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Desenhos animados para adultos. Breaking Bad tem muito que se lhe diga

Leia a nova entrada de “Séries com História”, crónica de Pedro Boucherie Mendes. Esta semana há texto sobre Breaking Bad

Concebida e escrita por Vince Gilligan, um veterano argumentista de X-Files, Breaking Bad conta a história relativamente simples de um professor de química do liceu, homem apagado e refilão, com mulher e filho, a quem é descoberto um cancro. Perante as despesas que se lhe afiguram com os tratamentos, é induzido a usar os seus talentos químicos para fazer droga em laboratório, até pagar as contas e se curar. As coisas acontecem no Novo México, mais exatamente Albuquerque, em tons de bege desmaiado, calor, ar seco e perfume a deserto. Ninguém parece muito feliz, como ninguém parece muito feliz na vida real. É neste contexto onde o extraordinário (produzir metanfetaminas em casa) invade o ordinário que nasceu uma das melhores séries de sempre e talvez aquela que melhor ilustra o que deve ser feito se quisermos construir uma obra televisiva de ficção.

Embora firme, a ascensão de Breaking Bad foi uma lenta caminhada, com inúmeras peripécias, desde a greve dos argumentistas que interrompeu bruscamente a primeira temporada, a uma interrupção de quase um ano na última e final. O seu criador chegou a agradecer publicamente à Netflix por ter salvo a série de cancelamento, porque foi nesta plataforma, revisitando as primeiras temporadas, que muita gente a descobriu. Isto é, não se trata de uma mega aposta de ninguém, mas de um grower, um underdog, uma série de um canal de cabo que ganhou vida por boca-a-boca, literalmente uma modesta ficção com poucos personagens que teve de ser filmada no Novo México por benefícios fiscais, que conseguiu entrar para a história da televisão.

Desenhos animados

A ideia é perturbadora, mas a violência pode ser muito divertida. É ir ao Youtube e ver os desenhos animados Bugs Bunny, Daffy Duck ou Tom and Jerry dos anos 50. Ou escolher desenhos animados japoneses mais ou menos ao calhas e perceber como bombas, explosões, cofres pesados a cair em cima de cabeças ou blocos de pedra a esmagar corpos nos fazem rir à gargalhada.

Talvez o vírus Breaking Bad tenha começado a inocular por aí, pela assinalável de dinâmica de desenhos animados que existe nas primeiras temporadas. Anonimamente emitida no canal AMC entre 2008 e 2013, que lhe pegou depois de ter sido recusada pela HBO, Showtime e FX, só mesmo quando a série foi adquirida pela Netflix, num pacotão com outras centenas de horas de televisão em segunda mão, é que BB ganhou a tração que lhe vale hoje em dia a consideração total de público e crítica. Para toda a gente (mesmo toda a gente) esta é das melhores séries jamais feitas para televisão, amplamente elogiada, citada, referenciada e até imitada.

É difícil, talvez impossível, desmembrar o fenómeno, como é separar os ingredientes de um bolo saborosíssimo, depois de o vermos na mesa. A verdade é que tudo contou, todos os detalhes. Atores, escrita, direção de fotografia, realização, locations, até as cores aborrecidas na roupa do protagonista, o seu carro horrendo, a música, os atores secundários, o ambiente do novo México, o azul “white walker” escolhido para cor das metanfetaminas.

Hoje Breaking Bad é uma instituição, um corpo de significados e uma obra maior da cultura popular, que pode ser vista divertidamente, a quatro ou cinco episódios de seguida, mas que se presta a uma exegese e interpretação sobre os códigos e processos da produção de audiovisual de ficção como muito poucas.

Breaking Bad é um gigantesco, delicioso, empolgante e entusiasmante tutorial de como contar histórias através das imagens. Por exemplo, quem quiser um dia aspirar a ser um ator razoável, deve olhar a prestação de Bryan Cranston no protagonista e ver como se veste, usa a roupa, os óculos, o cabelo, como toca na mulher e no filho, o som da sua voz, as modulações, a forma como a câmara não o consegue largar, as costas curvadas, os ombros caídos, o ridículo a que se entrega, como reage a quem o interpela e como tudo se vai alterando gradualmente. Começámos por ver uma série sobre um pobre coitado que tem de ser criminoso para se curar do cancro e acabamos a ver uma série sobre um homem amoral, asqueroso, violento, manipulador que já foi um pobre coitado. Bryan Cranston consegue um papel tão forte que o ator Anthony Hopkins fez questão de entrar em contacto com ele para lho dizer.

Em Jesse (o ator Aaron Paul), um adolescente criminoso de meia tijela, que começa por ser o aluno com ideias mirabolantes, se torna cúmplice e que nós espetadores começamos por desprezar, temos um dos personagens mais singulares da história da televisão. O ator fez o seu trabalho tão bem que não só os argumentistas não o mataram no fim da primeira temporada (como previsto), como o tornaram a principal bússola moral da série e o mais decente, sensível e corajoso personagem. Certas cenas de tristeza e desespero de Jesse ao longo das temporadas (quase todas por culpa direta ou indireta de Walt) são difíceis de ver pela raiva e frustração que nos provocam de nada podermos fazer por ele.

Essa hipotética exploração ao mundo Breaking Bad (que recomendo a todos quantos queiram trablhar neste meio) será também uma viagem por uma narrativa frequentemente divertida, quase absurda, em que vilões são dissolvidos em ácido porque não há o que fazer com eles. Se se tratasse de desenhos animados para adultos, BB seria uma série extraordinária, com abundantes planos daqueles catos com que se faz tequila, malvados com botas cheias de esporas, carros rápidos e diálogos pinguepongue de expressões manhosas. Sendo uma série “de carne e osso” (ou live action) resulta nesses desenhos animados ainda melhores.

Esquecer os spoilers

A melhor maneira de assistir a Breaking Bad (disponível na Netflix) é ler antecipadamente o mais possível acerca da série e não nos atermos a essa parvoíce que são os spoilers. Também sabemos como acaba Romeu e Julieta, Os Maias e tantas outras histórias e não é por isso que não continuam a ser contadas, lidas ou vistas. Aliás, até é bom sabermos como termina (e sim, BB tem um final francamente decente), porque isso retira alguma ansiedade e permite que se olhem os detalhes com olhos bem abertos.

Por exemplo, será de notar como os atores se impõem e forçam os autores do texto a escolher caminhos alternativos. Gus Fring, um dos principais antagonistas de Walt, é convincente a um ponto que se torna fixo no elenco e não apenas presença em cinco ou seus episódios. Hank, o seu cunhado, começa por ser o típico polícia chico esperto e pachola, mas nunca cederá na sua obsessão de apanhar Heisenberg (que não suspeita ser o seu cunhado) e conquista não só o nosso respeito, como muito mais “screen time” do que julgaríamos possível. Anna Gunn, que interpreta a mulher do professor tornado traficante, foi tão capaz que acabou por ser ameaçada por fãs por se estar a fazer a vida difícil ao personagem. Por ridículo que possa parecer, a polémica forçou a atriz a escrever um artigo no New York Times. Insanidades à parte, isto demonstra o enorme talento da atriz e a qualidade do texto e comprova esta lógica “desenhos animados” de BB, além de uma certa masculinidade que lhe é subjacente.

A expressão “Breaking Bad” não é óbvia para quem não é americano, até porque é um coloquialismo. Numa tradução possível à brasileira, poderia ser “tornando-se mau”. Em português escolheu-se “Rutura Total” aquando da sua emissão no extinto canal FX, mas na sua exibição posterior na SIC Radical, o título já não foi traduzido. No Quebéque, por exemplo, era Breaking Bad, o Químico e Breaking Bad ficou em todo o lado.

Ao longo dos 62 episódios, Walter vai gostando da ideia do dinheiro que a droga lhe dá, do poder que esse dinheiro confere e acima de tudo de passar a ser um tipo temido, respeitado, um líder. O apagado e simplório Walter bom assina um pacto Faustiano com o pérfido e complexo Walter mau e arrasta tudo pelo caminho, em pequenos e médios enredos excelentes, antagonistas extraordinários (desde logo Gus Fring), cúmplices inesquecíveis (Jesse, claro), muito humor em situações involuntárias, ganchos na história muito bem desenvolvidos ao longo de dois anos narrativos, em que Walter endireita as costas, rapa o cabelo, é novamente pai, arranja outro nome para si (Heisenberg), mata direta ou indiretamente mais de 200 pessoas, algumas muito inocentes, incluindo crianças. Como alguém disse ou escreveu, esta será a única série em que começamos por nos identificar com o protagonista (o Walter bom, que descobriremos depressa é um génio da química que foi em tempos atraiçoado num negócio pelos sócios) e acabamos por desejar que ele tenha a pior morte possível.

Breaking Bad acabou por nos dar um spin off, muito mais televisivo e menos fantasioso e exagerado, o incrível Better Call Saul, baseado na backstory de Saul Goodman, o advogado de Walt, que funciona como fornecedor de humor pertinente à ação, com os seus comportamentos estranhos, gravatas coloridas e estratagemas de filme de série B.

Também está disponível na Netflix e em voz baixa alguns já dizem que é melhor que BB. Não digo que não.

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