode querer dizer e mostrar. Estamos todos aqui para fazer alguma coisa e nós sabemos o que é, só que às vezes temos medo; tal como a criança que pinta o céu com o marcador grosso de cor verde. Porque não verde? Se eu quiser que seja verde, assim pintarei. Amanhã pode ser que volte a ser azul.

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