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Onde Lady Godiva se passeou como veio ao mundo

Uma viagem a Coventry, celebrizada pela lendária cavalgada da condessa Godiva, devastada pelas bombas nazis na II Guerra Mundial e capital da indústria automóvel britânica até 1980

Não tem a monumentalidade de Londres nem a fama de Oxford ou de Cambridge mas é uma das cidades britânicas que vale a pena visitar. Coventry, 150 km a noroeste da capital britânica, tem, logo à partida, uma vantagem: o turismo na versão horda predadora não passa por aqui. Há estrangeiros, portugueses incluídos, e muitos, mas vêm estudar. Aprendem design ou engenharia numa das mais cotadas universidades inglesas modernas.

Sem sombra de Brexit…

Quando por lá passei, no segundo fim-de-semana de Março, o debate sobre o Brexit ainda não tinha voltado ao parlamento (a senhora May voltaria a ser derrotada na terça-feira passada, dia 12 de Março) mas, tanto nas ruas como na imprensa local, o assunto não parecia enervar ninguém.

Bem no centro da cidade, na montra da agência de viagens Thomas Cook, um anúncio prometia “férias à prova de Brexit” ou seja a preço inalterado para quem comprasse agora o pacote de Verão. Já a imprensa local dava mais relevo a uma vaga de assaltos à facada em diversas zonas de Londres do que à crise política.

Estátua de Lady Godiva no centro de Coventry

Estátua de Lady Godiva no centro de Coventry

… nem de pecado

Numa cidade de dominante moderna mas com escala humana o passado medieval é evocado aqui e ali. É o caso das ruínas da muralha do século XIV, com nove metros de espessura e portas raras e estreitas, como ainda se pode ver em Cook Street, sinal de que os tempos de então eram agitados.

O destaque vai para a estátua, em pleno centro, de Lady Godiva, a aristocrata do século XI que aceitou cavalgar nua pelas ruas da cidade caso o marido aceitasse melhorar a sorte dos pobres da cidade. De todos, menos daquele que teve a ousadia de a espreitar e teve os olhos vazados, o pobre Peeping Tom, cuja figura grotesca está imortalizada na empena de um prédio vizinho.

Aqui e acolá há casas medievais com barrotes de madeira à vista, quase sempre acolhendo pubs e restaurantes, mas são poucas. Percebemos porquê ao visitar as ruínas da catedral. Dedicada a São Miguel e datando do século XIV foi quase totalmente destruída durante a Batalha de Inglaterra.

Ruínas da catedral de São Miguel

Ruínas da catedral de São Miguel

A noite em que a catedral ardeu

Na noite de 14 de Novembro de 1940 Coventry foi atacada pela Luftwaffe. Vagas sucessivas de aviões bombardearam a cidade até de madrugada lançando 36000 bombas, parte das quais incendiárias. Dos 515 bombardeiros que intervieram na operação apenas um foi abatido. Os estragos foram tremendos: 560 mortos, 863 feridos graves e 4300 casas destruídas. Só não morreu mais gente porque havia abrigos antiaéreos e a maior parte dos residentes, alertada por ataques anteriores de menor dimensão, passara a dormir nas aldeias envolventes.

O objectivo da operação era, além de desmoralizar e aterrorizar a população, destruir as muitas fábricas por aqui existentes, nomeadamente de automóveis, trabalhando para o esforço de guerra britânico. Um terço das fábricas foi destruído, caso das instalações da Daimler e da Humber-Hillman. A devastação foi tal que o estado-maior alemão criou uma nova palavra para designar operações visando arrasar totalmente cidades: “Coventrieren”…

Por opção a velha catedral nunca foi reconstruída, permanecendo como um monumento à memória das vítimas mas também como um símbolo de reconciliação entre os povos, expresso por exemplo pela escultura dedicada a Hiroshima. Coventry foi geminada com a cidade alemã de Dresden, destruída pelos bombardeiros aliados em 1945.

Em 1956 sir Basil Spence projectou uma nova catedral, também dedicada a São Miguel, construída ao lado da anterior e concluída em 1962.

Museu dos Transportes, sala da II Guerra Mundial

Museu dos Transportes, sala da II Guerra Mundial

Ascensão e queda da nova Detroit

Em bom rigor não foi apenas a guerra a arrasar a zona medieval. Desde os anos 20 que estava em curso um plano de demolições para adaptar a cidade ao automóvel, prosseguido após 1945.

Automóvel é, de resto, a palavra-chave para caracterizar esta cidade. A partir de finais do século XIX aqui se instalaram os pioneiros das máquinas que haviam de mudar o nosso modo de vida. Primeiro pequenas fábricas artesanais de bicicletas que depressa começaram a produzir também motos e carros.

Marcas, algumas das quais desaparecidas mas que muitos de nós ainda recordam, nasceram aqui: Triumph, BSA, Norton, Hillman, Rover, Jaguar, Standart, Talbot…

O ponto alto coincide com o pós II Guerra Mundial, altura em que Coventry foi chamada “a Detroit britânica”. E de facto era-o: entre 1962 e 1964 o Reino Unido produziu nada menos de 1.800.000 carros, um quinto dos quais provenientes de Coventry.

Depois, a batalha da qualidade, da inovação e dos preços começou a ser ganha, tanto pelos inimigos como pelos amigos de ontem, nomeadamente japoneses alemães e franceses. Iniciou-se um ciclo de fecho de fábricas que só terminou em 2005 e 2006 com o encerramento, respectivamente, das instalações da Jaguar (transferidas para Birmingham) e da Peugeot.

Museu dos Transportes, evocação de uma greve

Museu dos Transportes, evocação de uma greve

Tudo isto, incluindo a vida quotidiana dos operários e os conflitos sociais aqui ocorridos, está exemplarmente documentado no Museu dos Transportes. Aqui se podem apreciar centenas de viaturas de todas as épocas, desde as mais humildes bicicletas a veículos blindados de transporte de pessoal, sem esquecer veículos da casa real ou o Talbot Sunbeam a bordo do qual Henry Toivonen começou a dar que falar nos ralis.

Um lugar de honra alberga o autocarro Daimler de dois andares que em 1987 transportou a equipa de Coventry ao estádio de Wembley para conquistar a taça de Inglaterra.

Museu dos Transportes, coleção de miniaturas de automóveis

Museu dos Transportes, coleção de miniaturas de automóveis

Mais rápido que o som

Há uma secção de Corgy Toys e afins que rivaliza com a colecção de qualquer museu do brinquedo. As últimas salas do circuito de visita homenageiam os pilotos e engenheiros britânicos que se empenharam em bater os recordes de velocidade sobre rodas, caso do ThrustSSC projectado por Richadr Noble. Impulsionado por duas turbinas de avião Rolls Royce, bateu o recorde do mundo atingindo os 1228 km/h, ultrapassando a velocidade do som (1226 km/h) em 1997, guiado pelo ex-piloto da RAF Andy Green.

A localização dos motores e a forma da cabina inviabilizavam a montagem da direcção nas rodas da frente, pelo que as rodas direccionais passaram a ser as traseiras. Para testar o conceito, um Mini foi adaptado: o eixo dianteiro passou a ser fixo, passando a direcção para uma estrutura tubular agarrada à traseira do carro. Funcionou! Tiremos o chapéu aos gloriosos malucos das máquinas rolantes que fizeram a grandeza de Coventry e cuja saga continua, agora não nas fábricas mas na faculdade local de engenharia.

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